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Brian Eno, 1 de Janeiro de 2017

2016/2017

The consensus among most of my friends seems to be that 2016 was a terrible year, and the beginning of a long decline into something we don’t even want to imagine.

2016 was indeed a pretty rough year, but I wonder if it’s the end – not the beginning – of a long decline. Or at least the beginning of the end….for I think we’ve been in decline for about 40 years, enduring a slow process of de-civilisation, but not really quite noticing it until now. I’m reminded of that thing about the frog placed in a pan of slowly heating water…

This decline includes the transition from secure employment to precarious employment, the destruction of unions and the shrinkage of workers’ rights, zero hour contracts, the dismantling of local government, a health service falling apart, an underfunded education system ruled by meaningless exam results and league tables, the increasingly acceptable stigmatisation of immigrants, knee-jerk nationalism, and the concentration of prejudice enabled by social media and the internet.

This process of decivilisation grew out of an ideology which sneered at social generosity and championed a sort of righteous selfishness. (Thatcher: “Poverty is a personality defect”. Ayn Rand: “Altruism is evil”). The emphasis on unrestrained individualism has had two effects: the creation of a huge amount of wealth, and the funnelling of it into fewer and fewer hands. Right now the 62 richest people in the world are as wealthy as the bottom half of its population combined. The Thatcher/Reagan fantasy that all this wealth would ‘trickle down’ and enrich everybody else simply hasn’t transpired. In fact the reverse has happened: the real wages of most people have been in decline for at least two decades, while at the same time their prospects – and the prospects for their children – look dimmer and dimmer. No wonder people are angry, and turning away from business-as-usual government for solutions. When governments pay most attention to whoever has most money, the huge wealth inequalities we now see make a mockery of the idea of democracy. As George Monbiot said: “The pen may be mightier than the sword, but the purse is mightier than the pen”.

Last year people started waking up to this. A lot of them, in their anger, grabbed the nearest Trump-like object and hit the Establishment over the head with it. But those were just the most conspicuous, media-tasty awakenings. Meanwhile there’s been a quieter but equally powerful stirring: people are rethinking what democracy means, what society means and what we need to do to make them work again. People are thinking hard, and, most importantly, thinking out loud, together. I think we underwent a mass disillusionment in 2016, and finally realised it’s time to jump out of the saucepan.

This is the start of something big. It will involve engagement: not just tweets and likes and swipes, but thoughtful and creative social and political action too. It will involve realising that some things we’ve taken for granted – some semblance of truth in reporting, for example – can no longer be expected for free. If we want good reporting and good analysis, we’ll have to pay for it. That means MONEY: direct financial support for the publications and websites struggling to tell the non-corporate, non-establishment side of the story. In the same way if we want happy and creative children we need to take charge of education, not leave it to ideologues and bottom-liners. If we want social generosity, then we must pay our taxes and get rid of our tax havens. And if we want thoughtful politicians, we should stop supporting merely charismatic ones.

Inequality eats away at the heart of a society, breeding disdain, resentment, envy, suspicion, bullying, arrogance and callousness. If we want any decent kind of future we have to push away from that, and I think we’re starting to.

There’s so much to do, so many possibilities. 2017 should be a surprising year.

– Brian

BRECHT, Bertolt. As cinco dificuldades para escrever a verdade

AS CINCO DIFICULDADES PARA ESCREVER A VERDADE

Bertolt Brecht (*)
Hoje, o escritor que deseje combater a mentira e a ignorância tem de lutar, pelo menos, contra cinco dificuldades. É-lhe necessária a coragem de dizer a verdade, numa altura em que por toda a parte se empenham em sufocá-la; a inteligência de a reconhecer, quando por toda a parte a ocultam; a arte de a tornar manejável como uma arma; o discernimento suficiente para escolher aqueles em cujas mãos ela se tornará eficaz; finalmente, precisa de ter habilidade para difundir entre eles. Estas dificuldades são grandes para os que escrevem sob o jugo do fascismo; aqueles que fugiram ou foram expulsos também sentem o peso delas; e até os que escrevem num regime de liberdades burguesas não estão livres da sua acção.

1- A CORAGEM DE DIZER A VERDADE
É evidente que o escritor deve dizer a verdade, não a calar nem a abafar, e nada escrever contra ela. É sua obrigação evitar rebaixar-se diante dos poderosos, não enganar os fracos, naturalmente, assim como resistir à tentação do lucro que advém de enganar os fracos. Desagradar aos que tudo possuem equivale a renunciar seja o que for. Renunciar ao salário do seu trabalho equivale por vezes a não poder trabalhar, e recusar ser célebre entre os poderosos é muitas vezes recusar qualquer espécie de celebridade. Para isso precisa-se de coragem. As épocas de extrema opressão costumam ser também aquelas em que os grandes e nobres temas estão na ordem do dia. Em tais épocas, quando o espírito de sacrifício é exaltado ruidosamente, precisa o escritor de muita coragem para tratar de temas tão mesquinhos e tão baixos como a alimentação dos trabalhadores e o seu alojamento.

Quando os camponeses são cobertos de honrarias e apontados como exemplo, é corajoso o escritor que fala da maquinaria agrícola e dos pastos baratos que aliviariam o tão exaltado trabalho dos campos. Quando todos os altifalantes espalham aos quatro ventos que o ignorante vale mais do que o instruído, é preciso coragem para perguntar: vale mais porquê? Quando se fala de raças nobres e de raças inferiores, é corajoso o que pergunta se a fome, a ignorância e a guerra não produzem odiosas deformidades. É igualmente necessária coragem para se dizer a verdade a nosso próprio respeito, sobre os vencidos que somos. Muitos perseguidos perdem a faculdade de reconhecer as suas culpas. A perseguição parece-lhes uma monstruosa injustiça. Os perseguidores são maus, dado que perseguem, e eles, os perseguidos, são perseguidos por causa da sua virtude. Mas essa virtude foi esmagada, vencida, reduzida à impotência. Bem fraca virtude ela era! Má, inconsistente e pouco segura virtude, pois não é admissível aceitar a fraqueza da virtude como se aceita a humidade da chuva. É necessária coragem para dizer que os bons não foram vencidos por causa da sua virtude, mas antes por causa da sua fraqueza. A verdade deve ser mostrada na sua luta com a mentira e nunca apresentada como algo de sublime, de ambíguo e de geral; este estilo de falar dela convém justamente à mentira. Quando se afirma que alguém disse a verdade é porque houve outros, vários, muitos ou um só, que disseram outra coisa, mentiras ou generalidades, mas aquele disse a verdade, falou em algo de prático, concreto, impossível de negar, disse a única coisa que era preciso dizer.

Não se carece de muita coragem para deplorar em termos gerais a corrupção do mundo e para falar num tom ameaçador, nos sítios onde a coisa ainda é permitida, da desforra do Espírito. Muitos simulam a bravura como se os canhões estivessem apontados sobre eles; a verdade é que apenas servem de mira a binóculos de teatro. Os seus gritos atiram algumas vagas e generalizadas reivindicações, à face dum mundo onde as pessoas inofensivas são estimadas. Reclamam em termos gerais uma justiça para a qual nada contribuem, apelam pela liberdade de receber a sua parte dum espólio que sempre têm partilhado com eles. Para esses, a verdade tem de soar bem. Se nela só há aridez, números e factos, se para a encontrar forem precisos estudos e muito esforço, então essa verdade não é para eles, não possui a seus olhos nada de exaltante. Da verdade, só lhes interessa o comportamento exterior que permite clamar por ela. A sua grande desgraça é não possuírem a mínima noção dela.

2- A INTELIGÊNCIA DE RECONHECER A VERDADE
Como é difícil dizer a verdade, já que por toda a parte a sufocam, dizê-la ou não parece à maioria uma simples questão de honestidade. Muitas pessoas pensam que quem diz a verdade só precisa de coragem. Esquecem a segunda dificuldade, a que consiste em descobri-la. Não se pode dizer que seja fácil encontrar a verdade.

Em primeiro lugar, já não é fácil descobrir qual verdade merece ser dita. Hoje, por exemplo, as grandes nações civilizadas vão soçobrando uma após outra na pior das barbáries diante dos olhos pasmados do universo.

Acresce ainda o facto de todos sabermos que a guerra interna, dispondo dos meios mais horríveis, pode transformar-se dum momento para o outro numa guerra exterior que só deixará um montão de escombros no sitio onde outrora havia o nosso continente. Esta é uma verdade que não admite dúvidas, mas é claro que existem outras verdades. Por exemplo: não é falso que as cadeiras sirvam para a gente se sentar e que a chuva caia de cima para baixo. Muitos poetas escrevem verdades deste género. Assemelham-se a pintores que esboçassem naturezas mortas a bordo dum navio em risco de naufragar. A primeira dificuldade de que falamos não existe para eles, e contudo têm a consciência tranquila. “Esgalham” o quadro num desprezo soberano pelos poderosos, mas também sem se deixarem impressionar pelos gritos das vítimas. O absurdo do seu comportamento engendra neles um “profundo” pessimismo que se vende bem; os outros é que têm motivos para se sentirem pessimistas ao verem o modo como esses mestres se vendem. Já nem sequer é fácil reconhecer que as suas verdades dizem respeito ao destino das cadeiras e ao sentido da chuva: essas verdades soam normalmente de outra maneira, como se estivessem relacionadas com coisas essenciais, pois o trabalho do artista consiste justamente em dar um ar de importância aos temas de que trata.

Só olhando os quadros de muito perto é que podemos discernir a simplicidade do que dizem: “Uma cadeira é uma cadeira” e “Ninguém pode impedir a chuva de cair de cima para baixo”. As pessoas não encontram ali a verdade que merece a pena ser dita.

Alguns consagram-se verdadeiramente às tarefas mais urgentes, sem medo aos poderosos ou á pobreza, e no entanto não conseguem encontrar a verdade. Faltam-lhe conhecimentos. As velhas superstições não os largam, assim como os preconceitos ilustres que o passado frequentemente revestiu de uma forma bela. Acham o mundo complicado em demasia, não conhecem os dados nem distinguem as relações. A honestidade não basta; são precisos conhecimentos que se podem adquirir e métodos que se podem aprender. Todos os que escrevem sobre as complicações desta época e sobre as transformações que nela ocorrem necessitam de conhecer a dialéctica materialista, a economia e a história. Estes conhecimentos podem adquirir-se nos livros e através da aprendizagem prática, por mínima que seja a vontade necessária. Muitas verdades podem ser encontradas com a ajuda de meios bastante mais simples, através de fragmentos de verdades ou dos dados que conduzem à sua descoberta. Quando se quer procurar, é conveniente ter-se um método, mas também se pode encontrar sem método e até sem procura. Contudo, através dos diversos modos como o acaso se exprime, não se pode esperar a representação da verdade que permite aos homens saber como devem agir. As pessoas que só se empenham em anotar os factos insignificantes são incapazes de tornar manejáveis as coisas deste mundo. O objectivo da verdade é uno e indivisível. As pessoas que apenas são capazes de dizer generalidades sobre a verdade não estão à altura dessa obrigação.

