Trecho de entrevista com Jacques Derrida sobre hospitalidade, o outro, xenofobia, etc

DerridaPipeLe Monde – Em seu último livro, De l’Hospitalité, o senhor opõe “a lei incondicional da hospitalidade ilimitada” “às leis da hospitalidade, esses direitos e esses deveres sempre condicionados ou condicionais”. O que o senhor quer dizer com isso?

Jacques Derrida – Entre essas duas figuras da hospitalidade é que se deve assumir, com efeito, as responsabilidades e decisões. Prova temível, pois se essas duas hospitalidades não se contradizem, elas continuam sendo heterogêneas, no momento mesmo em que se convocam uma à outra, de maneira embaraçosa. Nem todas as éticas da hospitalidade são as mesmas, provavelmente, mas não existe cultura, nem vínculo social, sem um princípio de hospitalidade. Este comanda, faz mesmo desejar uma acolhida sem reserva e sem cálculo, uma exposição sem limite àquele que chega. Ora, uma comunidade cultural ou linguística, uma família, uma nação, não podem deixar de suspender, ou mesmo deixar de trair o princípio da hospitalidade absoluta: para proteger um “em-casa”, provavelmente, assegurando o “próprio” e a propriedade contra a chegada ilimitada do outro; mas também para tentar tornar a acolhida efetiva, determinada, concreta, para operacionalizá-la. Daí as “condições” que transformam o dom em contrato, a abertura em pacto policiado; daí os direitos e os deveres, as fronteiras, os passaportes e as portas, daí as leis a propósito de uma imigração cujo “fluxo”, como se diz, precisa ser “controlado”.
É verdade que o que está em jogo na “imigração” não recobre de maneira rigorosa – é preciso lembrá-lo – o que está em jogo na hospitalidade, a qual alcança além do espaço civil ou propriamente político. Nos textos a que se refere, analiso o que, entre o “incondicional” e o “condicional”, não é contudo uma simples oposição. Se os dois sentidos da palavra hospitalidade continuam irredutíveis um ao outro, é sempre em nome da hospitalidade pura e hiperbólica que é preciso, para torná-la o mais efetiva possível, inventar as melhores disposições, as menos más condições, a legislação mais justa. Isso é necessário para evitar os efeitos perversos de uma hospitalidade ilimitada, cujos riscos tentei definir. calcular os riscos, sim, mas sem fechar a porta ao incalculável, ou seja, ao porvir e ao estrangeiro, eis a dupla lei da hospitalidade. Ela define o lugar instável da estratégia e da decisão. Da perfectibilidade, como do progresso. Esse lugar é buscado hoje, por exemplo, nos debates sobre a imigração.
Esquece-se muitas vezes que é em nome da hospitalidade incondicional (aquela que dá seu sentido a qualquer acolhida do estrangeiro) que é preciso tentar determinar as melhores condições, a saber, tais limites legislativos e, sobretudo, tal utilização das leis. Esquece-se sempre disso do lado da xenofobia, por definição; mas também se pode esquecer disso em nome de uma certa interpretação do “pragmatismo” e do “realismo”. Por exemplo, quando se acredita dever afiançar eleitoralmente forças de exclusão ou de oclusão. Duvidosa em seus princípios, a tática poderia realmente perder mais do que a alma: o benefício planejado.

L.M. – Na mesma obra, o senhor coloca a seguinte questão: “Consiste a hospitalidade em interrogar aquele que chega?”, em primeiríssimo lugar indagando-lhe o nome, “ou então a hospitalidade começa pela acolhida sem questão?” A segunda atitude está mais de acordo com o princípio da “hospitalidade ilimitada” que o senhor evocar?
J.D. – Nesse caso, também a decisão é tomada no âmago do que se parece com um absurdo, com a impossibilidade mesma (uma antinomia, uma tensão entre duas leis igualmente imperativas, mas sem oposição). A hospitalidade pura consiste em acolher aquele que chega antes de lhe impor condições, antes de saber e indagar o que quer que seja, ainda que seja um nome ou um “documento” de identidade. Mas ela também supõe que se dirija a ele, de maneira singular, chamando-o portanto e reconhecendo-lhe um nome próprio: “Como você se chama?” A hospitalidade consiste em fazer tudo para se dirigir ao outro, em lhe conceder, até mesmo perguntar seu nome, evitando que essa pergunta se torne uma “condição”, um inquérito policial, um fichamento ou um simples controle de fronteiras. Diferença de uma só vez sutil e fundamental, questão que se coloca no limiar do “em-casa” e no limiar entre duas inflexões. Uma arte e uma poética, mas também toda uma política dependem disso, toda uma ética se decide aí.

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