6 de fevereiro de 2016

3 artigos recentes sobre feminismo e luta social

Palavras chave: Feminismo, sufragistas, voto, Mulher, direito, democracia, Reino
Unido, Luta, jiu-jitsu, repressão, Mulheres Negras, Negro, movimento social, dandara,
racismo, repressão, mobilização, reparação, cotas, Irã, Iraniana, sanções econômicas,
educação, machismo, oriente médio, islã

1 – Dandaras rebeladas

As mulheres negras estão prontas para escrever um novo capítulo em sua história de
lutas em 2016. O afrontamento ao racismo segue em conversas nas ruas, rodas nos
terreiros e quilombos, encontros nas universidades, produções nos estúdios, rimas no
palco e ações nas redes sociais

por Daniela Luciana da Silva e Juliana Cézar Nunes

A diretora da ONG Criola (RJ), Jurema Werneck, enxerga “novas pontes estendidas entre
nós que estamos na luta em diferentes campos, novas aproximações, novas possibilidades
de termos uma agenda convergente e potente”. É uma visão que converge com a da
ativista e publicitária baiana Larissa Santiago, integrante do Blogueiras Negras,
criado em 2003: “Acreditamos que 2016 será o ano de refazer os laços entre nós e entre
os outros que acreditam nas mudanças e na revolução capitaneada pela mulher negra”.

Este momento de renovação e confiança na construção de alianças decorre também da
construção coletiva da Marcha das Mulheres Negras, realizada em 18 de novembro de
2015, em Brasília. Uma contundente mostra do potencial de articulação e incidência das
herdeiras de Dandara e tantas outras anônimas guerreiras, heroínas do cotidiano que
não estão nos livros de História oficial.

Cerca de 50 mil mulheres negras de todo o país atravessaram o ano de 2015 em
preparação conjunta para estar em Brasília. Elas ocuparam as ruas da capital para
representar com seu corpo e alma os 48,6 milhões de mulheres negras brasileiras, cerca
de 25,5% da população brasileira (IBGE).

Numa vitoriosa ocupação marcada pelo compartilhamento, afirmação, capacidade de
organização e força de mobilização, essas negras brasileiras mostraram à sociedade e
aos governos a concretude de outra face. Uma imagem muito distante do estereótipo de
submissão e subalternidade que insistem em nos imprimir.

Tambores ancestrais e virtuais

Para Valdecir Nascimento, do Instituto Odara (BA), este é um momento-chave, pois as
mulheres negras brasileiras estão mobilizadas. “Precisamos multiplicar e mantê-las
atuando em seus estados, municípios, povoados e em todo e qualquer lugar com
instrumentos mais efetivos, mais informações e uma rede nacional que possa orientá-las
e mobilizar outras organizações em apoio às variadas demandas”, reforça Valdecir.

A baiana acredita que o caminho é atuar coletivamente e responder imediatamente.
Construir orientações nacionais para os diversos casos e agir em bloco, definir as/os
parceiras/os, além de estratégias de aproximação com os diversos movimentos sociais,
construir acordos e pactos comuns. “Quem são os parlamentares e as parlamentares
aliados, mas aliados mesmo? Temos cartas na manga, 2016 é ano eleitoral, precisamos
pontuar nossas demandas inegociáveis”, finaliza.

O Instituto Odara coloca a circulação de informações e notícias como uma das metas
para 2016, com a aplicação do Projeto da Agência de Comunicação Popular do Odara,
impulsionando jovens negras a construir uma comunicação para a difusão do conhecimento
produzido pelas organizações de mulheres negras; e a difusão de campanhas contra a
violência doméstica, o genocídio da população negra e outros temas e situações de
interesse do segmento.

Nessa seara, também integra os planos do Instituto Odara a execução do projeto “Minha
mãe não dorme enquanto eu não chegar”, uma ação direcionada para as mães dos jovens
assassinados pela polícia e pelo tráfico. Essa é uma preocupação que se identifica de
norte a sul do país entre as mulheres negras entrevistadas.

Gaúcha radicada em Salvador, a jornalista e produtora cultural Camila Moraes, 28 anos,
criadora da revista eletrônica Acho Digno, tem como um dos desafios para 2016 retratar
nos cinemas “O caso do homem errado – Júlio César”. Júlio foi um operário executado
por policiais na década de 1980 em Porto Alegre. Inocente, recebeu a sentença de
culpado por assalto e acabou condenado à morte dentro de um camburão. Passado e
presente. É contra o direito de matar pessoas negras que as mulheres também continuam
em marcha. Contra a chacina de Cabula, contra o extermínio diário de jovens negros em
capitais como Rio de Janeiro, São Paulo, Belém, e que acontece também no interior,
contra a morte de lideranças quilombolas, contra a violência cotidiana que mata e
encarcera mulheres negras.

“Não deixaremos mais nossa juventude negra ser morta. Iremos retratar ‘O caso do homem
errado’ para que haja uma reflexão da sociedade de que, quando mata um jovem negro,
extermina uma família, uma comunidade, uma população. Para continuarmos vivos e não
apenas sobrevivendo neste país, permaneceremos em estado de vigília, nos aliando entre
nós”, avisa Camila.

Para ela, a “rede nagô” formada por mulheres e homens negros já permite que o tambor
batido no Sul seja escutado no Norte, e vice-versa. Eventos de mulheres negras, como o
Festival Latinidades, e de cinema, como o Fórum Itinerante de Cinema Negro (Ficine),
mostraram o desabrochar de jovens flores negras na área do audiovisual, produzindo
filmes com a temática negra, nos colocando no telão e nos representando de forma bela
e digna.

“Comunicadoras negras tiveram seus trabalhos reconhecidos pela mídia e por uma parcela
da população. Entre alguns nomes de destaque estão Luciana Barreto, Maria Júlia
Coutinho, Maíra Azevedo, Mônica Santana e outras que ainda irão aparecer”, elenca
Camila. “Com isso, verificamos o quanto representatividade importa, sim. Percebemos
como é bom ter espelhos dentro e fora de casa para serem seguidos.”

Olho no olho

A comunicação também é a trincheira de Larissa Santiago, do Blogueiras Negras. A
integração entre os espaços virtuais e presenciais constitui meta da ação do grupo,
que publica textos de mulheres de todo o país. Embora a organização tenha se iniciado
no ambiente virtual, uma das estratégias das blogueiras é fortalecer o contato direto
neste ano. Para Larissa, é fato que precisamos alcançar mais e mais mulheres negras, e
a sociedade civil como um todo. Por isso, entre as estratégias estão a materialização
de trabalhos, o foco em ações off-line e o fortalecimento da comunidade por meio de
experiências coletivas presenciais.

“Tivemos um imenso baque no que se refere à presença do Estado junto às demandas das
mulheres negras: desfazer a Secretaria de Igualdade Racial, das Mulheres e Direitos
Humanos para acoplá-la num ministério onde essas políticas se misturam nos parece
bastante sintomático”, aponta a blogueira, para quem as mudanças mostram o quanto o
conservadorismo político tem contribuído para retrocessos. “Temos avanços? Lógico, mas
essas jogadas políticas nos dizem qual é nosso lugar e que precisaremos resistir e
lutar muito mais para sermos ouvidas e termos nossas propostas concretizadas.”

A declaração do Decênio dos Afrodescendentes pela ONU, Anistia Internacional e a
articulação com a Rede de Mulheres Afro-Latino-Americanas do Caribe e da Diáspora são
vistas por Larissa como importantes parcerias para as mulheres negras brasileiras. As
organizações internacionais ajudaram a dar visibilidade a uma série de violações de
direitos, inclusive durante a ocupação das escolas públicas em São Paulo, quando
mulheres e adolescentes negras foram protagonistas das mobilizações e sofreram
repressão policial.

Entre as parcerias internacionais, a ativista Jurema Werneck, da Criola, destaca
também a Associação Mulheres e Desenvolvimento (Awid, na sigla em inglês), que
organizou e liderou uma delegação internacional de ativistas negras para a Marcha das
Mulheres Negras, com representantes de diferentes países da África, Caribe e Américas.
Em maio, na Bahia, a Awid vai promover um fórum com o tema “Futuros feministas:
construindo poder coletivo em prol dos direitos e da justiça”.

Médica de formação e pós-graduada em Comunicação e Cultura, Jurema e outras ativistas
negras do Rio de Janeiro fundaram há 23 anos a Criola para promover o empoderamento
político de mulheres negras e fomentar ações em defesa de direitos. Elas levaram suas
ações para o âmbito nacional em contato com outras organizações de mulheres negras,
como a Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), da qual são integrantes.

No cotidiano, as mulheres da Criola têm se voltado tanto para o combate das violências
cometidas nas redes sociais, com o lançamento da campanha contra o racismo virtual
(www.racismovirtual.com.br), como para o amparo a mulheres que sofrem violência nas
ruas. “A mãe de um dos cinco meninos metralhados pela polícia em dezembro no Rio de
Janeiro já tentou suicídio três vezes. É essa dor! Os racistas, fascistas, LGBTfóbicos
estão nas ruas descaradamente, e seus crimes compensam para eles e seus grupos”,
denuncia Jurema.