Se alguém está pronto a dizer a verdade e é capaz de a reconhecer, ainda tem de vencer três dificuldades.

3-A ARTE DE TORNAR A VERDADE MANEJÁVEL COMO UMA ARMA
O que torna imperiosa a necessidade de dizer a verdade são as consequências que isso implica no que diz respeito à conduta prática. Como exemplo de verdade inconsequente ou de que se poderão tirar consequências falsas, tomemos o conceito largamente difundido, segundo o qual em certos países reina um estado de coisas nefasto, resultante da barbárie. Para esta concepção, o fascismo é uma vaga de barbárie que alagou certos países com a violência de um fenómeno natural.

Os que assim pensam, entendem o fascismo como um novo movimento, uma terceira força justaposta ao capitalismo e ao socialismo (e que os domina). Para quem partilha esta opinião, não só o movimento socialista, mas também o capitalismo teriam podido, se não fosse o fascismo, continuar a existir, etc. Naturalmente que se trata de uma afirmação fascista, de uma capitulação perante o fascismo. O fascismo é uma fase histórica na qual o capitalismo entrou; por consequência, algo de novo e ao mesmo tempo de velho. Nos países fascistas, a existência do capitalismo assume a forma do fascismo, e não é possível combater o fascismo senão enquanto capitalismo, senão enquanto forma mais nua, mais cínica, mais opressora e mais mentirosa do capitalismo.

Como se poderá dizer a verdade sobre o fascismo que se recusa, se quem diz essa verdade se abstêm de falar contra o capitalismo que engendra o fascismo? Qual será o alcance prático dessa verdade?

Aqueles que estão contra o fascismo sem estar contra o capitalismo, que choramingam sobre a barbárie causada pela barbárie, assemelham-se a pessoas que querem receber a sua fatia de assado de vitela, mas não querem que se mate a vitela. Querem comer vitela, mas não querem ver sangue. Para ficarem contentes, basta que o magarefe lave as mãos antes de servir a carne. Não são contra as relações de propriedade que produzem a barbárie, mas são contra a barbárie.

As recriminações contra as medidas bárbaras podem ter uma eficácia episódica, enquanto os auditores acreditarem que semelhantes medidas não são possíveis na sociedade onde vivem. Certos países gozam do raro privilégio de manter relações de propriedade capitalistas por processos aparentemente menos violentos. A democracia ainda lhes presta os serviços que noutras partes do mundo só podem ser prestados mediante o recurso à violência, quer dizer, aí a democracia chega para garantir a propriedade privada dos meios de produção. O monopólio das fábricas, das minas, dos latifúndios gera em toda a parte condições bárbaras; digamos que em alguns sítios a democracia torna essas condições menos visíveis. A barbárie torna-se visível logo que o monopólio já só pode encontrar protecção na violência nua.

Certas nações que conseguem preservar os monopólios bárbaros sem renunciar às garantias formais do direito, nem a comodidades como a arte, a filosofia, a literatura, acolhem carinhosamente os hóspedes cujos discursos procuram desculpar o seu país natal de ter renunciado a semelhantes confortos: tudo isso lhes será útil nas guerras vindouras. É licito dizer-se que reconheceram a verdade, aqueles que reclamam a torto e a direito uma luta sem quartel contra a Alemanha, apresentada como verdadeira pátria do mal da nossa época, sucursal do inferno, caverna do Anticristo? Desses, não será exagerado pensar que não passam de impotentes e nefastos imbecis, já que a conclusão do seu blá-blá-blá aponta para a destruição desse pais inteiro e de todos os seus habitantes (o gás asfixiante, quando mata, não escolhe os culpados).

O homem frívolo, que não conhece a verdade, exprime-se através de generalidades, em termos nobres e imprecisos. Encanta-o perorar sobre “os” alemães ou lançar-se em grandes tiradas sobre “o” Mal, mas a verdade é que nós, aqueles a quem o homem frívolo fala, ficamos embaraçados, sem saber que fazer de semelhantes ditames. Afinal de contas, o nosso homem decidiu deixar de ser alemão? E lá por ele ser bom, o inferno vai desaparecer? São desta espécie as grandes frases sobre a barbárie. Para os seus autores, a barbárie vem da barbárie e desaparece graças à educação moral que vem da educação. Que miséria a destas generalidades, que não visam qualquer aplicação pratica e, no fundo, não se dirigem a ninguém.

Não nos admiremos que se digam de esquerda, “mas” democratas, os que só conseguem elevar-se a tão fracas e improfícuas verdades. A “esquerda democrática” é outra destas generalidades-álibís onde correm a acoitar-se as pessoas inconsequentes, isto é, os incapazes de viver até as últimas consequências as verdades que quer a esquerda, quer a democracia contêm. Reclamar-se alguém da “esquerda democrática” significa, em termos práticos, que pertence ao grupo dos ineptos para revolucionar ou conservar as coisas, ao clã dos generalistas da verdade.

Não é a mim, fugido da Alemanha com a roupa que tinha no corpo, que me vão apresentar o fascismo como uma espécie de força motriz natural impossível de dominar. A escuridade dessas descrições esconde as verdadeiras forças que produzem as catástrofes. Um pouco de luz, e logo se vê que são homens a causa das catástrofes. Pois é, amigos: vivemos num tempo em que o homem é o destino do homem.

O fascismo não é uma calamidade natural, que se possa compreender a partir da “natureza” humana. Mas mesmo confrontados com catástrofes naturais, há um modo de descrevê-las digno do homem, um modo que apela para as suas qualidades combativas.

O cronista de grandes catástrofes como o fascismo e a guerra (que não são catástrofes naturais) deve elaborar uma verdade praticável, mostrar as calamidades que os que possuem os meios de produção infligem às massas imensas dos que trabalham e não os possuem.

Se se pretende dizer eficazmente a verdade sobre um mau estado de coisas, é preciso dizê-la de maneira que permita reconhecer as suas causas evitáveis. Uma vez reconhecidas as causas evitáveis, o mau estado de coisas pode ser combatido.

4- DISCERNIMENTO SUFICIENTE PARA ESCOLHER OS QUE TORNARÃO A VERDADE EFICAZ
Tirando ao escritor a preocupação pelo destino dos seus textos, as usanças seculares do comércio da coisa escrita no mercado das opiniões deram-lhe a impressão de que a sua missão terminava logo que o intermediário, cliente ou editor, se encarregava de transmitir aos outros a obra acabada. O escritor pensava: falo e ouve-me quem me quiser ouvir. Na verdade, ele falava e quem podia pagar ouvia-o. Nem todos ouviam as suas palavras, e os que as ouviam não estavam dispostos a ouvir tudo o que se lhes dizia. Tem-se falado muito desta questão, mas mesmo assim ainda não chega o que se tem dito: limitar-me-ei aqui a acentuar que “escrever a alguém” tornou-se pura e simplesmente “escrever”. Ora não se pode escrever a verdade e basta: é absolutamente necessário escrevê-la a “alguém” que possa tirar partido dela. O conhecimento da verdade é um processo comum aos que lêem e aos que escrevem. Para dizer boas coisas, é preciso ouvir bem e ouvir boas coisas. A verdade deve ser pesada por quem a diz e por quem a ouve. E para nós que escrevemos, é essencial saber a quem a dizemos e quem no-la diz.

Devemos dizer a verdade sobre um mau estado de coisas àqueles que o consideram o pior estado de coisas, e é desses que devemos aprender a verdade. Devemos não só dirigir-nos às pessoas que têm uma certa opinião, mas também aos que ainda a não têm e deviam tê-la, ditada pela sua própria situação. Os nossos auditores transformam-se continuamente! Até se pode falar com os próprios carrascos quando o prémio dos enforcamentos deixa de ser pago pontualmente ou o perigo de estar com os assassinos se torna muito grande. Os camponeses da Baviera não costumam querer nada com revoluções, mas quando as guerras duram demais e os seus filhos, no regresso, não arranjam trabalho nas quintas, tem sido possível ganhá-los para a revolução.

Para quem escreve, é importante saber encontrar o tom da verdade. Um acento suave, lamentoso, de quem é incapaz de fazer mal a uma mosca, não serve. Quem, estando na miséria, ouve tais lamúrias, sente-se ainda mais miserável. Em nada o anima a cantilena dos que, não sendo seus inimigos, não são certamente seus companheiros de luta. A verdade é guerreira, não combate só a mentira, mas certos homens bem determinados que a propagam.

5- HABILIDADE PARA DIFUNDIR A VERDADE
Muitos, orgulhosos de ter a coragem de dizer a verdade, contentes por a terem encontrado, porventura fatigados com o esforço necessário para lhe dar uma forma manejável, aguardam impacientemente que aqueles cujos interesses defendem a tomem em suas mãos e consideram desnecessário o uso de manhas e estratagemas para a difundir. Frequentemente, é assim que perdem todo o fruto do seu trabalho. Em todos os tempos, foi necessário recorrer a “truques” para espalhar a verdade, quando os poderosos se empenhavam em abafá-la e ocultá-la. Confúcio falsificou um velho calendário histórico nacional, apenas lhe alterando algumas palavras. Quando o texto dizia: “o senhor de Kun condenou à morte o filósofo Wan por ter dito frito e cozido”, Confúcio substituía “condenou à morte” por “assassinou”. Quando o texto dizia que o Imperador Fulano tinha sucumbido a um atentado, escrevia “foi executado”. Com este processo, Confúcio abriu caminho a uma nova concepção da história.

Na nossa época, aquele que em vez de “povo”, diz “população”, e em lugar de terra”, fala de “latifúndio”, evita já muitas mentiras, limpando as palavras da sua magia de pacotilha. A palavra “povo” exprime uma certa unidade e sugere interesses comuns; a “população” de um território tem interesses diferentes e opostos. Da mesma forma, aquele que fala em “terra” e evoca a visão pastoral e o perfume dos campos favorece as mentiras dos poderosos, porque não fala do preço do trabalho e das sementes, nem no lucro que vai parar aos bolsos dos ricaços das cidades e não aos dos camponeses que se matam a tornar fértil o “paraíso”. “Latifúndio” é a expressão justa: torna a aldrabice menos fácil. Nos sítios onde reina a opressão, deve-se escolher, em vez de “disciplina”, a palavra “obediência”, já que mesmo sem amos e chefes a disciplina é possível, e caracteriza-se portanto por algo de mais nobre que a obediência. Do mesmo modo, “dignidade humana” vale mais do que “honra”: com a primeira expressão o indivíduo não desaparece tão facilmente do campo visual; por outro lado, conhece-se de ginjeira o género de canalha que costuma apresentar-se para defender a honra de um povo, e com que prodigalidade os gordos desonrados distribuem “honrarias” pelos famélicos que os engordam.

