Mês: dezembro 2015

Crítica: Na ri xia wu (Afternoon) – Tsai Ming-Liang (2015)

Para um desconhecedor dos filmes de Tsai Ming-Liang, durante os 15/20 primeiro minutos desse novo filme pode haver uma confusão não esclarecida sobre quem é quem: há uma indiscernibilidade entre esses dois sujeitos, ele e seu ator de muitos filmes Kang-sheng Lee (Rebeldes do Deus Neón, O Rio, O Buraco, Que Horas São Aí, Adeus Dragon Inn, O Sabor da Melancia, Cães Errantes, Jornada ao Oeste). Compartilham um passado em comum, estão em comunhão. Eles pensam o trabalho em conjunto. O “nós” é bastante usado.

Exemplos: Tsai diz: “Nós podemos parar a qualquer momento”. “Lembra-se de quando nós vendemos ingressos pro nosso filme?” E a comunhão fica explícita em tais falas: “Se quiserem entender nossos filmes, devem não me estudar, mas estudar você”, diz Tsai. Ou dizendo para uma terceira pessoa: “Estou declarando meu amor pra ele [o ator].” “Ficaria satisfeito só em filmar você andando.” A abertura de Lee ao diretor é sincera: “Podemos conversar a hora que quisermos.”, como não se importando muito com a “importância” da ocasião, revelando muito de quem é pessoalmente. Eles pouco se embaraçam pela câmera, embora a presença de uma equipe, mesmo que reduzida, os deixar precavidos a falarem com profundidade de assuntos tão extremos.

A estrutura do filme é simples. O primeiro plano é um plano-sequência de uns 15 minutos, onde há um jump-cut e pula-se para outra parte da conversa preservando o mesmo ângulo. Os tempos mortos do filme surgem das pausas da conversa, não são criados à revelia. A conversa tem poucos buracos. Alguns silêncios curtos.

Sendo um filme de 137 minutos, é de se esperar que o diálogo (ainda mais pelo fato de Tsai ser uma metralhadora de palavras) passe por muitos temas: a morte e sua proximidade: “Vou morrer logo” diz Tsai em um momento, não deixando claro se está enfermo ou se constata à medida que sua velhice se aproxima (ele tem 58) – conversa entrelaçada por Deus, como conceito. O realista diálogo do fim, onde diz que a ruína é o destino de tudo: das pessoas, dos lugares, das civilizações… O mundo como uma ilusão; tudo como uma ilusão. Tsai dizer abertamente sobre sua homossexualidade (o qual declara ter sido a primeira vez que fala a respeito); e dizer de sua solidão “Acho que tenho que manter contato com alguém”, “Eu sou tão romântico” é tocante: Tsai tem vigor, urgência ao se expressar.  A intimidade entre suas famílias, cada um falando de sua própria e da relação com a do outro.

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Diferente da relação com a instalação de filmes anteriores (Cães Errantes e sua matilha, planos finais, onde o cenário ganha uma carga surreal) aqui, mesmo que passando em um lugar inusitado (uma casa entre montanhas, ‘isolada’ do mundo) o importante é que esse lugar lhes dê tranqüilidade, visível quando os dois estão com as mãos atrás da cabeça, gesto que diz muito. Também difere das produções mais ‘trabalhadas’, carregadas dos anos 2000 (O Sabor da Melancia, Adeus Dragon Inn). Se Tsai declarou estar desistindo de fazer filmes, pode ter sido por todas as dificuldades –logísticas, práticas – de se fazer um filme mais ‘comercial’ – com estrutura rígida e equipe maior. De modo que sua solução aqui é: “quando mais simples for a feitura de um filme, melhor”.

Desse modo, Tsai vai na contracorrente da produção normal de um filme: aqui, nada de decupagem, diversas equipes. Um ângulo, 2 pessoas e deixe-as (deixe-nos, no caso) conversar. Procedimento não muito diferente dos filmes de Warhol? É sabido que esse é referência explícita de alguns orientais de fluxo recentes (vide Apichatpong). A diferença é que Tsai reatualiza Warhol colocando a energia mutante da conversa, sua imprevisibilidade. A reação dos atores mudando de maneira que suas emoções tomem conta de seus corpos. O Tempo escorrendo (o vento que bate nas folhas próximas, a mudança suave da iluminação) mas (e esse ‘mas’ é importante) com uma busca de memórias em comum, de relembrar afetos, na tentativa de se abrir ao outro. Tsai sabe tanto fazer um filme simples como ser igualmente modesto: não se vangloria; lembra de episódios com graça e leveza; não fala de sua obra com vaidade ou superioridade.

Trouxe Warhol pra criticá-lo. Pessoas paradas não nos dizem mais muito, hoje, a não ser com uma construção consistente (vem-me fortemente O Gebo e a Sombra de Manoel de Oliveira). Pessoas com intensidade (criativa, energética, inconformista (?), etc) de presença e abertura: às vezes, é disso que muitos filmes precisam.