Reparação

A doutora em Direito Ana Luiza Flauzina afirma que, ao longo da história do Brasil, o
lugar do Estado não tem sido o de aliança, e sim de vilipêndio da população negra e
das mulheres negras, em especial. Ana Luiza considera que as políticas pontuais ainda
não podem ser consideradas um avanço, até porque nos momentos de “crise” são as
políticas públicas voltadas a essa população que desaparecem do mapa.

“Estamos num processo de extermínio sistemático da juventude negra, de encarceramento
em massa das mulheres negras, de interdição do exercício pleno da liberdade de culto
com vilipêndio das religiões de matriz africana, ou seja, o genocídio está com as
baterias aquecidas”, alerta a pesquisadora e fundadora da Brado, empresa voltada para
a produção de conteúdos de interesse da população negra, com foco na produção
audiovisual e na edição de livros.

O combate ao racismo acadêmico e à invisibilidade do pensamento de mulheres e homens
negros guia o próximo ciclo de ações de Ana Luiza e da Brado. Ela acredita que as
mulheres negras brasileiras estão num momento de amadurecimento político ímpar e são
atores políticos cientes de seu papel na articulação das mudanças na estrutura social
brasileira.

“Estamos vocalizando nossas potencialidades em primeira pessoa. Apesar de há muito
estarmos cientes de nossa condição específica enquanto grupo social vulnerabilizado no
Brasil, reunimos agora a capacidade política de dar visibilidade a essas demandas,
articulando questões que envolvem as pautas feministas, negras e LGBT”, avalia Ana
Luiza.

Essa capacidade política de articulação está presente em organizações de mulheres
negras de todas as regiões do país. No Ceará, mais exatamente no Cariri, as mulheres
negras do Pretas Simoa trabalham diversidade religiosa negra, fortalecimento de
identidade, empoderamento de trabalhadoras domésticas e divulgação do hip hop. O grupo
presta homenagem à Tia Simoa, que lutou pela abolição e liderou greves de jangadeiros
cearenses ainda no século XIX.

A bibliotecária Dávila Feitosa, integrante do Pretas Simoa, lamenta que a todo
instante seja necessário voltar à estaca zero do debate para contar desde o princípio
a história das mulheres negras no Brasil e nas Américas. No âmbito regional, inserir
as demandas nas agendas de governos, universidades e partidos políticos tem demandado
um enorme esforço das organizações locais.

A reivindicação por creches públicas também faz parte dessa pauta. “Vemos a
necessidade, por exemplo, da partilha da maternidade das mulheres pobres (em sua
maioria mulheres negras) com o governo, propiciando o tempo necessário para que essas
mulheres possam se dedicar à sua vida profissional e acadêmica”, ressalta Dávila. “O
que nos motiva são as gerações de guerreiras anônimas que resumimos em nossas veias;
espelhos que nos permitem ter orgulho do nosso próprio reflexo; e armaduras que
permitem às nossas próximas gerações combater o racismo, o machismo e a homofobia com
dignidade.”

Racismo

A rima de resistência é o que move a Frente Nacional de Mulheres do Hip Hop (FNMH2).
Uma de suas articuladoras, a rapper Vera Veronika, conta que as ações para 2016 são
baseadas nas lutas diárias das mulheres da Cultura Hip Hop. Combate ao fim de todas as
formas de violência contra as mulheres e ao genocídio de jovens está na agenda
prioritária. A frente também apoia apresentações culturais e organiza o Encontro
Nacional das Mulheres do Hip Hop. O trabalho tem inspirado batalhas, slams e grupos de
todo o país. Meninas negras que descobriram no hip hop uma forma de se afirmar e se
fortalecer.

“Várias instâncias governamentais têm apoiado e visibilizado a luta das mulheres
negras; contudo, temos muito a avançar quando as políticas públicas destinadas às
mulheres se tornam gerais ou genéricas. Não temos políticas efetivas para as mulheres
negras quilombolas e de matriz africana; isso nos distancia das ações afirmativas e
nos remete a um retrocesso indenitário”, frisa Veronika, que mora em Valparaíso de
Goiás e transita entre o Entorno e o Distrito Federal, região em que o racismo e o
ódio religioso têm violentado várias mulheres negras.

Em dezembro, o Ilê Axé Oyá Bagan, no Paranoá, amanheceu em chamas. A líder religiosa
do terreiro, Mãe Baiana, acusa grupos racistas pelo incêndio, que colocou abaixo o
barracão onde eram realizadas as principais cerimônias do terreiro. O atentado motivou
a criação de um movimento em favor da instalação de delegacias especializadas nesses
crimes. O Distrito Federal já inaugurou sua primeira unidade, sob protesto de
policiais que alegam falta de pessoal para a nova delegacia.

“Precisamos conversar muito com os servidores para que eles entendam a importância
dessa iniciativa. Vivemos sob ameaça. E o Estado brasileiro não pode admitir isso”,
defende Mãe Baiana. Integrante da Rede de Saúde Afrodescendente (Renafro), a religiosa
também espera uma ação mais efetiva de saúde pública nos terreiros em 2016. “Os
agentes de saúde dizem que não podem entrar no terreiro porque a religião deles não
permite. Agora a religião deles permite que o mosquito da dengue pique nossos filhos,
pique nosso povo e bote em cima de uma cama? A dor que é lá é cá, o mosquito que pica
lá pica cá.”

Além da saúde pública, outro campo de batalha das mulheres negras é a educação e o
trabalho. As cotas nas universidades foram consideradas constitucionais pelo Supremo
Tribunal Federal, mas os estudantes negros ainda sofrem preconceito de colegas e
professores nos campi universitários.

O governo determinou cotas nos concursos públicos, mas alguns juízes têm dado
sentenças contrárias a essa política. Empresas assinam termos de ajustamento de
conduta com o Ministério Público para garantir a diversidade em seus quadros e cargos
de chefia, mas seguem com o padrão estético branco como pré-requisito de conceitos
como credibilidade e boa aparência.

Diante desse contexto, o Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades
(Ceert) atua para tentar garantir equidade no mercado de trabalho e no acesso à
justiça. A doutora em Psicologia Cida Bento está à frente desse projeto e, por meio
dele, já recebeu reconhecimento internacional. Foi considerada pela revista The
Economist uma das cinquenta profissionais mais influentes do mundo no campo da
diversidade.

“Nossa estratégia é fomentar o debate público, ao ampliar e compartilhar perspectivas
e informação (vídeos, publicações, encontros) para fortalecer vozes, disseminar
questões e ampliar a incidência das ações, particularmente no âmbito das políticas
públicas”, aponta Cida.

“Este momento é rico, fértil e desafiante, e construir uma verdadeira solidariedade
entre nós, mulheres negras, é o grande desafio. Saber costurar o convívio e a ação
conjunta entre as do ‘nosso grupo’ e as que ‘não são do nosso grupo’. Solidariedade
tem de ser o coração de nossa ação, como nos ensinou Lélia Gonzalez.”

Daniela Luciana da Silva e Juliana Cézar Nunes

*Daniela Luciana da Silva e Juliana Cézar Nunes são jornalistas e integrantes da
irmandade Pretas Candangas e da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial
(Cojira-DF).

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2 – As sufragistas e o jiu-jítsu

Na aurora do século XX, o combate das sufragistas britânicas pela igualdade cívica
coincidiu com a introdução das artes marciais japonesas na Europa. Como frequentemente
a história ultrapassa a ficção, essa concomitância permitiu abalar – de fato – o
Estado patriarcal

por Daniel Paris-Clavel

Dirigido por Sarah Gavron com um roteiro de Abi Morgan, o longa-metragem britânico As
sufragistas estreou em novembro de 2015.1 Mesmo que tenha o mérito de existir e ser
muito bem interpretado, pode decepcionar os apreciadores de uma utilização dinâmica do
cinema a serviço de um assunto igualmente dinâmico.

Partindo da politização de uma jovem operária, o filme revisita algumas das ações
marcantes realizadas no período de 1913 pelas militantes a favor do direito de voto
das mulheres. Infelizmente, como a mistura dos gêneros cinematográficos parece
decididamente tabu, a retenção chorosa do “drama social” ganha da real exuberância dos
fatos históricos, que só poderiam existir num filme de ação.