Ao substituir avaliações inexactas de acontecimentos nacionais por notações exactas, o método de Confúcio ainda hoje é aplicável. Lénine, por exemplo, ameaçado pela polícia do czar, quis descrever a exploração e a opressão da ilha Sakalina pela burguesia russa. Substituiu “Rússia” por “Japão” e “Sakalina” por “Coreia”. Os métodos da burguesia japonesa faziam lembrar a todos os leitores os métodos da burguesia russa em Sakalina, mas a brochura não foi proibida, porque o Japão era inimigo da Rússia. Muitas coisas que não podem ser ditas na Alemanha a propósito da Alemanha, podem sê-lo a propósito da Áustria. Há muitas maneiras de enganar um Estado vigilante.

Voltaire combateu a fé da Igreja nos milagres, escrevendo um poema libertino sobre a Donzela de Orleans, no qual são descritos os milagres que sem dúvida foram necessários para Joana d’Arc permanecer virgem no exército, na Corte e no meio dos frades.

Pela elegância do seu estilo e a descrição de aventuras galantes inspiradas na vida relaxada das classes dirigentes, levou estas a sacrificar uma religião que lhes fornecia os meios de levar essa vida dissoluta. Mais e melhor deu assim às suas obras a possibilidade de atingir por vias ilegais aqueles a quem eram destinadas. Os poderosos que Voltaire contava entre os seus leitores favoreciam ou toleravam a difusão dos livros proibidos, e desse modo sacrificavam a polícia que protegia os seus prazeres. E o grande Lucrécio sublinha expressamente que, para propagar o ateísmo epicurista confiava muito na beleza dos seus versos.

Não há dúvida de que um alto nível literário pode servir de salvo-conduto à expressão de uma ideia. Contudo, muitas vezes desperta suspeitas. Então, pode ser indicado baixá-lo intencionalmente. É o que acontece, por exemplo, quando sob a forma desprezada do romance policial, se introduz à socapa, em lugares discretos, a descrição dos males da sociedade. O grande Shakespeare baixou o seu nível por considerações bem mais fracas, quando tratou com uma voluntária ausência de vigor o discurso com que a mãe de Coriolano tentou travar o filho, que marchava sobre Roma: Shakespeare pretendia que Coriolano desistisse do seu projecto, não por causa de razões sólidas ou de uma emoção profunda, mas por uma certa fraqueza de carácter que o entregava aos seus velhos hábitos. Encontramos igualmente em Shakespeare um modelo de manhas na difusão da verdade: o discurso de Marco António perante o corpo de César, quando repete com insistência que Brutus, assassino de César, é um homem honrado, descrevendo ao mesmo tempo o seu acto, e a descrição do acto provoca mais impressão que a do autor.

Jonathan Swift propôs numa das suas obras o seguinte meio de garantir o bem-estar da Irlanda: meter em salmoura os filhos dos pobres e vendê-los como carniça no talho. Através de minuciosos cálculos, provava que se podem fazer grandes economias quando não se recua diante de nada. Swift armava voluntariamente em imbecil, defendendo uma maneira de pensar abominável e cuja ignomínia saltava aos olhos de todos. O leitor podia-se mostrar mais inteligente, ou pelo menos mais humano que Swift, sobretudo aquele que ainda não tinha pensado nas consequências decorrentes de certas concepções.

São consideradas baixas as actividades úteis aos que são mantidos no fundo da escala: a preocupação constante pela satisfação de necessidades; o desdém pelas honrarias com que procuram engodar os que defendem o país onde morrem de fome; a falta de confiança no chefe quando o chefe nos leva a todos à catástrofe; a falta de gosto pelo trabalho quando ele não alimenta o trabalhador; o protesto contra a obrigação de ter um comportamento de idiotas; a indiferença para com a família, quando de nada serve a gente interessar-se por ela. Os esfomeados são acusados de gulodice; os que não têm nada a defender, de cobardia; os que duvidam dos seus opressores, de duvidar da sua própria força; os que querem receber a justa paga pelo seu trabalho, de preguiça, etc.

Numa época como a nossa, os governos que conduzem as massas humanas à miséria, têm de evitar que nessa miséria se pense no governo, e por isso estão sempre a falar em fatalidade. Quem procura as causas do mal, vai parar à prisão antes que a sua busca atinja o governo. Mas é sempre possível opormo-nos à conversa fiada sobre a fatalidade: pode-se mostrar, em todas as circunstâncias, que a fatalidade do homem é obra de outros homens. Até na descrição de uma paisagem se pode chegar a um resultado conforme à verdade, quando se incorporam à natureza as coisas criadas pelo homem.

RECAPITULAÇÃO
A grande verdade da nossa época (só seu conhecimento em nada nos faz avançar, mas sem ela não se pode alcançar nenhuma outra verdade importante) é que o nosso continente se afunda na barbárie porque nele se mantêm pela violência determinadas relações de propriedade dos meios de produção. De que serve escrever frases corajosas mostrando que é bárbaro o estado de coisas em que nos afundamos (o que é verdade), se a razão de termos caído nesse estado não se descortina com clareza? É nossa obrigação dizer que, se se tortura, é para manter as relações de propriedade. Claro que ao dizermos isso perdemos muitos amigos; aqueles que são contra a tortura porque julgam ser possível manter sem ela as relações de propriedade (o que é falso).

Devemos dizer a verdade sobre as condições bárbaras que reinam no nosso país a fim de tornar possível a acção que as fará desaparecer, isto é, que transformará as relações de propriedade.

Devemos dizê-la aos que mais sofrem com as relações de propriedade e estão mais interessados na sua transformação, ou seja: aos operários e aos que podemos levar a aliarem-se com eles, por não serem proprietários dos meios de produção, embora associados aos lucros e benefícios da exploração de quem produz. E, é claro, devemos proceder com astúcia.

Devemos resolver em conjunto, e ao mesmo tempo, estas cinco dificuldades, já que não podemos procurar a verdade sobre condições bárbaras sem pensar nos que sofrem essas condições e estão dispostos a utilizar esse conhecimento. Além disso, temos de pensar em apresentar-lhes a verdade sob uma forma susceptível de se transformar numa arma nas suas mãos, e simultaneamente com a astúcia suficiente para que a operação não seja descoberta e impedida pelo inimigo.

São estas as virtudes exigidas ao escritor empenhado em dizer a verdade.

(*) Texto de 1934. Tradução de Ernesto Sampaio.
Publicado no Diário de Lisboa de 25/Abr/82.

Calgon (Stephanie Wuertz e Sasha Janerus)

            Uma das chaves de compreensão é a busca do movimento puro e simples, que um fotograma seja diferente do outro, mesmo que seja um movimento inútil. Não se busca o encadeamento de ações. Michel Mourlet certamente o recriminaria1. (1) Aqui o olhar é sobre o mundo imaterial da imagem televisiva. Cria-se uma desorientação e um desconforto, pois o filme sofre pra começar (a contagem habitual faz 8 segundos virarem 30), avançar (os movimentos dos atores se repetem inúmeras vezes (2)) e terminar. Se a matéria-prima é um comercial de banho de 30 segundos, eles se transformam num experimento de 15 minutos. Esse esgarçamento do tempo atinge seu auge numa imagem que consiste num ato impossível: uma embalagem do produto derrama grãos infinitamente. Tempo dilatado presente também em um zoom lentíssimo sobre a imagem. Calgon nos força a olhar repetidamente suas (apropriadas) imagens.

A faixa de som é preenchida por um ruído constante e no fim tem-se um efeito incomum: só quando o fluxo de imagens do comercial termina é que ouvimos o áudio original do mesmo, no tempo normal (antes parecia que o tempo diferia do normal, além de parecer estar de trás pra frente – impressões).

O interior dos planos abre-se para receber outras imagens (de diferentes texturas) e para a própria imagem se desdobrar em cascata. Nas fusões (3) criam-se relações: um movimento de se esfregar com a bucha interage com a imagem fundida, como se a atriz se tocasse no joelho e cotovelo ao mesmo tempo – como se o toque funcionasse para os 2 planos fundidos.

Movimento puro e simples: o essencial é que ocorra transformações no quadro, mudança, não importando o quê se mexe. A escolha por tal comercial pode ter sido por suas cores chamativas e pela beleza (4) do sorriso da atriz. Retomar imagens outras é apontar para suas singularidades (e seus aspectos excêntricos) e desdobrar, ativar suas potencialidades. Nosso arquivo e catálogo de imagens é grande demais (5), cabe olhá-lo com humildade.

(1) A heresia que mais atrapalhou o desenvolvimento do cinema foi tomá-lo por um simples jogo de imagens suscetível de todas as combinações possíveis (exemplo: as sobre-impressões), esquecendo o ponto de partida dessas imagens: um olhar sobre o mundo sensível.

(2) Procedimento similar ao de Martin Arnold, em especial no curta Passage à L’acte”

(3) Duas citações de Jacques aumont cabem a esse filme:

– “Um filme realmente bem sucedido deve poder, por exemplo, ser visto de outra forma além do dispositivo habitual do cinema; imagem por imagem, ou, ao contrário, em câmera lenta, ele continuará interessante e tocante.”

– (…) o plano pode se fender interiormente, manifestar uma espécie ou muitas espécies de desdobramentos, de aberturar, ele pode tornar-se o equivalente ideal de vários planos.”

(4) Exploração da beleza com a repetição do gesto pode ser vista em Peter Tscherkassky, em especial.

False Aging – Lewis Klahr (2008)

            O ‘falso envelhecer’ sugere que os materiais usados no filme (recortes de objetos antigos: moedas, selos, telefones, rádios, quadrinhos, texturas desbotadas) ganham uma nova vida, rejuvenescem; são reavivados com o stop-motion em composições muito próximas a ideia de colagem. Tais materiais apresentam riscos, arranhões. Desgaste natural, o que depreende seu envelhecimento. Porém, nas mãos do artista são tão atuais como qualquer outro material ‘novo’.