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Trecho de entrevista com Jacques Derrida sobre hospitalidade, o outro, xenofobia, etc

DerridaPipeLe Monde – Em seu último livro, De l’Hospitalité, o senhor opõe “a lei incondicional da hospitalidade ilimitada” “às leis da hospitalidade, esses direitos e esses deveres sempre condicionados ou condicionais”. O que o senhor quer dizer com isso?

Jacques Derrida – Entre essas duas figuras da hospitalidade é que se deve assumir, com efeito, as responsabilidades e decisões. Prova temível, pois se essas duas hospitalidades não se contradizem, elas continuam sendo heterogêneas, no momento mesmo em que se convocam uma à outra, de maneira embaraçosa. Nem todas as éticas da hospitalidade são as mesmas, provavelmente, mas não existe cultura, nem vínculo social, sem um princípio de hospitalidade. Este comanda, faz mesmo desejar uma acolhida sem reserva e sem cálculo, uma exposição sem limite àquele que chega. Ora, uma comunidade cultural ou linguística, uma família, uma nação, não podem deixar de suspender, ou mesmo deixar de trair o princípio da hospitalidade absoluta: para proteger um “em-casa”, provavelmente, assegurando o “próprio” e a propriedade contra a chegada ilimitada do outro; mas também para tentar tornar a acolhida efetiva, determinada, concreta, para operacionalizá-la. Daí as “condições” que transformam o dom em contrato, a abertura em pacto policiado; daí os direitos e os deveres, as fronteiras, os passaportes e as portas, daí as leis a propósito de uma imigração cujo “fluxo”, como se diz, precisa ser “controlado”.
É verdade que o que está em jogo na “imigração” não recobre de maneira rigorosa – é preciso lembrá-lo – o que está em jogo na hospitalidade, a qual alcança além do espaço civil ou propriamente político. Nos textos a que se refere, analiso o que, entre o “incondicional” e o “condicional”, não é contudo uma simples oposição. Se os dois sentidos da palavra hospitalidade continuam irredutíveis um ao outro, é sempre em nome da hospitalidade pura e hiperbólica que é preciso, para torná-la o mais efetiva possível, inventar as melhores disposições, as menos más condições, a legislação mais justa. Isso é necessário para evitar os efeitos perversos de uma hospitalidade ilimitada, cujos riscos tentei definir. calcular os riscos, sim, mas sem fechar a porta ao incalculável, ou seja, ao porvir e ao estrangeiro, eis a dupla lei da hospitalidade. Ela define o lugar instável da estratégia e da decisão. Da perfectibilidade, como do progresso. Esse lugar é buscado hoje, por exemplo, nos debates sobre a imigração.
Esquece-se muitas vezes que é em nome da hospitalidade incondicional (aquela que dá seu sentido a qualquer acolhida do estrangeiro) que é preciso tentar determinar as melhores condições, a saber, tais limites legislativos e, sobretudo, tal utilização das leis. Esquece-se sempre disso do lado da xenofobia, por definição; mas também se pode esquecer disso em nome de uma certa interpretação do “pragmatismo” e do “realismo”. Por exemplo, quando se acredita dever afiançar eleitoralmente forças de exclusão ou de oclusão. Duvidosa em seus princípios, a tática poderia realmente perder mais do que a alma: o benefício planejado.

L.M. – Na mesma obra, o senhor coloca a seguinte questão: “Consiste a hospitalidade em interrogar aquele que chega?”, em primeiríssimo lugar indagando-lhe o nome, “ou então a hospitalidade começa pela acolhida sem questão?” A segunda atitude está mais de acordo com o princípio da “hospitalidade ilimitada” que o senhor evocar?
J.D. – Nesse caso, também a decisão é tomada no âmago do que se parece com um absurdo, com a impossibilidade mesma (uma antinomia, uma tensão entre duas leis igualmente imperativas, mas sem oposição). A hospitalidade pura consiste em acolher aquele que chega antes de lhe impor condições, antes de saber e indagar o que quer que seja, ainda que seja um nome ou um “documento” de identidade. Mas ela também supõe que se dirija a ele, de maneira singular, chamando-o portanto e reconhecendo-lhe um nome próprio: “Como você se chama?” A hospitalidade consiste em fazer tudo para se dirigir ao outro, em lhe conceder, até mesmo perguntar seu nome, evitando que essa pergunta se torne uma “condição”, um inquérito policial, um fichamento ou um simples controle de fronteiras. Diferença de uma só vez sutil e fundamental, questão que se coloca no limiar do “em-casa” e no limiar entre duas inflexões. Uma arte e uma poética, mas também toda uma política dependem disso, toda uma ética se decide aí.