Isso porque, para conquistar seus direitos, essas avós do Movimento pela Liberação das
Mulheres (MLM) dos anos 1970 tiveram de bater nos locais certos, o que lhes permitiu
não apenas conquistar em 1918 o direito de voto para 8 milhões de inglesas com mais de
30 anos (e depois, em 1928, para todas as maiores de idade), mas também redefinir a
relação das mulheres com a violência política e doméstica. Isso nos faz sonhar com uma
nova adaptação para o cinema, com Gina Carano e Ronda Rousey – atrizes e campeãs de
Mixed Martial Arts (MMA) – como sufragistas realmente de choque…

Vamos recordar alguns fatos. Em 1903, Emmeline Pankhurst (1858-1928), cansada dos
movimentos não violentos das organizações sufragistas, criou a Women’s Social and
Political Union (WSPU) com duas de suas filhas, Christabel (1880-1958) e Sylvia (1882
-1960). Ao cuspir em um policial, a primeira inaugurou em 1905 a série de prisões
arbitrárias que visariam a família Pankhurst e as militantes da WSPU.

A Union ficou rapidamente conhecida, com Emmeline Pankhurst pregando desde 1910 a ação
direta a fim de chamar a atenção, principalmente depois do “Black Friday”, uma
manifestação feminista reprimida pela polícia com uma violência impressionante.
Aquelas que as mídias nomeariam de “sufragistas” passaram então a atacar a sacrossanta
propriedade privada, quebrando janelas, incendiando algumas chácaras ricas, devastando
os terrenos de golfe e os jardins botânicos reais.

Esse vandalismo assumido, que misturava desobediência civil e sabotagem, não era nada
diante da violência masculina cotidiana: exiladas até em seus lares e locais de
trabalho, as militantes eram insultadas na rua; jogavam pedras nelas, quando se
manifestavam, e os homens chegavam a subir nos palanques dos encontros para bater nas
oradoras, debaixo dos olhares insolentes dos policiais que esperavam para ocupar seus
lugares. E, quando as militantes aprisionadas seguiam a orientação de uma greve de
fome sistemática para reclamar o status de prisioneiras políticas, elas eram
alimentadas à força…

Preocupadas com o número cada vez maior de cidadãos (masculinos) tocados por essas
torturas, as autoridades editaram em 1913 o Cat and Mouse Act: as grevistas de fome
eram liberadas quando seu estado estava muito degradado e depois presas novamente uma
vez que estivessem restabelecidas… Para as sufragistas, tornou-se imperativo impedir
esse cruel jogo de gato e rato, que visava abertamente decapitar o movimento. Foi aí
que os samurais intervieram.

O jiu-jítsu, literalmente “arte da flexibilidade”, utiliza a força do adversário
contra ele mesmo, o que torna possível acabar com um oponente fisicamente mais forte.
Desenvolvido pelos samurais do Japão feudal como uma técnica de combate sem armas, ele
deu origem ao judô, ao aikidô e, mais recentemente, ao jiu-jítsu brasileiro. Em 1898,
um certo Edward William Barton-Wright (1860-1951) introduziu a arte no Reino Unido,
depois de tê-la estudado no Japão. Ele se serviu dela como base para seu próprio
“bartítsu” (a partir de seu sobrenome), um ancestral do MMA moderno que combina jiu-
jítsu, boxe inglês, savate e luta. Aberta em 1900 no Soho, sua escola atraiu diversos
alunos – soldados, aristocratas… Ela empregava professores renomados como o francês
Pierre Vigny, que ensinava savate e bastão de combate, e cuja futura esposa,
Marguerite, desenvolveria alguns anos depois uma impressionante técnica de autodefesa
com um guarda-chuva. Mas, sobretudo, a escola se beneficiava da preciosa presença de
dois mestres japoneses, Yukio Tani (1881-1950) e Sadakazu Uyenishi (1880-?).

Depois de uma demonstração pública que os fascinou, Edith e William Garrud, um casal
de professores de musculação, se inscreveram imediatamente na escola de Barton-Wright.
Em 1903, quando esta fechou as portas, eles acompanharam Uyenishi, que fundou sua
escola (School of Japanese Self-Defense), e ficaram com o estabelecimento quando o
mestre voltou para o Japão. Edith Garrud (1872-1971) ensinava o jiu-jítsu para
mulheres e crianças. Paralelamente, ela abriu no East End londrino um dojo (sala de
treinamento) reservado para a instrução das sufragistas da WSPU e da Women’s Freedom
League, nascida em 1907 de uma cisão da primeira.

Para uma mulher, nessa época, praticar um esporte já era um ato político. Edith Garrud
era ainda por cima uma militante feminista; do alto de seu 1 metro e meio, aquilo que
ela mais amava era provar a superioridade da agilidade sobre a força bruta ao longo
das demonstrações que a opunham de brincadeira a um figurante fantasiado de policial.
Ela promoveu a autodefesa feminina não apenas por meio de seus cursos, mas também
aparecendo no primeiro filme de artes marciais inglês (Jiujitsu Dows the Footpads,
1907), criando uma peça de teatro cômica contra a violência conjugal (What Every Woman
Ought to Know, “Aquilo que toda mulher deveria ousar saber”, 1911) e escrevendo
artigos, principalmente para a Votes for Woman, o jornal da WSPU. Enfim, ela escalou
os muros da prisão de Holloway para cantar ali em voz alta em apoio às sufragistas
encarceradas.

Em 1913, diante da amplitude da repressão, simbolizada pelo Cat and Mouse Act, Sylvia
Pankhurst exortou a WSPU a criar um “serviço de segurança”, encarregado de proteger as
manifestantes das forças da ordem. Assim nasceu o Bodyguard, um grupo de cerca de
quarenta mulheres treinadas por Edith Garrud, que instalou esconderijos de armas sob
os tatames de seu dojo. Encabeçando o grupo se encontrava Gertrude “Gert” Harding
(1889-1977), canadense que chegou a Londres em 1912 e ficou célebre por ter arrancado
as orquídeas dos jardins botânicos reais – uma realização inicialmente atribuída a
homens pelas autoridades, incapazes de conceber que uma mulher pudesse ter escalado os
muros de proteção.

Dissimulando sob os vestidos tijolos, bastões de ginástica e cassetetes subtraídos dos
policiais, os membros do Bodyguard protegiam as manifestações e os encontros,
rivalizando em coragem e engenhosidade para contrabalançar sua inferioridade numérica.
Ninguém contabilizava mais as fraturas, feridas e inchaços nas fileiras. Elas
planejavam itinerários e soluções de fuga. Muitas delas se fantasiavam, por exemplo,
de sósias das sufragistas procuradas pelos policiais, como Emmeline Pankhurst, para
fazê-los se perder na saída de um encontro.

A imprensa, que noticiava rapidamente suas conquistas, as apelidou de “amazonas” ou
“sufrajítsu”, enquanto o governo se desesperava diante dessas mulheres que
ridicularizavam a autoridade ao arrancar os suspensórios dos policiais. “No que diz
respeito às nossas combatentes”, escreveu Emmeline Pankhurst em uma homenagem às suas
protetoras, “elas estão em plena forma e têm muito orgulho de suas conquistas […]
Nossa camarada que teve a cabeça aberta recusou que lhe dessem pontos porque queria
manter a cicatriz o mais visível possível. O verdadeiro espírito da guerreira!”2

Por sua vez, a polícia aprendeu de vez em quando a ser esperta. Em 1913, ela prendeu
Emmeline Pankhurst, que retornava de uma viagem aos Estados Unidos, no próprio barco,
a fim de evitar qualquer intervenção do Bodyguard que a esperava no porto. Mas, na
maior parte do tempo, os bobbies se contentavam em atacar, com o cassetete em punho,
contando com seu número e sua brutalidade. Como durante a “batalha de Glasgow”, em
1914: em um encontro da WSPU na Escócia, Emmeline Pankhurst enganou a vigilância
policial se fazendo passar por uma simples espectadora; mas, quando se dirigiu ao
palanque, cinquenta policiais se lançaram sobre ela, defendida por trinta membros do
Bodyguard, sob os olhares chocados de 4 mil espectadores. A violência e a
arbitrariedade da prisão, mesmo em um encontro autorizado, fizeram muitos indecisos se
unirem à causa sufragista.

Depois da entrada do Reino Unido na guerra contra a Alemanha, Emmeline Pankhurst
escolheu interromper as ações da WSPU, dissolver o Bodyguard e chamar as inglesas a
apoiar o esforço de guerra nacional. A decisão, que visava destacar o papel das
mulheres como cidadãs, para assentar a legitimidade de suas reivindicações cívicas,
traria seus frutos em 1918, mas provocou o desentendimento definitivo entre Sylvia
Pankhurst – que se uniu às comunistas que se opunham à guerra – e a mãe. Cada vez mais
assustada pela perspectiva de uma revolução comunista, esta última acabaria se unindo
ao Partido Conservador. Edith Garrud, por sua vez, continuaria até 1925 a dar aulas de
jiu-jítsu com o marido, fortalecida pelo status de primeira mulher ocidental
instrutora de artes marciais.