Descrever aparelhos de outras épocas não nos dá pistas sorbe o trabalho de Lewis Klahr e sua reflexão sobre a passagem do tempo. Importam as relações e sobreposições incomuns que as figuras exercem sobre si e sobre outras. Outras pois as texturas (suporte das figuras que transitam como num tabuleiro – objeto esse que é diz sobre algumas composições do filme: linhas perpendiculares) são instáveis, podem ter algo escondido por debaixo.

Por vezes não se compreende as composições: ou estão desfocadas ou geram um arranjo abstrato. Eis o caráter experimental da obra.

Klahr utiliza como matéria-prima a história da arte: a colagem como procedimento artístico das primeiras décadas do século XX e a história da mídia – quadrinhos e catálogos (lembrando Sears Catalogues da Fluxus Film, de 1963) – numa estética da pós-produção (Nicolas Bouriard onde as formas do passado não são só retomadas na forma de citação despreocupada, num piscar de olhos caro à estética pós-moderna. A intenção é utilizar o material, torná-lo útil para uma obra. Assim, explica-se porque os materiais estão envelhecendo falsamente: cabe ao artista reprogramador das formas atualizá-los, propor novos encadeamentos. E isso Klahr faz com um olhar aguçado e com a consciência do passado como inventário de referências que lhe é caro, pois criou sua visão de mundo.

3 artigos recentes sobre feminismo e luta social

Palavras chave: Feminismo, sufragistas, voto, Mulher, direito, democracia, Reino
Unido, Luta, jiu-jitsu, repressão, Mulheres Negras, Negro, movimento social, dandara,
racismo, repressão, mobilização, reparação, cotas, Irã, Iraniana, sanções econômicas,
educação, machismo, oriente médio, islã

1 – Dandaras rebeladas

As mulheres negras estão prontas para escrever um novo capítulo em sua história de
lutas em 2016. O afrontamento ao racismo segue em conversas nas ruas, rodas nos
terreiros e quilombos, encontros nas universidades, produções nos estúdios, rimas no
palco e ações nas redes sociais

por Daniela Luciana da Silva e Juliana Cézar Nunes

A diretora da ONG Criola (RJ), Jurema Werneck, enxerga “novas pontes estendidas entre
nós que estamos na luta em diferentes campos, novas aproximações, novas possibilidades
de termos uma agenda convergente e potente”. É uma visão que converge com a da
ativista e publicitária baiana Larissa Santiago, integrante do Blogueiras Negras,
criado em 2003: “Acreditamos que 2016 será o ano de refazer os laços entre nós e entre
os outros que acreditam nas mudanças e na revolução capitaneada pela mulher negra”.

Este momento de renovação e confiança na construção de alianças decorre também da
construção coletiva da Marcha das Mulheres Negras, realizada em 18 de novembro de
2015, em Brasília. Uma contundente mostra do potencial de articulação e incidência das
herdeiras de Dandara e tantas outras anônimas guerreiras, heroínas do cotidiano que
não estão nos livros de História oficial.

Cerca de 50 mil mulheres negras de todo o país atravessaram o ano de 2015 em
preparação conjunta para estar em Brasília. Elas ocuparam as ruas da capital para
representar com seu corpo e alma os 48,6 milhões de mulheres negras brasileiras, cerca
de 25,5% da população brasileira (IBGE).

Numa vitoriosa ocupação marcada pelo compartilhamento, afirmação, capacidade de
organização e força de mobilização, essas negras brasileiras mostraram à sociedade e
aos governos a concretude de outra face. Uma imagem muito distante do estereótipo de
submissão e subalternidade que insistem em nos imprimir.

Tambores ancestrais e virtuais

Para Valdecir Nascimento, do Instituto Odara (BA), este é um momento-chave, pois as
mulheres negras brasileiras estão mobilizadas. “Precisamos multiplicar e mantê-las
atuando em seus estados, municípios, povoados e em todo e qualquer lugar com
instrumentos mais efetivos, mais informações e uma rede nacional que possa orientá-las
e mobilizar outras organizações em apoio às variadas demandas”, reforça Valdecir.

A baiana acredita que o caminho é atuar coletivamente e responder imediatamente.
Construir orientações nacionais para os diversos casos e agir em bloco, definir as/os
parceiras/os, além de estratégias de aproximação com os diversos movimentos sociais,
construir acordos e pactos comuns. “Quem são os parlamentares e as parlamentares
aliados, mas aliados mesmo? Temos cartas na manga, 2016 é ano eleitoral, precisamos
pontuar nossas demandas inegociáveis”, finaliza.

O Instituto Odara coloca a circulação de informações e notícias como uma das metas
para 2016, com a aplicação do Projeto da Agência de Comunicação Popular do Odara,
impulsionando jovens negras a construir uma comunicação para a difusão do conhecimento
produzido pelas organizações de mulheres negras; e a difusão de campanhas contra a
violência doméstica, o genocídio da população negra e outros temas e situações de
interesse do segmento.

Nessa seara, também integra os planos do Instituto Odara a execução do projeto “Minha
mãe não dorme enquanto eu não chegar”, uma ação direcionada para as mães dos jovens
assassinados pela polícia e pelo tráfico. Essa é uma preocupação que se identifica de
norte a sul do país entre as mulheres negras entrevistadas.

Gaúcha radicada em Salvador, a jornalista e produtora cultural Camila Moraes, 28 anos,
criadora da revista eletrônica Acho Digno, tem como um dos desafios para 2016 retratar
nos cinemas “O caso do homem errado – Júlio César”. Júlio foi um operário executado
por policiais na década de 1980 em Porto Alegre. Inocente, recebeu a sentença de
culpado por assalto e acabou condenado à morte dentro de um camburão. Passado e
presente. É contra o direito de matar pessoas negras que as mulheres também continuam
em marcha. Contra a chacina de Cabula, contra o extermínio diário de jovens negros em
capitais como Rio de Janeiro, São Paulo, Belém, e que acontece também no interior,
contra a morte de lideranças quilombolas, contra a violência cotidiana que mata e
encarcera mulheres negras.

“Não deixaremos mais nossa juventude negra ser morta. Iremos retratar ‘O caso do homem
errado’ para que haja uma reflexão da sociedade de que, quando mata um jovem negro,
extermina uma família, uma comunidade, uma população. Para continuarmos vivos e não
apenas sobrevivendo neste país, permaneceremos em estado de vigília, nos aliando entre
nós”, avisa Camila.

Para ela, a “rede nagô” formada por mulheres e homens negros já permite que o tambor
batido no Sul seja escutado no Norte, e vice-versa. Eventos de mulheres negras, como o
Festival Latinidades, e de cinema, como o Fórum Itinerante de Cinema Negro (Ficine),
mostraram o desabrochar de jovens flores negras na área do audiovisual, produzindo
filmes com a temática negra, nos colocando no telão e nos representando de forma bela
e digna.

“Comunicadoras negras tiveram seus trabalhos reconhecidos pela mídia e por uma parcela
da população. Entre alguns nomes de destaque estão Luciana Barreto, Maria Júlia
Coutinho, Maíra Azevedo, Mônica Santana e outras que ainda irão aparecer”, elenca
Camila. “Com isso, verificamos o quanto representatividade importa, sim. Percebemos
como é bom ter espelhos dentro e fora de casa para serem seguidos.”

Olho no olho

A comunicação também é a trincheira de Larissa Santiago, do Blogueiras Negras. A
integração entre os espaços virtuais e presenciais constitui meta da ação do grupo,
que publica textos de mulheres de todo o país. Embora a organização tenha se iniciado
no ambiente virtual, uma das estratégias das blogueiras é fortalecer o contato direto
neste ano. Para Larissa, é fato que precisamos alcançar mais e mais mulheres negras, e
a sociedade civil como um todo. Por isso, entre as estratégias estão a materialização
de trabalhos, o foco em ações off-line e o fortalecimento da comunidade por meio de
experiências coletivas presenciais.

“Tivemos um imenso baque no que se refere à presença do Estado junto às demandas das
mulheres negras: desfazer a Secretaria de Igualdade Racial, das Mulheres e Direitos
Humanos para acoplá-la num ministério onde essas políticas se misturam nos parece
bastante sintomático”, aponta a blogueira, para quem as mudanças mostram o quanto o
conservadorismo político tem contribuído para retrocessos. “Temos avanços? Lógico, mas
essas jogadas políticas nos dizem qual é nosso lugar e que precisaremos resistir e
lutar muito mais para sermos ouvidas e termos nossas propostas concretizadas.”

A declaração do Decênio dos Afrodescendentes pela ONU, Anistia Internacional e a
articulação com a Rede de Mulheres Afro-Latino-Americanas do Caribe e da Diáspora são
vistas por Larissa como importantes parcerias para as mulheres negras brasileiras. As
organizações internacionais ajudaram a dar visibilidade a uma série de violações de
direitos, inclusive durante a ocupação das escolas públicas em São Paulo, quando
mulheres e adolescentes negras foram protagonistas das mobilizações e sofreram
repressão policial.

Entre as parcerias internacionais, a ativista Jurema Werneck, da Criola, destaca
também a Associação Mulheres e Desenvolvimento (Awid, na sigla em inglês), que
organizou e liderou uma delegação internacional de ativistas negras para a Marcha das
Mulheres Negras, com representantes de diferentes países da África, Caribe e Américas.
Em maio, na Bahia, a Awid vai promover um fórum com o tema “Futuros feministas:
construindo poder coletivo em prol dos direitos e da justiça”.

Médica de formação e pós-graduada em Comunicação e Cultura, Jurema e outras ativistas
negras do Rio de Janeiro fundaram há 23 anos a Criola para promover o empoderamento
político de mulheres negras e fomentar ações em defesa de direitos. Elas levaram suas
ações para o âmbito nacional em contato com outras organizações de mulheres negras,
como a Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), da qual são integrantes.

No cotidiano, as mulheres da Criola têm se voltado tanto para o combate das violências
cometidas nas redes sociais, com o lançamento da campanha contra o racismo virtual
(www.racismovirtual.com.br), como para o amparo a mulheres que sofrem violência nas
ruas. “A mãe de um dos cinco meninos metralhados pela polícia em dezembro no Rio de
Janeiro já tentou suicídio três vezes. É essa dor! Os racistas, fascistas, LGBTfóbicos
estão nas ruas descaradamente, e seus crimes compensam para eles e seus grupos”,
denuncia Jurema.

Reparação

A doutora em Direito Ana Luiza Flauzina afirma que, ao longo da história do Brasil, o
lugar do Estado não tem sido o de aliança, e sim de vilipêndio da população negra e
das mulheres negras, em especial. Ana Luiza considera que as políticas pontuais ainda
não podem ser consideradas um avanço, até porque nos momentos de “crise” são as
políticas públicas voltadas a essa população que desaparecem do mapa.

