Mês: janeiro 2010

Crítica: An Education (2009) – Lone Scherfig

Jenny (Carey Mulligan) é uma garota de 16 anos e uma grande missão de vida: ser aceita em Oxford e estudar inglês, em plena década de 1960. Na verdade, essa é a situação da personagem por um impasse mal resolvido entre ela e seus pais, que acreditam em um inevitável compromisso com a educação em formas institucionais. É claro que Jenny também gosta de arte, concertos, língua e música francesa, além de clubes noturnos repletos de glamour e gente falando “c’est très chic”, mesmo não os conhecendo. E essa é a função de Peter Sarsgaard, sendo David, um homem gentil e maduro disposto a oferecer à jovem garota a chance de utilizar sua inteligência e bom gosto em leilões de arte e até mesmo sua frivolidade em lugares, suponha-se sabido, “três chic”.

Dirigido pela dinamarquesa Lone Scherfig (Italiano para iniciantes – Dogma #12) e roteirizado por Nick Hornby (Um grande garoto), baseado em memórias de Lynn Barber, Educação apesar de ter um ritmo digno de blockbuster e créditos iniciais um tanto pop, reserva muito mais para outro tipo de público com seu texto apurado e ágil e sua multiplicidade de formas estéticas na direção. É certo que é costume esperar em filmes ambientados em décadas passadas as respectivas formas de identificação espacial. E vezes ainda são reexperimentadas as marcas estéticas de períodos passados do cinema, como enquadramentos clássicos, iluminação, entre tantas. Lone Scherfig faz um filme multifacetado, que deseja dialogar com o que o cinema é em seu “todo”, apoiada nas possibilidades do cinema contemporâneo em mesclar discursos e estilos, aproximando-se de uma linguagem muitas vezes pop sem utilizá-la de fato. Apesar disso, é algo bem sutil quando comparado ao que Sofia Coppola fez em Maria Antonieta e, ainda assim, não é o mesmo caminho. A sensação de pluralismo estético é mais próxima da que tive ao assistir Savage Grace, de Tom Kalin, que também reproduz na linguagem os conceitos técnicos que registram na diegese uma opção estilística inegável em relação ao tempo cronológico, apesar de não ser esse o ponto de equilíbrio em Educação e nem com tamanha intensidade.

Antes mesmo de 10 minutos de duração, temos em Educação, após uma sequência de planos subjetivos no carro de David, um belo movimento de câmera em plongée do chão do quarto de Jenny marcado de sombras (inclusive dela).

No final da primeira parte do filme, novamente vale ressaltar um movimento de câmera bem elegante, quando David e seu amigo Danny (Dominic Cooper) resolvem se distrair usando raquetes e uma bola enquanto Jenny e Hellen (Rosamund Pike), namorada de Danny, não ficam prontas. A cena prossegue acompanhada de uma música diegética que se encerra com um ato de Jenny virando-se para Hellen, como se num instante calculado a música passasse a ser extra-diegética seduzida por uma deixa visual. Mais notável ainda é a sequência na velha Paris dos apaixonados, belamente sonorizada, apenas imagem reinventada de velhos cinemas como se Paris nunca fosse conhecida antes, assim como diz Jenny no encerramento do filme, uma homenagem ao cinema. É bem provável que para os mais atentos o filme possa ser considerado uma amálgama de estilos que não se acomoda, apenas equilibra-se. O interessante é que Lone Scherfig apóia-se no próprio amadurecimento da perspectiva de Jenny em relação ao mundo que se adentrava. A sensação são movimentos de câmera, enquadramentos e sonoras díspares em duas situações: Jenny menina, Jenny mulher. Apesar disso, sinto que são nuances de uma mesma linguagem e não encaro como uma direção indecisa, nem tão pretensiosa como talvez esteja parecendo. Pareço falar de efeitos da mise-en-scène, mas depois de tanto tempo sem escrever críticas em blog e não querendo cair na tendência que nós, alunos de cinema, costumam ter em utilizar esse termo até mesmo em mesa de bar, prefiro simplesmente ignorá-lo por enquanto.