Do outro lado do Canal da Mancha, as “jiujitsufragistas” intrépidas marcaram alguns
espíritos, entre os quais o de Madeleine Pelletier (1874-1939), primeira mulher
psiquiatra e militante socialista libertária. Depois de ter ido em 1908 a uma
manifestação de sufragistas londrinas, Pelletier defendeu em seu jornal, o La
Suffragiste, o ativismo contundente de suas irmãs: “É claro que quebrar uma janela não
é um argumento; mas, se a opinião, surda aos argumentos, só é sensível às janelas
quebradas, o que fazer? Quebrá-las, evidentemente”.

Esse espírito foi encarnado de maneira notável, em um contexto completamente
diferente, pela poeta Qiu Jin (1875-1907), a “primeira feminista chinesa”, que militou
principalmente contra a tradição dos pés enfaixados. Ela aprendeu as artes marciais
chinesas e japonesas para preparar a insurreição contra a dinastia Manchu. Ensinando
musculação nas escolas de meninas, as quais acabou orientando para o manejo de armas,
ela provocou escândalo ao exortar suas alunas a aprender uma profissão. Foi decapitada
por tentativa de golpe de Estado em 1907.3

Porque sabiam que os oprimidos são sempre os primeiros a pagar quando algo dá errado,
essas pioneiras da autodefesa social e feminista ousaram redefinir a feminilidade em
função de suas necessidades reais. Por meio da prática do jiu-jítsu, as sufragistas
anteciparam a advertência dada pela socióloga e formadora austríaca Irene Zeilinger em
seu Pequeno manual de autodefesa para uso de todas as mulheres que estão cansadas de
ser assediadas sem dizer nada: “O agressor decide que haverá violência; a nós cabe
decidir contra quem essa violência será dirigida”.4

Daniel Paris-Clavel

*Daniel Paris-Clavel é criador e animador da revista ChériBibi, consagrada às culturas
populares (www.cheribibi.net)
1 Em cartaz no Brasil desde 24 de dezembro de 2015.

2 Citado em Tony Wolf, Edith Garrud: The Suffragette Who Knew Jujutsu [Edith Garrud: a
sufragista que sabia jiu-jitsu], Lulu.com, 2009. Cf. também o romance gráfico
Suffrajitsu: Mrs. Pankhurst’s Amazons [Sufrajítsu: amazonas da sra. Pankhurst], de
Tony Wolf e João Vieira, Jet City Comics, Tacoma (Washington), 2015.

3 Cf. Suzanne Bernard, Qiu Jin. Féministe, poète et révolutionnaire [Qiu Jin.
Feminista, poeta e revolucionária], Le Temps des Cerises, Montreuil, 2006.

4 Irene Zeilinger, Non c’est non [Não é não], Paris, 2008.
04 de Fevereiro de 2016

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3 – Nada detém as iranianas

O respeito do Irã ao Tratado sobre a não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) traz
consigo a suspensão progressiva das sanções internacionais. A abertura comercial e
suas repercussões políticas influenciarão as eleições legislativas de fevereiro.

por Florence Beaugé

Um grupo de garotas adolescentes entra rindo no vagão e se acomoda alegremente no
chão, já que não há lugares livres. Com os solavancos do trem, seus véus deslizam
sobre os ombros, descobrindo o cabelo. Mas não importa: aqui só há passageiras. No
metrô de Teerã, que começou a funcionar no final dos anos 1990, os vagões do início e
do fim das composições são reservados às mulheres. Elas viajam neles “para ficar
sossegadas”, dizem. O ambiente é descontraído. Os outros vagões são mistos. Jovens
casais entram de mãos dadas, sem problemas.

Moderno e limpo, o metrô de Teerã permite ao mesmo tempo escapar da poluição e dos
congestionamentos. Hoje há cinco linhas em serviço. As estações desfilam à nossa
frente, batizadas com os nomes dos “mártires” da guerra contra o Iraque (1980-1988). O
conflito, que fez quase meio milhão de mortos, acabou há 27 anos, mas o poder nunca
para de cultivar sua memória.

O metrô ilustra as contradições da República Islâmica. Nele se encontram lado a lado
roupas elegantes, de cores vivas, e trajes comuns surrados. Em média, cinco xadores
pretos e severos – a vestimenta obrigatória para os funcionários da administração –
para cada dois véus coloridos. Nenhuma pessoa hermeticamente coberta. E algumas cenas
inesperadas: vendedoras ambulantes oferecem sutiãs, calcinhas, bolsas…

Trinta e seis anos após a Revolução Islâmica, apesar da legislação que lhes confere
menos direitos do que aos homens, as mulheres desempenham um papel importante no Irã.
Elas estão presentes em todos os setores, embora a maioria dos altos cargos da
administração ainda lhes seja vedada. Em virtude de uma leitura estrita do Corão, elas
não podem ser juízas em pé de igualdade com os homens nem interpretar os textos
sagrados, mesmo se chegarem ao nível de aiatolá (o mais alto escalão do clero xiita).
Mas podem ser arquitetas, empresárias, ministras… O Parlamento do país tem nove
deputadas (todas conservadoras), e uma primeira embaixadora acaba de ser nomeada: em
novembro de 2015, Marzieh Afkham assumiu seu posto em Kuala Lumpur. Nada é fácil: as
mulheres precisam lutar para se impor e para ter seus direitos reconhecidos,
principalmente em um país onde sofrem discriminações em todos os níveis.

Para se casar, trabalhar, viajar, abrir uma conta bancária ou receber uma herança,
elas estão sujeitas a leis iníquas e dependem da boa vontade do chefe de família. Para
se divorciar, por exemplo, a esposa, ao contrário do marido, precisa explicar sua
decisão perante o juiz e aguardar a autorização. As crianças ficam sob sua guarda até
os 2 anos de idade, no caso dos meninos, e até os 7, no caso das meninas. Depois a
guarda passa para o pai, a menos que este a recuse. Quanto à autoridade parental, ela
retorna ao pai, mesmo que as crianças vivam com a mãe. “Na lei, o homem é rei”, resume
Azadeh Kian, professora de Sociologia Política.

Escolarização, a maior conquista da revolução

Os dados oficiais subestimam o trabalho das mulheres: apenas 14% teriam emprego. Na
realidade, considerando-se o trabalho clandestino e a agricultura, entre 20% e 30% das
mulheres exercem uma atividade regular. E isso é apenas o começo. A demanda feminina
para integrar o mercado de trabalho aumenta rapidamente. Nas universidades, 60% dos
estudantes são mulheres. “Elas venceram a batalha pela licenciatura e o mestrado. Em
breve ganharão a do doutorado”, prevê o antropólogo Amir Nikpey. Para ele, as
iranianas estão quase na situação das francesas da década de 1940 e 1950: presentes em
toda parte no espaço público, mas sem poder real, com poucas exceções, e normalmente
no nível mais baixo do ponto de vista econômico.

Ano após ano, elas conquistam novos bastiões. “É o país que forma o maior número de
engenheiras”, destaca Kian, antes de lembrar que Maryam Mirzakhani, a primeira mulher
a ganhar a Medalha Fields (equivalente ao Prêmio Nobel de Matemática), em 2014, era
iraniana. “Nas províncias do Sul, particularmente no Baluquistão, predominantemente
sunita [ao passo que o Irã é 90% xiita], a cultura árabe, mais machista, prevalece. Há
inclusive muitos casos de poligamia, enquanto os iranianos são geralmente monogâmicos.
Mas, também lá, o papel das mulheres está crescendo. É uma evolução global da
sociedade”, indica Thierry Coville, economista. “A mudança mais notável no Irã é a
tomada de consciência da importância da educação como meio de conquistar a
independência”, confirma Kian.

Muita gente não sabe, mas a escolarização das meninas foi certamente a principal
conquista da Revolução Islâmica, em 1979. “Paradoxalmente, as famílias tradicionais
aceitaram isso, afinal se tratava da República Islâmica! Quando vou às aldeias
remotas, os homens me dizem: ‘O aiatolá Khomeini mandou as mulheres para o front e as
meninas para a escola. Eu faço o mesmo!’”, explica a socióloga da religião Sara
Shariati, professora da Universidade de Teerã.

Primeira consequência: as mulheres se casam mais tarde e, principalmente, têm em média
apenas dois filhos, contra sete nos primeiros anos da Revolução Islâmica, marcada por
uma política natalista. As autoridades vêm frequentemente a público lembrar que seria
melhor haver 100 milhões de iranianos do que os atuais 78 milhões, mas as mulheres
fingem não ouvir.

“Mesmo durante os anos Ahmadinejad,1 não voltamos atrás. Continuamos avançando, como
um carro que anda com os faróis apagados à noite”, brinca Shahla Sherkat, diretora da
revista feminina Zanan Emrouz. Sua publicação sofreu uma suspensão de seis meses por
ter dedicado um número a um tema “quente”: a união livre. Seriam várias dezenas de
milhares de pessoas em Teerã vivendo em concubinato. A união livre difere do
“casamento temporário”, permitido pelos xiitas, embora malvisto e pouco praticado no
Irã. “Evitamos fazer julgamentos em nossa reportagem; de maneira alguma encorajamos a
união livre e até alertamos sobre seus riscos”, argumenta Sherkat. Mas os
conservadores protestaram, e a sanção foi aplicada.