“Estamos num processo de extermínio sistemático da juventude negra, de encarceramento
em massa das mulheres negras, de interdição do exercício pleno da liberdade de culto
com vilipêndio das religiões de matriz africana, ou seja, o genocídio está com as
baterias aquecidas”, alerta a pesquisadora e fundadora da Brado, empresa voltada para
a produção de conteúdos de interesse da população negra, com foco na produção
audiovisual e na edição de livros.

O combate ao racismo acadêmico e à invisibilidade do pensamento de mulheres e homens
negros guia o próximo ciclo de ações de Ana Luiza e da Brado. Ela acredita que as
mulheres negras brasileiras estão num momento de amadurecimento político ímpar e são
atores políticos cientes de seu papel na articulação das mudanças na estrutura social
brasileira.

“Estamos vocalizando nossas potencialidades em primeira pessoa. Apesar de há muito
estarmos cientes de nossa condição específica enquanto grupo social vulnerabilizado no
Brasil, reunimos agora a capacidade política de dar visibilidade a essas demandas,
articulando questões que envolvem as pautas feministas, negras e LGBT”, avalia Ana
Luiza.

Essa capacidade política de articulação está presente em organizações de mulheres
negras de todas as regiões do país. No Ceará, mais exatamente no Cariri, as mulheres
negras do Pretas Simoa trabalham diversidade religiosa negra, fortalecimento de
identidade, empoderamento de trabalhadoras domésticas e divulgação do hip hop. O grupo
presta homenagem à Tia Simoa, que lutou pela abolição e liderou greves de jangadeiros
cearenses ainda no século XIX.

A bibliotecária Dávila Feitosa, integrante do Pretas Simoa, lamenta que a todo
instante seja necessário voltar à estaca zero do debate para contar desde o princípio
a história das mulheres negras no Brasil e nas Américas. No âmbito regional, inserir
as demandas nas agendas de governos, universidades e partidos políticos tem demandado
um enorme esforço das organizações locais.

A reivindicação por creches públicas também faz parte dessa pauta. “Vemos a
necessidade, por exemplo, da partilha da maternidade das mulheres pobres (em sua
maioria mulheres negras) com o governo, propiciando o tempo necessário para que essas
mulheres possam se dedicar à sua vida profissional e acadêmica”, ressalta Dávila. “O
que nos motiva são as gerações de guerreiras anônimas que resumimos em nossas veias;
espelhos que nos permitem ter orgulho do nosso próprio reflexo; e armaduras que
permitem às nossas próximas gerações combater o racismo, o machismo e a homofobia com
dignidade.”

Racismo

A rima de resistência é o que move a Frente Nacional de Mulheres do Hip Hop (FNMH2).
Uma de suas articuladoras, a rapper Vera Veronika, conta que as ações para 2016 são
baseadas nas lutas diárias das mulheres da Cultura Hip Hop. Combate ao fim de todas as
formas de violência contra as mulheres e ao genocídio de jovens está na agenda
prioritária. A frente também apoia apresentações culturais e organiza o Encontro
Nacional das Mulheres do Hip Hop. O trabalho tem inspirado batalhas, slams e grupos de
todo o país. Meninas negras que descobriram no hip hop uma forma de se afirmar e se
fortalecer.

“Várias instâncias governamentais têm apoiado e visibilizado a luta das mulheres
negras; contudo, temos muito a avançar quando as políticas públicas destinadas às
mulheres se tornam gerais ou genéricas. Não temos políticas efetivas para as mulheres
negras quilombolas e de matriz africana; isso nos distancia das ações afirmativas e
nos remete a um retrocesso indenitário”, frisa Veronika, que mora em Valparaíso de
Goiás e transita entre o Entorno e o Distrito Federal, região em que o racismo e o
ódio religioso têm violentado várias mulheres negras.

Em dezembro, o Ilê Axé Oyá Bagan, no Paranoá, amanheceu em chamas. A líder religiosa
do terreiro, Mãe Baiana, acusa grupos racistas pelo incêndio, que colocou abaixo o
barracão onde eram realizadas as principais cerimônias do terreiro. O atentado motivou
a criação de um movimento em favor da instalação de delegacias especializadas nesses
crimes. O Distrito Federal já inaugurou sua primeira unidade, sob protesto de
policiais que alegam falta de pessoal para a nova delegacia.

“Precisamos conversar muito com os servidores para que eles entendam a importância
dessa iniciativa. Vivemos sob ameaça. E o Estado brasileiro não pode admitir isso”,
defende Mãe Baiana. Integrante da Rede de Saúde Afrodescendente (Renafro), a religiosa
também espera uma ação mais efetiva de saúde pública nos terreiros em 2016. “Os
agentes de saúde dizem que não podem entrar no terreiro porque a religião deles não
permite. Agora a religião deles permite que o mosquito da dengue pique nossos filhos,
pique nosso povo e bote em cima de uma cama? A dor que é lá é cá, o mosquito que pica
lá pica cá.”

Além da saúde pública, outro campo de batalha das mulheres negras é a educação e o
trabalho. As cotas nas universidades foram consideradas constitucionais pelo Supremo
Tribunal Federal, mas os estudantes negros ainda sofrem preconceito de colegas e
professores nos campi universitários.

O governo determinou cotas nos concursos públicos, mas alguns juízes têm dado
sentenças contrárias a essa política. Empresas assinam termos de ajustamento de
conduta com o Ministério Público para garantir a diversidade em seus quadros e cargos
de chefia, mas seguem com o padrão estético branco como pré-requisito de conceitos
como credibilidade e boa aparência.

Diante desse contexto, o Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades
(Ceert) atua para tentar garantir equidade no mercado de trabalho e no acesso à
justiça. A doutora em Psicologia Cida Bento está à frente desse projeto e, por meio
dele, já recebeu reconhecimento internacional. Foi considerada pela revista The
Economist uma das cinquenta profissionais mais influentes do mundo no campo da
diversidade.

“Nossa estratégia é fomentar o debate público, ao ampliar e compartilhar perspectivas
e informação (vídeos, publicações, encontros) para fortalecer vozes, disseminar
questões e ampliar a incidência das ações, particularmente no âmbito das políticas
públicas”, aponta Cida.

“Este momento é rico, fértil e desafiante, e construir uma verdadeira solidariedade
entre nós, mulheres negras, é o grande desafio. Saber costurar o convívio e a ação
conjunta entre as do ‘nosso grupo’ e as que ‘não são do nosso grupo’. Solidariedade
tem de ser o coração de nossa ação, como nos ensinou Lélia Gonzalez.”

Daniela Luciana da Silva e Juliana Cézar Nunes

*Daniela Luciana da Silva e Juliana Cézar Nunes são jornalistas e integrantes da
irmandade Pretas Candangas e da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial
(Cojira-DF).

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2 – As sufragistas e o jiu-jítsu

Na aurora do século XX, o combate das sufragistas britânicas pela igualdade cívica
coincidiu com a introdução das artes marciais japonesas na Europa. Como frequentemente
a história ultrapassa a ficção, essa concomitância permitiu abalar – de fato – o
Estado patriarcal

por Daniel Paris-Clavel

Dirigido por Sarah Gavron com um roteiro de Abi Morgan, o longa-metragem britânico As
sufragistas estreou em novembro de 2015.1 Mesmo que tenha o mérito de existir e ser
muito bem interpretado, pode decepcionar os apreciadores de uma utilização dinâmica do
cinema a serviço de um assunto igualmente dinâmico.

Partindo da politização de uma jovem operária, o filme revisita algumas das ações
marcantes realizadas no período de 1913 pelas militantes a favor do direito de voto
das mulheres. Infelizmente, como a mistura dos gêneros cinematográficos parece
decididamente tabu, a retenção chorosa do “drama social” ganha da real exuberância dos
fatos históricos, que só poderiam existir num filme de ação.

Isso porque, para conquistar seus direitos, essas avós do Movimento pela Liberação das
Mulheres (MLM) dos anos 1970 tiveram de bater nos locais certos, o que lhes permitiu
não apenas conquistar em 1918 o direito de voto para 8 milhões de inglesas com mais de
30 anos (e depois, em 1928, para todas as maiores de idade), mas também redefinir a
relação das mulheres com a violência política e doméstica. Isso nos faz sonhar com uma
nova adaptação para o cinema, com Gina Carano e Ronda Rousey – atrizes e campeãs de
Mixed Martial Arts (MMA) – como sufragistas realmente de choque…

Vamos recordar alguns fatos. Em 1903, Emmeline Pankhurst (1858-1928), cansada dos
movimentos não violentos das organizações sufragistas, criou a Women’s Social and
Political Union (WSPU) com duas de suas filhas, Christabel (1880-1958) e Sylvia (1882
-1960). Ao cuspir em um policial, a primeira inaugurou em 1905 a série de prisões
arbitrárias que visariam a família Pankhurst e as militantes da WSPU.

A Union ficou rapidamente conhecida, com Emmeline Pankhurst pregando desde 1910 a ação
direta a fim de chamar a atenção, principalmente depois do “Black Friday”, uma
manifestação feminista reprimida pela polícia com uma violência impressionante.
Aquelas que as mídias nomeariam de “sufragistas” passaram então a atacar a sacrossanta
propriedade privada, quebrando janelas, incendiando algumas chácaras ricas, devastando
os terrenos de golfe e os jardins botânicos reais.

Esse vandalismo assumido, que misturava desobediência civil e sabotagem, não era nada
diante da violência masculina cotidiana: exiladas até em seus lares e locais de
trabalho, as militantes eram insultadas na rua; jogavam pedras nelas, quando se
manifestavam, e os homens chegavam a subir nos palanques dos encontros para bater nas
oradoras, debaixo dos olhares insolentes dos policiais que esperavam para ocupar seus
lugares. E, quando as militantes aprisionadas seguiam a orientação de uma greve de
fome sistemática para reclamar o status de prisioneiras políticas, elas eram
alimentadas à força…

Preocupadas com o número cada vez maior de cidadãos (masculinos) tocados por essas
torturas, as autoridades editaram em 1913 o Cat and Mouse Act: as grevistas de fome
eram liberadas quando seu estado estava muito degradado e depois presas novamente uma
vez que estivessem restabelecidas… Para as sufragistas, tornou-se imperativo impedir
esse cruel jogo de gato e rato, que visava abertamente decapitar o movimento. Foi aí
que os samurais intervieram.