Se a trama assumisse um estilo pipoca é certo que veríamos o personagem David dirigindo um conversível e Jenny vestida para provar o conceito de falta de beleza ou bom gosto, em moldes nerd ou apenas naturais. Não se tratando disso, An Education logo mostra suas preocupações estruturais e um cuidado interessante com seus personagens. Se David fosse uma peça de xadrez, certamente seria de um jogo às cegas, já que faltam-nos informações sobre sua origem, idade, parentesco, ou coisa qualquer. A perspectiva que nós temos é até onde Jenny pode alcançar. Assim também são os seus amigos, Danny e Helen, que assumem maiores medidas em uma balança que logo começa a dar indicações da personalidade de David e de um provável conflito. Um dos pesos que tornará o caminho do roteiro menos provável é a ingenuidade e juventude de Jenny, a qual por um recente fascínio de mulher adulta também vê em Danny algo que inspira olhares, permissivo por um novo comportamento que David ajudou desenvolver. Nesse emaranhado ficam possibilidades como “será isso uma história de amor adolescente bem sucedido ou não?” ou “um filme sobre sonhos e vida adulta?” ou apenas sobre a escolha: “atalho ou educação?”. Enfim, onde realmente interessa chegar é evidenciar a importância dos personagens bem desenvolvidos para o curso que a trama resolve assumir. A partir de um texto bem consistente e lógico, a narrativa mostra que seu interesse maior é criar um campo de forças contrárias diante de duas escolhas, os atalhos que a vida pode oferecer, mesmo ora indigno e imoral, e o caminho mais longo da educação, mesmo esse não se sustentando mais tão coerente e disciplinar na sociedade do pós-guerra, fragilizada pela ruína dos paradigmas modernos.

Excelentes atuações em geral, com destaque para Carey Mulligan (esse nome vai bombar, aguardem) e Alfred Molina (pai de Jenny). Deixando de desmembrar o filme, o todo não chega nem perto do extraordinário, é um filme redondo e bem cuidado que não deixa de ser criativo. São plausíveis as intenções de mesclar elementos clássicos e contemporâneos, pois não perde a linha narrativa nem peca por exagero.

Wiliam Domingos

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Crítica: I Know Where I’m Going – Michael Powell, Emeric Pressburger (1945)

Filme britânico que conta a história de uma mulher que passa por todos os obstáculos de sua vida, o que lhe dá autoconfiança, até que se depara com um: a natureza. Também há um conflito quando ela conhece Robert, com quem trava uma relação ambígua.

Logo no início, temos uma cena de sonho que remete ao surrealismo e à montagem soviética dos anos 20, na qual Joan se casa com uma indústria:

O som nessa cena é repetitivo, sendo que até o trem fala.

No geral, o roteiro dá uma arrastada em alguns diálogos banais. Há também uma cena em que a imagem não condiz com a situação. Nessa cena, vemos o casal com uma proximidade absurda, quando o que falam é  trivial, a ida da moça ao castelo assobrado:

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Tal castelo permeia o filme, porém, somente no fim ele ganha importância. A história passada nele vidas atrás tem uma força dramática incrível, que poderia ser introduzida na história muito antes, o que daria força ao filme.

Há também uma cena em que a linha do olhar é obviamente mal construída, quando a menina e Joan, que estão na mesma altura, conversam (Joan está quase olhando para o teto):

A natureza por fim, trata de dar um novo caminho a vida de Joan, transformando-se de obstáculo para motivador de suas atitudes. Já que a natureza é invencível, resta aceitar o que ela propõe. Cachoeiras, montanhas, mar e animais irão perpassar toda a parte na ilha, o que remete a um imaginário bergmaniano. É como seus habitantes vivem, em contato com ela, sem precisar de outras fontes. Um diálogo entre o “casal” é interessante nesse ponto, quando ela paga um telegrama de 0,09 cents com uma nota de 20 e pergunta.

-Aqui todo mundo é pobre?

-Não, apenas não têm dinheiro.

-Mas não é a mesma coisa?

-Não, é bem diferente. Eles não precisam dele.

Sei Onde Fica o Paraíso vale por suas cenas e reflexões que são realmente bem construídas, mas peca por uma unidade fortemente ligada e por alguns deslizes.

Crítica: Rumble Fish – Francis Ford Coppola (1983)

Revi ontem “O Selvagem da Motocicleta” (“o selvagem” é péssimo). Coppola nos traz uma obra pluralista, onde é discutido o papel das gerações (como em Godfather), a insanidade, a degradação física e ideológica, a passagem do tempo e as consequências de atos perante a sociedade.

Rumble Fish é uma colcha de referências, passando pelo western, pelas brigas de gangue (West Side Story), toques surrealistas (os sonhos, as fusões, a experiência de sair do corpo), com uma ambientação que remete aos filmes americanos independentes de 70/80, quando as ruas são lugar de destaque (como o hidrante que remete a Taxi Driver).