Quando a diretora da Zanan Emrouz foi convocada pela justiça, foi primeiro acusada de
ser “feminista” – um insulto no Irã. Para se defender, afirmou estar apenas
“refletindo a realidade” da sociedade iraniana. Em vão. “O problema no Irã é que as
instituições e os homens pensam que, se reivindicarmos nossos direitos, acabaremos
negligenciando nossos papéis de mãe e esposa”, suspira.

Art Up Man é um café badalado no centro de Teerã. A capital tem muitos lugares da
moda, aonde os jovens vão para “descontrair”, como diz uma estudante de Direito,
mostrando o cigarro. Moças e rapazes conversam em pequenas mesas, enquanto teclam em
seus smartphones. De fundo, canções de Elvis Presley. Yeganeh K., estudante de
Microbiologia, com os lábios cor de framboesa e as unhas pintadas de preto, diz alto e
claro que o regime não é “digno de confiança” e que é preciso “mudar tudo, a começar
pelo nome ‘República Islâmica’”. As eleições legislativas do dia 26 de fevereiro só
lhe inspiram desdém. “Em outros lugares, é possível escolher seus representantes. Aqui
não. Há sempre alguém que tem direito de observar tudo e que nos ‘guia’! Para mim,
parece a Coreia do Norte!”, reclama.

Seus amigos se assustam. Rahil H., com penteado punk, protesta: “Absolutamente não!
Aqui as pessoas são livres, apesar do aspecto policial do regime. Não temos muita
liberdade de expressão ou de vestimenta, mas, no resto, fazemos o que queremos!”.
Sorrosh T., com os óculos de sol colocados sobre o véu para mantê-lo no lugar,
intervém: “Não são estranhas todas essas proibições. Toda vez que eu saio, meus pais
me dizem: ‘Cuidado!’. Não é que aprovem, mas para eles é preciso levar em consideração
a sociedade, o sistema”. Uma coisa irrita essa garota mais que tudo: “Aqui, as pessoas
têm sempre o direito de observar o que você faz”.

O véu está longe de ser a principal preocupação das iranianas. “É assim”, dizem,
convencidas de que não vale a pena se aborrecer por tão pouco. O desemprego, a
inflação e o exame de admissão para a universidade preocupam muito mais.

Todos os dias, Yeganeh K. diverte-se com suas amigas contornando as regras impostas
pelo poder, como se brincasse de gato e rato. No verão, usa sandálias que permitem ver
seus pés e tornozelos, e pinta as unhas com cores vibrantes, tudo estritamente
proibido. No inverno, veste sapport, uma calça justa e grossa sobre a qual coloca uma
saia curta. Se adicionar à composição um par de botas de cano alto, ela corre sérios
riscos de ser repreendida pela polícia de costumes, que patrulha as esquinas e os
centros comerciais do norte da capital, onde a juventude descolada gosta de passear.
“Um dia, fui levada para a delegacia. Fui fotografada, pegaram minha identidade e me
disseram: ‘Se fizer isso de novo nos próximos dois meses, você será fichada!’”, conta
morrendo de rir. Ela sonha sair desse ambiente sufocante. Se tivesse oportunidade,
iria embora para a Europa ou os Estados Unidos sem pestanejar.

Já Behnaz Shafie escolheu “ficar e agir”. Pequena, franzina, muito feminina e muito
maquiada sob o véu, ela é, aos 26 anos, a primeira mulher a obter autorização para
pilotar motocicleta profissionalmente. Enquanto as mulheres não são autorizadas nem a
entrar nos estádios para assistir a competições de futebol disputadas por homens, ela
ganhou o direito de entrar no Estádio Azadi, em Teerã, em sua moto de mil cilindradas.
“Behnaz deslumbra o mundo!” – essa era a manchete de um jornal conservador no outono
passado, quando ela voltou de Milão, onde foi convidada de honra em um encontro de
motociclistas. Mas ela sabe: nada é garantido. Amanhã, um religioso conservador pode
exigir que ela pare de se comportar como homem em um ambiente de homens. Enquanto
isso, “abre caminho para as mulheres”, sem pressa, mantendo-se dentro da lei. “E tenho
orgulho de ser iraniana”, acrescenta. Em Karaj, subúrbio de Teerã onde vive, ela chega
a circular de moto. Quando os homens percebem que é uma mulher, às vezes buzinam para
cumprimentar, às vezes gritam: “Volte para sua máquina de lavar roupa!”.

Às vésperas das eleições, o clima é particularmente pesado em Teerã. Toda noite, ou
quase, o Guia Supremo aparece na televisão para dar seus conselhos. Advertências para
que a população “não se deixe contaminar” pelo Ocidente. “Evite contato com
estrangeiros”, aconselha o aiatolá Ali Khamenei. Desde o TNP, só aumentam as
advertências do Guia e seus radicais, sinal de sua preocupação com a ideia de que, com
a suspensão das sanções e a abertura por vir, a situação saia de seu controle. Há
alguns meses, o aiatolá Ahmad Jannati, presidente do Conselho de Guardiães, um linha-
dura de 88 anos, advertiu que o TNP não deveria abrir caminho para outras
reivindicações: “Cuidado para que amanhã isso não traga à mesa a questão das mulheres
e da igualdade de gênero!”.

Fariba Hachtroudi é daquelas que não se deixam intimidar. “Não faço provocações, mas
digo em voz alta o que penso”, resume a conhecida escritora,2 que admite, rindo,
“carregar no DNA a loucura desta terra”. Dividindo-se entre seu país natal e a França,
para onde se expatriou na adolescência, ela desistiu de fazer política e optou por
resistir por meio da escrita. Toda vez que volta ao Irã, constata que as mulheres
ganharam terreno. “Em uma aldeia do Baluquistão, o conselho da cidade, inteiramente
masculino, acaba de eleger uma prefeita. Exemplos como esse estão em todos os
lugares!”, exclama.

Preocupação com as aparências

Teria a repressão brutal do “movimento verde”, nascido da reeleição contestada do
presidente Ahmadinejad em 2009, aniquilado toda a militância, como muitos pensam?
Hachtroudi discorda. “As mulheres ainda estão lá, na linha de frente, e continuam
lutando, apesar da resistência. Elas não desistem!”, diz a escritora, destacando que
as ONGs criadas pelas mulheres florescem em toda parte. Nos subúrbios de Teerã,
surgiram lugares de acolhida para crianças de rua e portadores de HIV, além de centros
de desintoxicação para alcoólicos, com a aprovação do governo. Um ponto de inflexão,
pois até então as autoridades negavam problemas como o HIV e o alcoolismo.

Embora a luta das mulheres continue, ela é desorganizada e, muitas vezes, individual.
Muito ocupadas em sobreviver a seu cotidiano, a maioria das iranianas esquece as
figuras na vanguarda de sua luta: a advogada dissidente Nasrin Sotoudeh, a diretora
Rakhshan Bani-Etemad, ambas sob alta vigilância, ou ainda a militante dos direitos
humanos Narges Mohammadi, condenada a oito anos de prisão por “propaganda contra o
regime”.

“Não podemos explicar por que não estamos felizes”, suspira a dona de casa de 40 anos
que chamaremos de Farah. “É o ambiente. Amamos nosso país, mas o que nos falta é
simplesmente ar!” Na Universidade de Ciência e Tecnologia Elm-o-Sanat, onde estuda seu
filho, alto-falantes despejam todos os dias versos do Corão e instruções moralizantes.
Os estudantes têm direito a várias semanas de celebrações: há a semana da guerra, a
semana da Basij, a semana dos “mártires”… “É lavagem cerebral! Estamos fartos
disso!”, pragueja Farah.

Já Mahboubeh Djavid Pour nem imagina reclamar dessa atmosfera de luto perpétuo. Ela é
basij – literalmente, “membro da força de mobilização da resistência”, criada pelo
aiatolá Ruhollah Khomeini. Esses voluntários são uma espécie de auxiliares da Guarda
Revolucionária. Atualmente são estimados em 10 milhões. Seu estatuto confere-lhes
muitos benefícios, como bolsas de estudos, emprego, entrada na universidade. Eles são
temidos e até odiados pela população. As classes superiores os desprezam.

Membro da administração da mesquita de Imã Reza, em Teerã, Djavid Pour move-se
segurando firmemente seu xador preto em torno de si, o que a faz lembrar uma madre
superiora. Essa mulher de 54 anos, mãe de três filhos, orgulha-se de ser basij. Ela vê
nessa função “uma forma de aplicação do islã”. O TNP não lhe desagrada, mas ela
continua desconfiada dos Estados Unidos. Segundo ela, eles prosseguirão em sua
campanha de difamação da República Islâmica, porém de forma mais insidiosa.
“Felizmente, nós estamos agora muito esclarecidos e mais capazes de resistir às
manobras norte-americanas”, diz, antes de acrescentar com gratidão: “Além disso, o
Guia está aqui, ele nos ilumina e nos mostra o caminho”.