O jiu-jítsu, literalmente “arte da flexibilidade”, utiliza a força do adversário
contra ele mesmo, o que torna possível acabar com um oponente fisicamente mais forte.
Desenvolvido pelos samurais do Japão feudal como uma técnica de combate sem armas, ele
deu origem ao judô, ao aikidô e, mais recentemente, ao jiu-jítsu brasileiro. Em 1898,
um certo Edward William Barton-Wright (1860-1951) introduziu a arte no Reino Unido,
depois de tê-la estudado no Japão. Ele se serviu dela como base para seu próprio
“bartítsu” (a partir de seu sobrenome), um ancestral do MMA moderno que combina jiu-
jítsu, boxe inglês, savate e luta. Aberta em 1900 no Soho, sua escola atraiu diversos
alunos – soldados, aristocratas… Ela empregava professores renomados como o francês
Pierre Vigny, que ensinava savate e bastão de combate, e cuja futura esposa,
Marguerite, desenvolveria alguns anos depois uma impressionante técnica de autodefesa
com um guarda-chuva. Mas, sobretudo, a escola se beneficiava da preciosa presença de
dois mestres japoneses, Yukio Tani (1881-1950) e Sadakazu Uyenishi (1880-?).

Depois de uma demonstração pública que os fascinou, Edith e William Garrud, um casal
de professores de musculação, se inscreveram imediatamente na escola de Barton-Wright.
Em 1903, quando esta fechou as portas, eles acompanharam Uyenishi, que fundou sua
escola (School of Japanese Self-Defense), e ficaram com o estabelecimento quando o
mestre voltou para o Japão. Edith Garrud (1872-1971) ensinava o jiu-jítsu para
mulheres e crianças. Paralelamente, ela abriu no East End londrino um dojo (sala de
treinamento) reservado para a instrução das sufragistas da WSPU e da Women’s Freedom
League, nascida em 1907 de uma cisão da primeira.

Para uma mulher, nessa época, praticar um esporte já era um ato político. Edith Garrud
era ainda por cima uma militante feminista; do alto de seu 1 metro e meio, aquilo que
ela mais amava era provar a superioridade da agilidade sobre a força bruta ao longo
das demonstrações que a opunham de brincadeira a um figurante fantasiado de policial.
Ela promoveu a autodefesa feminina não apenas por meio de seus cursos, mas também
aparecendo no primeiro filme de artes marciais inglês (Jiujitsu Dows the Footpads,
1907), criando uma peça de teatro cômica contra a violência conjugal (What Every Woman
Ought to Know, “Aquilo que toda mulher deveria ousar saber”, 1911) e escrevendo
artigos, principalmente para a Votes for Woman, o jornal da WSPU. Enfim, ela escalou
os muros da prisão de Holloway para cantar ali em voz alta em apoio às sufragistas
encarceradas.

Em 1913, diante da amplitude da repressão, simbolizada pelo Cat and Mouse Act, Sylvia
Pankhurst exortou a WSPU a criar um “serviço de segurança”, encarregado de proteger as
manifestantes das forças da ordem. Assim nasceu o Bodyguard, um grupo de cerca de
quarenta mulheres treinadas por Edith Garrud, que instalou esconderijos de armas sob
os tatames de seu dojo. Encabeçando o grupo se encontrava Gertrude “Gert” Harding
(1889-1977), canadense que chegou a Londres em 1912 e ficou célebre por ter arrancado
as orquídeas dos jardins botânicos reais – uma realização inicialmente atribuída a
homens pelas autoridades, incapazes de conceber que uma mulher pudesse ter escalado os
muros de proteção.

Dissimulando sob os vestidos tijolos, bastões de ginástica e cassetetes subtraídos dos
policiais, os membros do Bodyguard protegiam as manifestações e os encontros,
rivalizando em coragem e engenhosidade para contrabalançar sua inferioridade numérica.
Ninguém contabilizava mais as fraturas, feridas e inchaços nas fileiras. Elas
planejavam itinerários e soluções de fuga. Muitas delas se fantasiavam, por exemplo,
de sósias das sufragistas procuradas pelos policiais, como Emmeline Pankhurst, para
fazê-los se perder na saída de um encontro.

A imprensa, que noticiava rapidamente suas conquistas, as apelidou de “amazonas” ou
“sufrajítsu”, enquanto o governo se desesperava diante dessas mulheres que
ridicularizavam a autoridade ao arrancar os suspensórios dos policiais. “No que diz
respeito às nossas combatentes”, escreveu Emmeline Pankhurst em uma homenagem às suas
protetoras, “elas estão em plena forma e têm muito orgulho de suas conquistas […]
Nossa camarada que teve a cabeça aberta recusou que lhe dessem pontos porque queria
manter a cicatriz o mais visível possível. O verdadeiro espírito da guerreira!”2

Por sua vez, a polícia aprendeu de vez em quando a ser esperta. Em 1913, ela prendeu
Emmeline Pankhurst, que retornava de uma viagem aos Estados Unidos, no próprio barco,
a fim de evitar qualquer intervenção do Bodyguard que a esperava no porto. Mas, na
maior parte do tempo, os bobbies se contentavam em atacar, com o cassetete em punho,
contando com seu número e sua brutalidade. Como durante a “batalha de Glasgow”, em
1914: em um encontro da WSPU na Escócia, Emmeline Pankhurst enganou a vigilância
policial se fazendo passar por uma simples espectadora; mas, quando se dirigiu ao
palanque, cinquenta policiais se lançaram sobre ela, defendida por trinta membros do
Bodyguard, sob os olhares chocados de 4 mil espectadores. A violência e a
arbitrariedade da prisão, mesmo em um encontro autorizado, fizeram muitos indecisos se
unirem à causa sufragista.

Depois da entrada do Reino Unido na guerra contra a Alemanha, Emmeline Pankhurst
escolheu interromper as ações da WSPU, dissolver o Bodyguard e chamar as inglesas a
apoiar o esforço de guerra nacional. A decisão, que visava destacar o papel das
mulheres como cidadãs, para assentar a legitimidade de suas reivindicações cívicas,
traria seus frutos em 1918, mas provocou o desentendimento definitivo entre Sylvia
Pankhurst – que se uniu às comunistas que se opunham à guerra – e a mãe. Cada vez mais
assustada pela perspectiva de uma revolução comunista, esta última acabaria se unindo
ao Partido Conservador. Edith Garrud, por sua vez, continuaria até 1925 a dar aulas de
jiu-jítsu com o marido, fortalecida pelo status de primeira mulher ocidental
instrutora de artes marciais.

Do outro lado do Canal da Mancha, as “jiujitsufragistas” intrépidas marcaram alguns
espíritos, entre os quais o de Madeleine Pelletier (1874-1939), primeira mulher
psiquiatra e militante socialista libertária. Depois de ter ido em 1908 a uma
manifestação de sufragistas londrinas, Pelletier defendeu em seu jornal, o La
Suffragiste, o ativismo contundente de suas irmãs: “É claro que quebrar uma janela não
é um argumento; mas, se a opinião, surda aos argumentos, só é sensível às janelas
quebradas, o que fazer? Quebrá-las, evidentemente”.

Esse espírito foi encarnado de maneira notável, em um contexto completamente
diferente, pela poeta Qiu Jin (1875-1907), a “primeira feminista chinesa”, que militou
principalmente contra a tradição dos pés enfaixados. Ela aprendeu as artes marciais
chinesas e japonesas para preparar a insurreição contra a dinastia Manchu. Ensinando
musculação nas escolas de meninas, as quais acabou orientando para o manejo de armas,
ela provocou escândalo ao exortar suas alunas a aprender uma profissão. Foi decapitada
por tentativa de golpe de Estado em 1907.3

Porque sabiam que os oprimidos são sempre os primeiros a pagar quando algo dá errado,
essas pioneiras da autodefesa social e feminista ousaram redefinir a feminilidade em
função de suas necessidades reais. Por meio da prática do jiu-jítsu, as sufragistas
anteciparam a advertência dada pela socióloga e formadora austríaca Irene Zeilinger em
seu Pequeno manual de autodefesa para uso de todas as mulheres que estão cansadas de
ser assediadas sem dizer nada: “O agressor decide que haverá violência; a nós cabe
decidir contra quem essa violência será dirigida”.4

Daniel Paris-Clavel

*Daniel Paris-Clavel é criador e animador da revista ChériBibi, consagrada às culturas
populares (www.cheribibi.net)
1 Em cartaz no Brasil desde 24 de dezembro de 2015.

2 Citado em Tony Wolf, Edith Garrud: The Suffragette Who Knew Jujutsu [Edith Garrud: a
sufragista que sabia jiu-jitsu], Lulu.com, 2009. Cf. também o romance gráfico
Suffrajitsu: Mrs. Pankhurst’s Amazons [Sufrajítsu: amazonas da sra. Pankhurst], de
Tony Wolf e João Vieira, Jet City Comics, Tacoma (Washington), 2015.

3 Cf. Suzanne Bernard, Qiu Jin. Féministe, poète et révolutionnaire [Qiu Jin.
Feminista, poeta e revolucionária], Le Temps des Cerises, Montreuil, 2006.

4 Irene Zeilinger, Non c’est non [Não é não], Paris, 2008.
04 de Fevereiro de 2016

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3 – Nada detém as iranianas

O respeito do Irã ao Tratado sobre a não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) traz
consigo a suspensão progressiva das sanções internacionais. A abertura comercial e
suas repercussões políticas influenciarão as eleições legislativas de fevereiro.

por Florence Beaugé

Um grupo de garotas adolescentes entra rindo no vagão e se acomoda alegremente no
chão, já que não há lugares livres. Com os solavancos do trem, seus véus deslizam
sobre os ombros, descobrindo o cabelo. Mas não importa: aqui só há passageiras. No
metrô de Teerã, que começou a funcionar no final dos anos 1990, os vagões do início e
do fim das composições são reservados às mulheres. Elas viajam neles “para ficar
sossegadas”, dizem. O ambiente é descontraído. Os outros vagões são mistos. Jovens
casais entram de mãos dadas, sem problemas.

Moderno e limpo, o metrô de Teerã permite ao mesmo tempo escapar da poluição e dos
congestionamentos. Hoje há cinco linhas em serviço. As estações desfilam à nossa
frente, batizadas com os nomes dos “mártires” da guerra contra o Iraque (1980-1988). O
conflito, que fez quase meio milhão de mortos, acabou há 27 anos, mas o poder nunca
para de cultivar sua memória.