A forma é fundamental no filme, prevalecendo planos em perspectiva

um simbólico jogo de sombras

e silhuetas

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Logo de início temos uma briga em que Rusty James (Matt Dillon) se fere, a partir daí teremos sua fragilidade sempre presente, quando seu irmão, “The Motorcicle Boy” (Mickey Rourke), uma lenda decorrente da sua postura frente ao mundo, levando consigo seu modo de vida e seu caráter, sendo admirado por onde passa, volta a cidade e começa a cuidar do irmão mais novo. Nisso, Rusty sempre perseguirá o patamar de seu irmão mais velho, trilhando um caminho de autodestruição e com ojetivos nada esclarecidos, apenas rebeldia sem nenhuma motivação aparente.

Trata-se de um filme que todos seus artifícios parecem estar perfeita sincronia, um realçando o papel do outro, criando uma obra completa, complexa, profunda e intensa.

G.C.

Crítica: Lula, O Filho do Brasil – Fábio Barreto (2009)

O filme foca o lado emocional da vida de Lula. No começo, vemos seu pai, uma figura caricaturizada, que, mesmo que fosse de fato como aparenta, sua representação é grotesca, às vezes beirando o ridículo.

Seus discursos são um punhado de frases feitas, e a reação da platéia será de louva-lo, seja o que esteja falando. Exemplo: Lula termina um discurso dizendo algo óbvio, que os patrões que pagam os salários dos trabalhadores, e a platéia vai ao delírio. Isso me lembrou sua segunda posse, na qual estive presente. Os alto falantes que deveriam funcionar, falharam, e o discurso não foi ouvido pelos milhares de presentes. Mas mesmo assim, a cada final de uma declaração, o público batia palmas arduamente, sem ao menos saber o que estava sendo dito.

O filme tenta prever o que seria de Lula mostrando todos os obstáculos que superou, como Che em Diários de Motocicleta. A diferença é que Barreto tenta dar uma conclusão, mostrando o que viria depois. Embora demonstre domínio na linguagem, há alguns planos clichê, como o beijo com um coração no fundo. A fotografia é um ponto forte, com seus tons pastéis, forte contraste de luzes (como no táxi) e belos planos principalmente no sertão.

De fato, sua vida é cheia de obstáculos que ele supera, mantendo sua força e perseverança. Porém, os aspectos políticos e ideológicos são deixados de lado, fazendo com que o pano de fundo (a ditadura) seja apenas mais um dos obstáculos.

Assim, os fatos com que Lula se deparam formam sua personalidade, porém, ela é de difícil acesso. Vemos o que ele sente, mas suas expressões são pouco para dizer o que realmente quer transmitir.

Por fim, o que resta é a sensação que o filme transborda dramaticidade, mas falta em conteúdo – que as imagens documentais não conseguem suprir. Assim, a história se parece mais como uma novela (embora esteja esteticamente ligada ao cinema, sem dúvida) do que um relato histórico de fato.

G.C.

Crítica: Rachel Getting Married – Jonathan Demme (2008)

Demme segue a tendência dos filmes atuais: se pretendem ultra realistas, com atuações que beiram uma representação sem artifícios –  (Entre os Muros da Escola); câmera inquieta – nesse filme a câmera dá ritmo ao turbilhão que é a família, quando em Entre os Muros da Escola não passa de um tique – seus melhores planos (3) são feitos com tripé.

Chama atenção a liberdade que os atores possuem, fazendo de um provável improviso a essência do filme. Demme os liberta de convenções, fazendo com que o set seja mais uma experiência sobre como expressar os personagens de acordo com os atores que o expressam. Ou seja, Demme deixa os atores serem quem eles são. Esse é o ponto forte do filme.

Como em Once Around (primeiro filme postado aqui), Demme também privilegia situações embaraçosas, tirando o espectador da indiferença, como um Haneke – o que na minha opinião trata-se de um artifício rasteiro, pois tirar o espectador da indiferença pelo caminho oposto, pelo que o personagem sente ao invés do que faz, é onde reside a dificuldade, poucos sabem fazer isso. Nisso o diretor cai em uma armadilha: tira a força das relações e as transfere para atos aleatórios, que servem para reforçar algo que se torna óbvio rapidamente, que a família é cheia de problemas.