Farah, dona de casa que se diz ateia, preocupa-se com o que chama de “religiosidade de
aparência”. A marca na testa que os homens adquirem de tanto se prostrar no chão – ou
fabricam para parecerem pios –, a masbaha ostensivamente entre as mãos, tudo isso a
exaspera. “Somos uma sociedade doente, dominada pela preocupação com as aparências e a
hipocrisia. Não sei aonde isso vai nos levar”, diz.

A confirmação paradoxal de seu pessimismo: o número impressionante de operações
estéticas solicitadas por mulheres iranianas. O nariz, a boca, as bochechas, os ossos
da testa… Como presente de 18 anos, uma moça pode ganhar de seus pais uma
rinoplastia. Em Teerã, narizes arrebitados e maquiadíssimas bochechas de Barbie surgem
sob véus. Às vezes, um desastre. De onde vem esse fenômeno, que explodiu há cinco ou
seis anos e afeta todas as camadas da sociedade? Ninguém consegue realmente explicar.
Obsessão das mulheres pelo rosto, já que não podem mostrar o corpo e o cabelo…?

“Que a imagem do Irã seja reabilitada”

Em Qom, cidade sagrada do Irã, respira-se melhor que em Teerã. Estamos em pleno
deserto. Aqui não há poluição, mas um clima seco que estufa o verão. Localizada 150
quilômetros a sudoeste da capital, a cidade de 1 milhão de habitantes é o principal
centro de educação teológica do país – 5 mil mulheres estudam religião aqui –, além de
ser um importante local de peregrinação. Ali está sepultada Fatemah Masumeh, irmã do
oitavo imã xiita Reza, em um belo e imenso mausoléu. Na fachada dos imóveis, afrescos
gigantes representando o aiatolá Khomeini relembram que o iniciador da Revolução
Islâmica viveu muito tempo em Qom. Aqui não há roupas coloridas: todas as mulheres,
sem exceção, usam o xador. Elas andam muito de mobilete, na garupa do marido, sem véu.

Hoje, 80 mil mulheres formadas em teologia difundem a boa palavra no Irã. Fariba
Alasvand é “Eshtehot”, o mais alto grau de estudos teológicos. Ela ensina no Centro de
Pesquisa sobre a Família e as Mulheres. Seus alunos são tanto homens como mulheres.
“As mulheres do Irã são muito diferentes das do mundo árabe. Nós damos grande
importância à nossa liberdade. Isso reflete a cultura iraniana e o xiismo”, diz ela
desde o princípio. Sobre o uso obrigatório do hijab, ela hesita por um instante, sem
dúvida, nas questões falsamente inocentes. “Um verso do Corão diz: ‘Use o hijab’. Ele
protege as mulheres. Se abandonarmos essa regra do islã, abandonaremos outras”,
finalmente lança.

Essa dona de casa de 60 anos, conservadora, chegou a viajar pela Europa e Estados
Unidos para participar de conferências religiosas. Todas as vezes ela sentiu “o olhar
negativo do Ocidente”, e sofreu com isso, como todas as iranianas. Para ela, os meios
de comunicação são responsáveis por essa incompreensão. Seu medo: que a suspensão das
sanções, “desejada por toda a população e pelo Guia”, acabe por escravizar o Irã. “O
Ocidente quer entrar no Irã, mas recusa a recíproca”, lamenta. Seu desejo é que o país
mantenha suas especificidades. “Nossa religião nos dá uma cultura e uma estrutura.
Nossa liberdade deve ser exercida nos limites do Corão.”

Mais jovem, porém igualmente firme em seus princípios, Zahra Aminmajd também é formada
em Direito Islâmico e professora em Qom. Sorridente, natural, ela acha que o
cristianismo e o islã “têm muitos pontos em comum”, e lamenta que o Ocidente tenha
“uma percepção tão ruim do islã, particularmente no que concerne às mulheres”. O que
mais a preocupa? O consumismo ocidental, com o qual, segundo ela, sonham os iranianos.
“Melhor que ficar esperando a suspensão das sanções seria trabalhar mais”, afirma.

Animada com o retorno do Irã à cena internacional, Sanaz Minai espera uma coisa acima
de tudo: “Que a imagem do Irã seja reabilitada. Que seu valor perdido seja finalmente
restaurado”. De calça jeans, salto alto e um lenço macio, ela é um modelo de sucesso.
Já escreveu mais de vinte livros sobre culinária e cultura iraniana, abriu uma escola
dedicada à arte de receber, o Culinary Club, e fundou a Sanazsania, que desponta
orgulhosamente em primeiro lugar na venda de revistas culinárias. A suspensão das
sanções abre-lhe perspectivas infinitas. Ela quer fazer do Irã “um polo culinário”, ao
mesmo tempo “na moda e chique!”.

Nada parece poder deter outra empresária de sucesso: Faranak Askari. Em junho de 2013,
a jovem estava em Londres, onde cresceu, quando ouviu o chamado do novo presidente
Hassan Rohani: “Venha para o Irã!”. Dois meses depois, ela voltou para Teerã e lançou
a Toiran (“To Iran”), uma empresa de serviços para turistas VIP e empresários.
Paralelamente, montou um site com todas as informações possíveis sobre cinquenta
cidades iranianas – uma espécie de guia de viagem on-line. Sucesso imediato.

“A maior ameaça ao regime”

Desde o acordo de 14 de julho de 2015, a Toiran vê suas reservas duplicarem a cada
mês. Sua clientela é majoritariamente europeia. Uma urgência para Askari: que as
transações bancárias entre o Irã e os países estrangeiros, proibidas nos últimos anos
por causa das sanções ocidentais, sejam restabelecidas. A Toiran, como muitas empresas
iranianas, tem suas receitas bloqueadas em Dubai. “Falta-nos liquidez. Para
sobreviver, ficamos limitados à troca! Mas isso não pode durar: temos de levantar
fundos, investir…”

Conhecida por sua franqueza, Shahindokht Molaverdi não hesita em se encontrar com
jornalistas ocidentais, mas em nosso encontro manteve-se nos limites de um discurso
pronto. Deve-se admitir que o contexto é difícil para ela. Nomeada há dois anos vice-
presidenta da República encarregada das mulheres e da família pelo presidente Rohani,
a jurista de 40 anos fica na defensiva. “É preciso haver mais mulheres nas
assembleias”, diz. Ou: “Precisamos trazer mulheres para todas as esferas de poder”.
Nem uma palavra mais alta do que a outra. É compreensível: entre a proximidade das
eleições de 26 de fevereiro, a suspensão das sanções e a crise aberta com a Arábia
Saudita, ela não pode permitir-se o menor desvio. Como é considerada próxima dos
reformistas e feminista, os ultraconservadores a odeiam.

Mulheres, um grande problema no Irã? Sem dúvida. “O regime tem medo delas. Elas
representam a maior ameaça contra ele”, garante um universitário que pede o anonimato.
“Ele não sabe como lidar com elas, como combatê-las, como impedi-las de abrir novas
brechas…” E a questão do véu, sem grande importância no fundo, é um símbolo. Como
dizem as teólogas de Qom: “Se o abandonarmos, abandonaremos o resto”…

Florence Beaugé

Florence Beaugé é jornalista.

Ilustração: Reuters/Rahed Homavadi

1 Mahmoud Ahmadinejad, presidente da República Islâmica de 2005 a 2013, conservador.

2 Autora de Iran, les rives du sang [Irã, os rios de sangue], Seuil, Paris, 2001; e À
mon retour d’Iran [Meu retorno ao Irã], Seuil, 2008.

8 de janeiro de 2016

Taxi Teerã (Jafar Panahi, 2015)

Jafar Panahi só precisa de um “dispositivo anti-roubo” (câmeras de segurança colocadas no para-brisa do veículo) para fazer um filme. E não um filme qualquer, aleatório, mas um filme conciso e absurdamente bem pensado.

Tal dispositivo, a princípio, é só uma desculpa (ou um pretexto) para se fazer o filme. Jafar precisa registrar seus passageiros, por segurança. Eis que tal dispositivo revela grande poder cinematográfico. Cada mudança (ajuste) de câmera parece extremamente calculada. As bordas do quadro estão sempre no limite de acolher um passageiro. Exemplo é o segundo cliente. Ao aparecer no banco de trás, como que luta para ter um pedaço do rosto na borda do quadro – no qual não dá pra se achar que o enquadramento é obra do acaso. A seguir, pede protagonismo e vai para o banco da frente.

Esse mesmo personagem/pessoa/cliente já dispara alguns procedimentos estruturais do filme. Ao dizer que consegue ‘rushes’ de filmes ainda em filmagem, deixa a possibilidade de fazer vazar o próprio filme que participa, Táxi. Depois de um episódio violento, em que um rapaz à beira da morte precisa ser levado ao hospital, tal personagem diz: “Você acha que eu não sabia que tudo isso foi encenado?”. Assim, ele duplica a possível pergunta do espectador, que é levado a estar a um passo de duvidar do tipo de registro captado por esse carro: ficção, docuficção, ficção na ficção (sequência de mise en abyme)?