O metrô ilustra as contradições da República Islâmica. Nele se encontram lado a lado
roupas elegantes, de cores vivas, e trajes comuns surrados. Em média, cinco xadores
pretos e severos – a vestimenta obrigatória para os funcionários da administração –
para cada dois véus coloridos. Nenhuma pessoa hermeticamente coberta. E algumas cenas
inesperadas: vendedoras ambulantes oferecem sutiãs, calcinhas, bolsas…

Trinta e seis anos após a Revolução Islâmica, apesar da legislação que lhes confere
menos direitos do que aos homens, as mulheres desempenham um papel importante no Irã.
Elas estão presentes em todos os setores, embora a maioria dos altos cargos da
administração ainda lhes seja vedada. Em virtude de uma leitura estrita do Corão, elas
não podem ser juízas em pé de igualdade com os homens nem interpretar os textos
sagrados, mesmo se chegarem ao nível de aiatolá (o mais alto escalão do clero xiita).
Mas podem ser arquitetas, empresárias, ministras… O Parlamento do país tem nove
deputadas (todas conservadoras), e uma primeira embaixadora acaba de ser nomeada: em
novembro de 2015, Marzieh Afkham assumiu seu posto em Kuala Lumpur. Nada é fácil: as
mulheres precisam lutar para se impor e para ter seus direitos reconhecidos,
principalmente em um país onde sofrem discriminações em todos os níveis.

Para se casar, trabalhar, viajar, abrir uma conta bancária ou receber uma herança,
elas estão sujeitas a leis iníquas e dependem da boa vontade do chefe de família. Para
se divorciar, por exemplo, a esposa, ao contrário do marido, precisa explicar sua
decisão perante o juiz e aguardar a autorização. As crianças ficam sob sua guarda até
os 2 anos de idade, no caso dos meninos, e até os 7, no caso das meninas. Depois a
guarda passa para o pai, a menos que este a recuse. Quanto à autoridade parental, ela
retorna ao pai, mesmo que as crianças vivam com a mãe. “Na lei, o homem é rei”, resume
Azadeh Kian, professora de Sociologia Política.

Escolarização, a maior conquista da revolução

Os dados oficiais subestimam o trabalho das mulheres: apenas 14% teriam emprego. Na
realidade, considerando-se o trabalho clandestino e a agricultura, entre 20% e 30% das
mulheres exercem uma atividade regular. E isso é apenas o começo. A demanda feminina
para integrar o mercado de trabalho aumenta rapidamente. Nas universidades, 60% dos
estudantes são mulheres. “Elas venceram a batalha pela licenciatura e o mestrado. Em
breve ganharão a do doutorado”, prevê o antropólogo Amir Nikpey. Para ele, as
iranianas estão quase na situação das francesas da década de 1940 e 1950: presentes em
toda parte no espaço público, mas sem poder real, com poucas exceções, e normalmente
no nível mais baixo do ponto de vista econômico.

Ano após ano, elas conquistam novos bastiões. “É o país que forma o maior número de
engenheiras”, destaca Kian, antes de lembrar que Maryam Mirzakhani, a primeira mulher
a ganhar a Medalha Fields (equivalente ao Prêmio Nobel de Matemática), em 2014, era
iraniana. “Nas províncias do Sul, particularmente no Baluquistão, predominantemente
sunita [ao passo que o Irã é 90% xiita], a cultura árabe, mais machista, prevalece. Há
inclusive muitos casos de poligamia, enquanto os iranianos são geralmente monogâmicos.
Mas, também lá, o papel das mulheres está crescendo. É uma evolução global da
sociedade”, indica Thierry Coville, economista. “A mudança mais notável no Irã é a
tomada de consciência da importância da educação como meio de conquistar a
independência”, confirma Kian.

Muita gente não sabe, mas a escolarização das meninas foi certamente a principal
conquista da Revolução Islâmica, em 1979. “Paradoxalmente, as famílias tradicionais
aceitaram isso, afinal se tratava da República Islâmica! Quando vou às aldeias
remotas, os homens me dizem: ‘O aiatolá Khomeini mandou as mulheres para o front e as
meninas para a escola. Eu faço o mesmo!’”, explica a socióloga da religião Sara
Shariati, professora da Universidade de Teerã.

Primeira consequência: as mulheres se casam mais tarde e, principalmente, têm em média
apenas dois filhos, contra sete nos primeiros anos da Revolução Islâmica, marcada por
uma política natalista. As autoridades vêm frequentemente a público lembrar que seria
melhor haver 100 milhões de iranianos do que os atuais 78 milhões, mas as mulheres
fingem não ouvir.

“Mesmo durante os anos Ahmadinejad,1 não voltamos atrás. Continuamos avançando, como
um carro que anda com os faróis apagados à noite”, brinca Shahla Sherkat, diretora da
revista feminina Zanan Emrouz. Sua publicação sofreu uma suspensão de seis meses por
ter dedicado um número a um tema “quente”: a união livre. Seriam várias dezenas de
milhares de pessoas em Teerã vivendo em concubinato. A união livre difere do
“casamento temporário”, permitido pelos xiitas, embora malvisto e pouco praticado no
Irã. “Evitamos fazer julgamentos em nossa reportagem; de maneira alguma encorajamos a
união livre e até alertamos sobre seus riscos”, argumenta Sherkat. Mas os
conservadores protestaram, e a sanção foi aplicada.

Quando a diretora da Zanan Emrouz foi convocada pela justiça, foi primeiro acusada de
ser “feminista” – um insulto no Irã. Para se defender, afirmou estar apenas
“refletindo a realidade” da sociedade iraniana. Em vão. “O problema no Irã é que as
instituições e os homens pensam que, se reivindicarmos nossos direitos, acabaremos
negligenciando nossos papéis de mãe e esposa”, suspira.

Art Up Man é um café badalado no centro de Teerã. A capital tem muitos lugares da
moda, aonde os jovens vão para “descontrair”, como diz uma estudante de Direito,
mostrando o cigarro. Moças e rapazes conversam em pequenas mesas, enquanto teclam em
seus smartphones. De fundo, canções de Elvis Presley. Yeganeh K., estudante de
Microbiologia, com os lábios cor de framboesa e as unhas pintadas de preto, diz alto e
claro que o regime não é “digno de confiança” e que é preciso “mudar tudo, a começar
pelo nome ‘República Islâmica’”. As eleições legislativas do dia 26 de fevereiro só
lhe inspiram desdém. “Em outros lugares, é possível escolher seus representantes. Aqui
não. Há sempre alguém que tem direito de observar tudo e que nos ‘guia’! Para mim,
parece a Coreia do Norte!”, reclama.

Seus amigos se assustam. Rahil H., com penteado punk, protesta: “Absolutamente não!
Aqui as pessoas são livres, apesar do aspecto policial do regime. Não temos muita
liberdade de expressão ou de vestimenta, mas, no resto, fazemos o que queremos!”.
Sorrosh T., com os óculos de sol colocados sobre o véu para mantê-lo no lugar,
intervém: “Não são estranhas todas essas proibições. Toda vez que eu saio, meus pais
me dizem: ‘Cuidado!’. Não é que aprovem, mas para eles é preciso levar em consideração
a sociedade, o sistema”. Uma coisa irrita essa garota mais que tudo: “Aqui, as pessoas
têm sempre o direito de observar o que você faz”.

O véu está longe de ser a principal preocupação das iranianas. “É assim”, dizem,
convencidas de que não vale a pena se aborrecer por tão pouco. O desemprego, a
inflação e o exame de admissão para a universidade preocupam muito mais.

Todos os dias, Yeganeh K. diverte-se com suas amigas contornando as regras impostas
pelo poder, como se brincasse de gato e rato. No verão, usa sandálias que permitem ver
seus pés e tornozelos, e pinta as unhas com cores vibrantes, tudo estritamente
proibido. No inverno, veste sapport, uma calça justa e grossa sobre a qual coloca uma
saia curta. Se adicionar à composição um par de botas de cano alto, ela corre sérios
riscos de ser repreendida pela polícia de costumes, que patrulha as esquinas e os
centros comerciais do norte da capital, onde a juventude descolada gosta de passear.
“Um dia, fui levada para a delegacia. Fui fotografada, pegaram minha identidade e me
disseram: ‘Se fizer isso de novo nos próximos dois meses, você será fichada!’”, conta
morrendo de rir. Ela sonha sair desse ambiente sufocante. Se tivesse oportunidade,
iria embora para a Europa ou os Estados Unidos sem pestanejar.

Já Behnaz Shafie escolheu “ficar e agir”. Pequena, franzina, muito feminina e muito
maquiada sob o véu, ela é, aos 26 anos, a primeira mulher a obter autorização para
pilotar motocicleta profissionalmente. Enquanto as mulheres não são autorizadas nem a
entrar nos estádios para assistir a competições de futebol disputadas por homens, ela
ganhou o direito de entrar no Estádio Azadi, em Teerã, em sua moto de mil cilindradas.
“Behnaz deslumbra o mundo!” – essa era a manchete de um jornal conservador no outono
passado, quando ela voltou de Milão, onde foi convidada de honra em um encontro de
motociclistas. Mas ela sabe: nada é garantido. Amanhã, um religioso conservador pode
exigir que ela pare de se comportar como homem em um ambiente de homens. Enquanto
isso, “abre caminho para as mulheres”, sem pressa, mantendo-se dentro da lei. “E tenho
orgulho de ser iraniana”, acrescenta. Em Karaj, subúrbio de Teerã onde vive, ela chega
a circular de moto. Quando os homens percebem que é uma mulher, às vezes buzinam para
cumprimentar, às vezes gritam: “Volte para sua máquina de lavar roupa!”.

Às vésperas das eleições, o clima é particularmente pesado em Teerã. Toda noite, ou
quase, o Guia Supremo aparece na televisão para dar seus conselhos. Advertências para
que a população “não se deixe contaminar” pelo Ocidente. “Evite contato com
estrangeiros”, aconselha o aiatolá Ali Khamenei. Desde o TNP, só aumentam as
advertências do Guia e seus radicais, sinal de sua preocupação com a ideia de que, com
a suspensão das sanções e a abertura por vir, a situação saia de seu controle. Há
alguns meses, o aiatolá Ahmad Jannati, presidente do Conselho de Guardiães, um linha-
dura de 88 anos, advertiu que o TNP não deveria abrir caminho para outras
reivindicações: “Cuidado para que amanhã isso não traga à mesa a questão das mulheres
e da igualdade de gênero!”.

Fariba Hachtroudi é daquelas que não se deixam intimidar. “Não faço provocações, mas
digo em voz alta o que penso”, resume a conhecida escritora,2 que admite, rindo,
“carregar no DNA a loucura desta terra”. Dividindo-se entre seu país natal e a França,
para onde se expatriou na adolescência, ela desistiu de fazer política e optou por
resistir por meio da escrita. Toda vez que volta ao Irã, constata que as mulheres
ganharam terreno. “Em uma aldeia do Baluquistão, o conselho da cidade, inteiramente
masculino, acaba de eleger uma prefeita. Exemplos como esse estão em todos os
lugares!”, exclama.