No que deveria ser o auge do filme (e é quase um anti-climax), o casamento se torna confuso pela ênfase evidentemente desnecessária que o diretor dá à música. Há 5 minutos de pessoas dançando, variando os ritmos (o que é aquele samba?), como um videoclipe. Sua tentativa de estabelecer uma relação do filme com a música é falha, embora a relação da música com seus personagens (muitos deles músicos) é bem construída (porém, a música não consegue penetrar na alma do filme).

Alguns dos fatos têm seu tom de exagero, eis o que diferencia Rachel de um Amantes por exemplo. Em Amantes tudo que vemos é sincero, e os fatos estão ligados aos personagens que não conseguimos desvincilharmos. Em Rachel, eles estão a serviço da trama, para dar-lhe um sentido, mas tirando sua coerência. O que parece estar na superfície em Rachel, em Amantes é o foco, um objetivo perseguido até o fim. No meio à confusão da família e dos personagens, O Casamento de Rachel embarca nesse caos e lhe absorve, fazendo com que suas partes tenham dificuldade para encaixar. A relação entre Kym e Kieran não é desenvolvida, mas é consumida, mesmo que não tenha acontecido fatos que condizem com a resolução. O caminho que o filme toma, com todos seus conflitos e tensões, parece ter uma solução simples demais. Não são as discussões entre a família que resolvem a situação, e sim a festa e a alegria (por vezes forçada) dela proveniente.

G.C.

Crítica: Deliverance – John Boorman (1972)

Boorman, um dos mais conhecidos diretores britânicos, por sua versatilidade de gêneros (político, épico, guerra, horror) e por seu apelo visual, narra a viagem de quatro amigos (Ed, Lewis, Bobby e Drew) que pretendem descer um rio que será destruído por uma represa. Nesse caminho suas vidas serão alteradas pela bestialidade/crueldade/violência/luta pela sobrevivência a qual passarão.

No começo encontram os habitantes da região, interioranos enraizados em suas terras e costumes. Um duelo de banjo entre Drew e um garoto local é de uma sensibilidade poucas vezes vista.

Quando os amigos se separam, Ed e Bobby são surpreendidos por dois habitantes do local, que os mantém sobre a mira de uma arma. Os habitantes são dois cruéis irracionais que veem no sofrimento alheio seus estados de êxtase. Logo Bobby é estuprado e Ed amarrado pelo pescoço, em uma cena intensamente brutal. A abordagem agressiva em um lugar desconhecido irá se repetir em Barry Lyndon (1975), e o estupro é base para Pulp Fiction (1994). Lewis acerta um dos agressores e o outro foge, acabando com a violência inconsequente e desumana.

A partir daí, ideias como democracia, capitalismo, liberdade serão postas em jogo, sendo que elas não tem nenhuma utilidade naquele local, que é regido pela força da natureza(que é posta em evidência pela sua força ou grandeza, dos rios e montanhas) e pela lei do mais forte.

Logo após há outro conflito na montanha, em outra cena de forte impacto visual. Ed encontra um sujeito e acredita ser o fugitivo, mas não sabe ao certo. Por fim, esse sujeito toma uma flechada não sei daonde e morre (talvez foi uma coruja arqueira). Ao fim do rio, a polícia irá culpá-los dos crimes, mas não têm evidências e o caso se encerra.

Todos os seus planos parecem ser milimetricamente calculados, onde tudo que está presente na tela tem seu papel. Um uso interessante que faz do espaço dentro-da-tela é fazer com que uma pessoa entre na tela por onde o espectador nem imagine, ou seja, há uma reinvenção do espaço no intuito de confundir (o personagem sai no fundo da cena e aparece depois em primeiro plano). Ou nos créditos, quando ocorre uma elipse sem que haja cortes quando um carro percorre uma distância em um tempo menor que deveria (um corte forjado como em Rope (1948)).

Aí reside parte da força do cinema: alterar as convenções espaço-temporais e usá-las como bem entender. Até perto do fim do filme há sempre uma faixa de áudio simbolizando uma inquietação da natureza: barulho da água em intensidades diferentes, de diversos animais, ou sons de corda.

Um diretor que estava escalado para dirigir Deliverance era Sam Peckinpah, que um ano anterior filmaria Sob o Domínio do Medo – e o filme tem cara de Peckinpah mesmo, mais pela temática que pelo visual. Ao alinhar esses fatores, Boorman nos trouxe um raio-x da brutalidade humana, tratando as vítimas, os carrascos o ambiente e sua relação com o homem, como uma unidade em que fatores que vão além da nossa compreensão agem diante de nós.

G.C.