No primeiro encontro com passageiros fica claro que Jafar é um taxista inexperiente (pra dizer o mínimo, não seria um taxista clandestino?), não sabendo informar onde fica o Persian Hospital, o que faz da situação seguinte, levar um ferido a outro hospital, algo cômico. Tal episódio também se posiciona criticamente contra a sociedade iraniana, como se houvesse uma guerra civil em curso. Jafar não tem medo de se colocar politicamente, como quando uma mulher, na segunda metade do filme, diz que amigas foram presas, outras não puderam entrar em um jogo de futebol (citando seu Offside, 2006) e outra está detida.

Vale ressaltar que os acontecimentos que se passam no táxi ao decorrer do dia beiram o surreal. Beiram, pois o olhar e a presença de Jafar, imparciais e discretos na maior parte do filme, não se posicionam quanto à sequência dos fatos – ele não se espanta com o absurdo das situações. Percebo uma crítica implícita: como Jafar está proibido de filmar e de sair do país (informações dadas em seu filme de 2011, Isto não é um Filme), nada o parece terrível, pois há algo mais terrível que ser censurado abertamente e sem chances de perdão? Sendo sua vida uma violência contra si constante, não se espanta ao ver a violência no dia-a-dia. Ele desafia sua proibição. Sua consciência sabe que “o mal existe, pessoas roubam, etc.”, o que não faz mudar sua bondade para com os próximos: diversas vezes Jafar não cobra pela corrida.

Episódio a se destacar é o de sua sobrinha. Cita-se outra vez (como o fez em Isto Não é um Filme, mostrando trechos de seus filmes antigos), pois a espera de uma menina na escola é base de seu O Espelho (Ayneh, 1997)Aqui, o registro e o filme ganham uma complexidade sufocante. A menina precisa fazer um filme para a escola, ao que discute alguns pontos com o tio. A repressão do governo aparece mais uma vez ao existir uma série de regras para tornar o filme “distribuível”, que evite um “realismo sórdido” – coisa que Jafar se esforça pra entender, sem sucesso. Ao habitar outro universo de possibilidades, resta a Jafar fazer pouco caso de tais regras. Em um momento que Jafar sai do carro, sobra a menina, sua câmera e a rua. Ela capta um menino de rua que pede dinheiro a recém-casados e é ignorado (aqui, pela primeira vez, as classes sociais ganham uma distância gritante, o que não ocorre no decorrer do filme). Tal menino pega um dinheiro que caiu no chão e logo é repreendido pela menina, que quer um filme eticamente irrepreensível. Pedindo pro menino voltar (a reencenar seu ato), cria-se um jogo de imagens complexo: o táxi filma a menina e o fundo; a menina filma o menino em sua ação em meio aos recém-casados e um outro cinegrafista, que filma o casal. Em tal imagem (ver abaixo) vemos o visor da câmera da menina, que focaliza o menino mais que a cena toda. Por vezes, a edição corta para a imagem da câmera da menina (assim como corta para o celular do segundo personagem do filme). Registros de imagens que se multiplicam ao infinito. O poder que a captação tem de mudar os acontecimentos.

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O documental¹ entra nos lugares que o carro passa – parecendo ser escolhidos (tive a mesma impressão ao ver Gosto de Cereja) e pelas janelas do carro. Os ajustes da câmera são incorporados ao filme, o que diz muito: vemos a imagem efetuar um zoom imperfeito, como se o filme aceitasse a imperfeição, ignorando qualquer virtuosismo técnico – o que um filme com tal dispositivo intrincado poderia se vangloriar. O ritmo do filme é algo a causar inveja: entre as cenas tem-se no máximo 1 segundo de respiro, uma interação levando a outra como um trem descarrilhado. E Jafar suporta tudo, mais que qualquer super-herói – se ele não é um super-homem, é no mínimo alguém muito admirável. Não só pelo seu(s)  filme(s), mas como pessoa. Além de nos entregar um ovni² em forma de filme, nos deixa ver a docilidade/jovialidade de sua personalidade. Ilusão à parte, quem não gostaria de pegar um Táxi com Jafar (e ter a chance de ganhar uma aula de cinema de 2 minutos que valem por mais de 1000 horas em salas de aula?).

Jafar cria um pluriverso em seu táxi. Isso torna o filme tão rico, tanto de leituras (políticas, autorais, pessoais, societais), como de interpretações, abstrações, impressões. Um ovni traz consigo o desconhecido. E a partir do desconhecido, temos muito a aprender.

 

Notas:

1. Questionar como o conceito “documental” entra no filme pode ser problemático. Richard Combs diz: “O que se desenvolve não é um documentário mas um ensaio dos princípios orientadores, e os métodos, do cinema de Panahi, antes e depois de sua prisão em 2010. Ele nos apresenta uma regressão infinita de configurações, tocando tanto em seus filmes como nas dificuldades de qualquer cineaste em abordar a ‘realidade’ iraniana. [Tradução minha]. Crítica original na Film Comment:

“What develops is not a documentary but a rehearsal of the guiding principles, and the methods, of Panahi’s cinema, before and after his arrest in 2010. He presents us with an infinite regression of setups, touching on both his own movies and the difficulties for any filmmaker of addressing Iranian “reality.”

2. Jacques Ranciére diz sobre Road to Nowhere, de Monte Hellman: “A relação entre realidade, ficção e ficção na ficção torna-se realmente indecifrável, a ponto de tornar o filme um objeto não identificável (…)”. Citação que caberia perfeitamente ao filme em questão, Táxi.

 

 

23 de dezembro de 2015

Na ri xia wu – Tsai Ming-Liang (2015)

Para um desconhecedor dos filmes de Tsai Ming-Liang, durante os 15/20 primeiro minutos desse novo filme pode haver uma confusão não esclarecida sobre quem é quem: há uma indiscernibilidade entre esses dois sujeitos, ele e seu ator de muitos filmes Kang-sheng Lee (Rebeldes do Deus Neón, O Rio, O Buraco, Que Horas São Aí, Adeus Dragon Inn, O Sabor da Melancia, Cães Errantes, Jornada ao Oeste). Compartilham um passado em comum, estão em comunhão. Eles pensam o trabalho em conjunto. O “nós” é bastante usado.

Exemplos: Tsai diz: “Nós podemos parar a qualquer momento”. “Lembra-se de quando nós vendemos ingressos pro nosso filme?” E a comunhão fica explícita em tais falas: “Se quiserem entender nossos filmes, devem não me estudar, mas estudar você”, diz Tsai. Ou dizendo para uma terceira pessoa: “Estou declarando meu amor pra ele [o ator].” “Ficaria satisfeito só em filmar você andando.” A abertura de Lee ao diretor é sincera: “Podemos conversar a hora que quisermos.”, como não se importando muito com a “importância” da ocasião, revelando muito de quem é pessoalmente. Eles pouco se embaraçam pela câmera, embora a presença de uma equipe, mesmo que reduzida, os deixar precavidos a falarem com profundidade de assuntos tão extremos.

A estrutura do filme é simples. O primeiro plano é um plano-sequência de uns 15 minutos, onde há um jump-cut e pula-se para outra parte da conversa preservando o mesmo ângulo. Os tempos mortos do filme surgem das pausas da conversa, não são criados à revelia. A conversa tem poucos buracos. Alguns silêncios curtos.

Sendo um filme de 137 minutos, é de se esperar que o diálogo (ainda mais pelo fato de Tsai ser uma metralhadora de palavras) passe por muitos temas: a morte e sua proximidade: “Vou morrer logo” diz Tsai em um momento, não deixando claro se está enfermo ou se constata à medida que sua velhice se aproxima (ele tem 58) – conversa entrelaçada por Deus, como conceito. O realista diálogo do fim, onde diz que a ruína é o destino de tudo: das pessoas, dos lugares, das civilizações… O mundo como uma ilusão; tudo como uma ilusão. Tsai dizer abertamente sobre sua homossexualidade (o qual declara ter sido a primeira vez que fala a respeito); e dizer de sua solidão “Acho que tenho que manter contato com alguém”, “Eu sou tão romântico” é tocante: Tsai tem vigor, urgência ao se expressar.  A intimidade entre suas famílias, cada um falando de sua própria e da relação com a do outro.

afternoon_-_h_2015

Diferente da relação com a instalação de filmes anteriores (Cães Errantes e sua matilha, planos finais, onde o cenário ganha uma carga surreal) aqui, mesmo que passando em um lugar inusitado (uma casa entre montanhas, ‘isolada’ do mundo) o importante é que esse lugar lhes dê tranqüilidade, visível quando os dois estão com as mãos atrás da cabeça, gesto que diz muito. Também difere das produções mais ‘trabalhadas’, carregadas dos anos 2000 (O Sabor da Melancia, Adeus Dragon Inn). Se Tsai declarou estar desistindo de fazer filmes, pode ter sido por todas as dificuldades –logísticas, práticas – de se fazer um filme mais ‘comercial’ – com estrutura rígida e equipe maior. De modo que sua solução aqui é: “quando mais simples for a feitura de um filme, melhor”.