Preocupação com as aparências

Teria a repressão brutal do “movimento verde”, nascido da reeleição contestada do
presidente Ahmadinejad em 2009, aniquilado toda a militância, como muitos pensam?
Hachtroudi discorda. “As mulheres ainda estão lá, na linha de frente, e continuam
lutando, apesar da resistência. Elas não desistem!”, diz a escritora, destacando que
as ONGs criadas pelas mulheres florescem em toda parte. Nos subúrbios de Teerã,
surgiram lugares de acolhida para crianças de rua e portadores de HIV, além de centros
de desintoxicação para alcoólicos, com a aprovação do governo. Um ponto de inflexão,
pois até então as autoridades negavam problemas como o HIV e o alcoolismo.

Embora a luta das mulheres continue, ela é desorganizada e, muitas vezes, individual.
Muito ocupadas em sobreviver a seu cotidiano, a maioria das iranianas esquece as
figuras na vanguarda de sua luta: a advogada dissidente Nasrin Sotoudeh, a diretora
Rakhshan Bani-Etemad, ambas sob alta vigilância, ou ainda a militante dos direitos
humanos Narges Mohammadi, condenada a oito anos de prisão por “propaganda contra o
regime”.

“Não podemos explicar por que não estamos felizes”, suspira a dona de casa de 40 anos
que chamaremos de Farah. “É o ambiente. Amamos nosso país, mas o que nos falta é
simplesmente ar!” Na Universidade de Ciência e Tecnologia Elm-o-Sanat, onde estuda seu
filho, alto-falantes despejam todos os dias versos do Corão e instruções moralizantes.
Os estudantes têm direito a várias semanas de celebrações: há a semana da guerra, a
semana da Basij, a semana dos “mártires”… “É lavagem cerebral! Estamos fartos
disso!”, pragueja Farah.

Já Mahboubeh Djavid Pour nem imagina reclamar dessa atmosfera de luto perpétuo. Ela é
basij – literalmente, “membro da força de mobilização da resistência”, criada pelo
aiatolá Ruhollah Khomeini. Esses voluntários são uma espécie de auxiliares da Guarda
Revolucionária. Atualmente são estimados em 10 milhões. Seu estatuto confere-lhes
muitos benefícios, como bolsas de estudos, emprego, entrada na universidade. Eles são
temidos e até odiados pela população. As classes superiores os desprezam.

Membro da administração da mesquita de Imã Reza, em Teerã, Djavid Pour move-se
segurando firmemente seu xador preto em torno de si, o que a faz lembrar uma madre
superiora. Essa mulher de 54 anos, mãe de três filhos, orgulha-se de ser basij. Ela vê
nessa função “uma forma de aplicação do islã”. O TNP não lhe desagrada, mas ela
continua desconfiada dos Estados Unidos. Segundo ela, eles prosseguirão em sua
campanha de difamação da República Islâmica, porém de forma mais insidiosa.
“Felizmente, nós estamos agora muito esclarecidos e mais capazes de resistir às
manobras norte-americanas”, diz, antes de acrescentar com gratidão: “Além disso, o
Guia está aqui, ele nos ilumina e nos mostra o caminho”.

Farah, dona de casa que se diz ateia, preocupa-se com o que chama de “religiosidade de
aparência”. A marca na testa que os homens adquirem de tanto se prostrar no chão – ou
fabricam para parecerem pios –, a masbaha ostensivamente entre as mãos, tudo isso a
exaspera. “Somos uma sociedade doente, dominada pela preocupação com as aparências e a
hipocrisia. Não sei aonde isso vai nos levar”, diz.

A confirmação paradoxal de seu pessimismo: o número impressionante de operações
estéticas solicitadas por mulheres iranianas. O nariz, a boca, as bochechas, os ossos
da testa… Como presente de 18 anos, uma moça pode ganhar de seus pais uma
rinoplastia. Em Teerã, narizes arrebitados e maquiadíssimas bochechas de Barbie surgem
sob véus. Às vezes, um desastre. De onde vem esse fenômeno, que explodiu há cinco ou
seis anos e afeta todas as camadas da sociedade? Ninguém consegue realmente explicar.
Obsessão das mulheres pelo rosto, já que não podem mostrar o corpo e o cabelo…?

“Que a imagem do Irã seja reabilitada”

Em Qom, cidade sagrada do Irã, respira-se melhor que em Teerã. Estamos em pleno
deserto. Aqui não há poluição, mas um clima seco que estufa o verão. Localizada 150
quilômetros a sudoeste da capital, a cidade de 1 milhão de habitantes é o principal
centro de educação teológica do país – 5 mil mulheres estudam religião aqui –, além de
ser um importante local de peregrinação. Ali está sepultada Fatemah Masumeh, irmã do
oitavo imã xiita Reza, em um belo e imenso mausoléu. Na fachada dos imóveis, afrescos
gigantes representando o aiatolá Khomeini relembram que o iniciador da Revolução
Islâmica viveu muito tempo em Qom. Aqui não há roupas coloridas: todas as mulheres,
sem exceção, usam o xador. Elas andam muito de mobilete, na garupa do marido, sem véu.

Hoje, 80 mil mulheres formadas em teologia difundem a boa palavra no Irã. Fariba
Alasvand é “Eshtehot”, o mais alto grau de estudos teológicos. Ela ensina no Centro de
Pesquisa sobre a Família e as Mulheres. Seus alunos são tanto homens como mulheres.
“As mulheres do Irã são muito diferentes das do mundo árabe. Nós damos grande
importância à nossa liberdade. Isso reflete a cultura iraniana e o xiismo”, diz ela
desde o princípio. Sobre o uso obrigatório do hijab, ela hesita por um instante, sem
dúvida, nas questões falsamente inocentes. “Um verso do Corão diz: ‘Use o hijab’. Ele
protege as mulheres. Se abandonarmos essa regra do islã, abandonaremos outras”,
finalmente lança.

Essa dona de casa de 60 anos, conservadora, chegou a viajar pela Europa e Estados
Unidos para participar de conferências religiosas. Todas as vezes ela sentiu “o olhar
negativo do Ocidente”, e sofreu com isso, como todas as iranianas. Para ela, os meios
de comunicação são responsáveis por essa incompreensão. Seu medo: que a suspensão das
sanções, “desejada por toda a população e pelo Guia”, acabe por escravizar o Irã. “O
Ocidente quer entrar no Irã, mas recusa a recíproca”, lamenta. Seu desejo é que o país
mantenha suas especificidades. “Nossa religião nos dá uma cultura e uma estrutura.
Nossa liberdade deve ser exercida nos limites do Corão.”

Mais jovem, porém igualmente firme em seus princípios, Zahra Aminmajd também é formada
em Direito Islâmico e professora em Qom. Sorridente, natural, ela acha que o
cristianismo e o islã “têm muitos pontos em comum”, e lamenta que o Ocidente tenha
“uma percepção tão ruim do islã, particularmente no que concerne às mulheres”. O que
mais a preocupa? O consumismo ocidental, com o qual, segundo ela, sonham os iranianos.
“Melhor que ficar esperando a suspensão das sanções seria trabalhar mais”, afirma.

Animada com o retorno do Irã à cena internacional, Sanaz Minai espera uma coisa acima
de tudo: “Que a imagem do Irã seja reabilitada. Que seu valor perdido seja finalmente
restaurado”. De calça jeans, salto alto e um lenço macio, ela é um modelo de sucesso.
Já escreveu mais de vinte livros sobre culinária e cultura iraniana, abriu uma escola
dedicada à arte de receber, o Culinary Club, e fundou a Sanazsania, que desponta
orgulhosamente em primeiro lugar na venda de revistas culinárias. A suspensão das
sanções abre-lhe perspectivas infinitas. Ela quer fazer do Irã “um polo culinário”, ao
mesmo tempo “na moda e chique!”.

Nada parece poder deter outra empresária de sucesso: Faranak Askari. Em junho de 2013,
a jovem estava em Londres, onde cresceu, quando ouviu o chamado do novo presidente
Hassan Rohani: “Venha para o Irã!”. Dois meses depois, ela voltou para Teerã e lançou
a Toiran (“To Iran”), uma empresa de serviços para turistas VIP e empresários.
Paralelamente, montou um site com todas as informações possíveis sobre cinquenta
cidades iranianas – uma espécie de guia de viagem on-line. Sucesso imediato.

“A maior ameaça ao regime”

Desde o acordo de 14 de julho de 2015, a Toiran vê suas reservas duplicarem a cada
mês. Sua clientela é majoritariamente europeia. Uma urgência para Askari: que as
transações bancárias entre o Irã e os países estrangeiros, proibidas nos últimos anos
por causa das sanções ocidentais, sejam restabelecidas. A Toiran, como muitas empresas
iranianas, tem suas receitas bloqueadas em Dubai. “Falta-nos liquidez. Para
sobreviver, ficamos limitados à troca! Mas isso não pode durar: temos de levantar
fundos, investir…”

Conhecida por sua franqueza, Shahindokht Molaverdi não hesita em se encontrar com
jornalistas ocidentais, mas em nosso encontro manteve-se nos limites de um discurso
pronto. Deve-se admitir que o contexto é difícil para ela. Nomeada há dois anos vice-
presidenta da República encarregada das mulheres e da família pelo presidente Rohani,
a jurista de 40 anos fica na defensiva. “É preciso haver mais mulheres nas
assembleias”, diz. Ou: “Precisamos trazer mulheres para todas as esferas de poder”.
Nem uma palavra mais alta do que a outra. É compreensível: entre a proximidade das
eleições de 26 de fevereiro, a suspensão das sanções e a crise aberta com a Arábia
Saudita, ela não pode permitir-se o menor desvio. Como é considerada próxima dos
reformistas e feminista, os ultraconservadores a odeiam.

Mulheres, um grande problema no Irã? Sem dúvida. “O regime tem medo delas. Elas
representam a maior ameaça contra ele”, garante um universitário que pede o anonimato.
“Ele não sabe como lidar com elas, como combatê-las, como impedi-las de abrir novas
brechas…” E a questão do véu, sem grande importância no fundo, é um símbolo. Como
dizem as teólogas de Qom: “Se o abandonarmos, abandonaremos o resto”…

Florence Beaugé

Florence Beaugé é jornalista.

Ilustração: Reuters/Rahed Homavadi

1 Mahmoud Ahmadinejad, presidente da República Islâmica de 2005 a 2013, conservador.

2 Autora de Iran, les rives du sang [Irã, os rios de sangue], Seuil, Paris, 2001; e À
mon retour d’Iran [Meu retorno ao Irã], Seuil, 2008.