Desse modo, Tsai vai na contracorrente da produção normal de um filme: aqui, nada de decupagem, diversas equipes. Um ângulo, 2 pessoas e deixe-as (deixe-nos, no caso) conversar. Procedimento não muito diferente dos filmes de Warhol? É sabido que esse é referência explícita de alguns orientais de fluxo recentes (vide Apichatpong). A diferença é que Tsai reatualiza Warhol colocando a energia mutante da conversa, sua imprevisibilidade. A reação dos atores mudando de maneira que suas emoções tomem conta de seus corpos. O Tempo escorrendo (o vento que bate nas folhas próximas, a mudança suave da iluminação) mas (e esse ‘mas’ é importante) com uma busca de memórias em comum, de relembrar afetos, na tentativa de se abrir ao outro. Tsai sabe tanto fazer um filme simples como ser igualmente modesto: não se vangloria; lembra de episódios com graça e leveza; não fala de sua obra com vaidade ou superioridade.

Trouxe Warhol pra criticá-lo. Pessoas paradas não nos dizem mais muito, hoje, a não ser com uma construção consistente (vem-me fortemente O Gebo e a Sombra de Manoel de Oliveira). Pessoas com intensidade (criativa, energética, inconformista (?), etc) de presença e abertura: às vezes, é disso que muitos filmes precisam.

13 de dezembro de 2015

Trecho de entrevista com Jacques Derrida sobre hospitalidade, o outro, xenofobia, etc

DerridaPipeLe Monde – Em seu último livro, De l’Hospitalité, o senhor opõe “a lei incondicional da hospitalidade ilimitada” “às leis da hospitalidade, esses direitos e esses deveres sempre condicionados ou condicionais”. O que o senhor quer dizer com isso?

Jacques Derrida – Entre essas duas figuras da hospitalidade é que se deve assumir, com efeito, as responsabilidades e decisões. Prova temível, pois se essas duas hospitalidades não se contradizem, elas continuam sendo heterogêneas, no momento mesmo em que se convocam uma à outra, de maneira embaraçosa. Nem todas as éticas da hospitalidade são as mesmas, provavelmente, mas não existe cultura, nem vínculo social, sem um princípio de hospitalidade. Este comanda, faz mesmo desejar uma acolhida sem reserva e sem cálculo, uma exposição sem limite àquele que chega. Ora, uma comunidade cultural ou linguística, uma família, uma nação, não podem deixar de suspender, ou mesmo deixar de trair o princípio da hospitalidade absoluta: para proteger um “em-casa”, provavelmente, assegurando o “próprio” e a propriedade contra a chegada ilimitada do outro; mas também para tentar tornar a acolhida efetiva, determinada, concreta, para operacionalizá-la. Daí as “condições” que transformam o dom em contrato, a abertura em pacto policiado; daí os direitos e os deveres, as fronteiras, os passaportes e as portas, daí as leis a propósito de uma imigração cujo “fluxo”, como se diz, precisa ser “controlado”.
É verdade que o que está em jogo na “imigração” não recobre de maneira rigorosa – é preciso lembrá-lo – o que está em jogo na hospitalidade, a qual alcança além do espaço civil ou propriamente político. Nos textos a que se refere, analiso o que, entre o “incondicional” e o “condicional”, não é contudo uma simples oposição. Se os dois sentidos da palavra hospitalidade continuam irredutíveis um ao outro, é sempre em nome da hospitalidade pura e hiperbólica que é preciso, para torná-la o mais efetiva possível, inventar as melhores disposições, as menos más condições, a legislação mais justa. Isso é necessário para evitar os efeitos perversos de uma hospitalidade ilimitada, cujos riscos tentei definir. calcular os riscos, sim, mas sem fechar a porta ao incalculável, ou seja, ao porvir e ao estrangeiro, eis a dupla lei da hospitalidade. Ela define o lugar instável da estratégia e da decisão. Da perfectibilidade, como do progresso. Esse lugar é buscado hoje, por exemplo, nos debates sobre a imigração.
Esquece-se muitas vezes que é em nome da hospitalidade incondicional (aquela que dá seu sentido a qualquer acolhida do estrangeiro) que é preciso tentar determinar as melhores condições, a saber, tais limites legislativos e, sobretudo, tal utilização das leis. Esquece-se sempre disso do lado da xenofobia, por definição; mas também se pode esquecer disso em nome de uma certa interpretação do “pragmatismo” e do “realismo”. Por exemplo, quando se acredita dever afiançar eleitoralmente forças de exclusão ou de oclusão. Duvidosa em seus princípios, a tática poderia realmente perder mais do que a alma: o benefício planejado.

L.M. – Na mesma obra, o senhor coloca a seguinte questão: “Consiste a hospitalidade em interrogar aquele que chega?”, em primeiríssimo lugar indagando-lhe o nome, “ou então a hospitalidade começa pela acolhida sem questão?” A segunda atitude está mais de acordo com o princípio da “hospitalidade ilimitada” que o senhor evocar?
J.D. – Nesse caso, também a decisão é tomada no âmago do que se parece com um absurdo, com a impossibilidade mesma (uma antinomia, uma tensão entre duas leis igualmente imperativas, mas sem oposição). A hospitalidade pura consiste em acolher aquele que chega antes de lhe impor condições, antes de saber e indagar o que quer que seja, ainda que seja um nome ou um “documento” de identidade. Mas ela também supõe que se dirija a ele, de maneira singular, chamando-o portanto e reconhecendo-lhe um nome próprio: “Como você se chama?” A hospitalidade consiste em fazer tudo para se dirigir ao outro, em lhe conceder, até mesmo perguntar seu nome, evitando que essa pergunta se torne uma “condição”, um inquérito policial, um fichamento ou um simples controle de fronteiras. Diferença de uma só vez sutil e fundamental, questão que se coloca no limiar do “em-casa” e no limiar entre duas inflexões. Uma arte e uma poética, mas também toda uma política dependem disso, toda uma ética se decide aí.

4 de dezembro de 2015

The Thoughts that Once we Had – Thom Andersen, 2015

Thom Andersen se empenha numa tentativa de validar/ilustrar as “imagens” do livro duplo sobre cinema de Gilles Deleuze entender a sociedade pelos moldes do capitalismo e socialismo. Tenta também entender o movimento e suas formas de hipnose (refletindo sobre os “corpos cerimoniais” de Mick Jagger e Maria Montez). Tudo isso pensado através/com/além/aquém, com uma distância justa, das imagens.

Sobre A Imagem-Tempo (1983) e A Imagem-Movimento (1985) cabe uma explicação de Rancière (em um texto que irá questionar e criticar tal classificação). “A imagem movimento seria a imagem organizada segundo a lógica do esquema sensório-motor, uma imagem concebida como elemento de um encadeamento natural com outras imagens dentro de uma lógica de montagem análoga àquela do encadeamento finalizado das percepções e das ações. A imagem-tempo seria caracterizada por uma ruptura dessa lógica, pela aparição – exemplar em Rossellini – de situações óticas e sonoras puras que não mais se transformam em ações. A partir daí se constituiriam – de forma exemplar em Welles – a lógica da imagem-cristal, em que a imagem real não se conecta mais a uma outra imagem real, mas a sua própria imagem virtual. Cada imagem então se separa das outras para se abrir a sua própria infinitude. E o que faz a ligação, daí em diante, é a ausência de ligação, é o interstício entre as imagens que comanda, em lugar do encadeamento sensório-motor, um reencadeamento a partir do vazio. Assim, a imagem-tempo vai fundar um cinema moderno, oposto à imagem-movimento, que era o cerne do cinema clássico. Entre as duas se colocará uma ruptura, uma crise da imagem-ação, ou ruptura do ‘elo sensório-motor’, que Deleuze associa à ruptura histórica da Segunda Guerra mundial, engendrando situações que não levam mais a alguma resposta adequada.” ¹

Para entender o método/filme de Andersen, vale citar um filme parecido: O Corte Final. Nesse, os créditos mostram uma constelação de diretores dos quais o diretor/montador irá se utilizar de imagens para criar uma narrativa universal. Para isso, se propõe a fazer milhares de raccords no intuito de colar todos os filmes que transparecem ser de seu itinerário pessoal. Há bons trechos, bons filmes, mas todos eles estão presos ao projeto raccordiano, assim vão se criar cenas de personagens em espelho num banheiro, cenas exteriores, etc, todas como se fossem um filme só. História do cinema como fetiche. Plano como souvenir.

Andersen demonstra como as concepções de Deleuze podem ser vistas, dá exemplos, se preocupando com o discurso (que por vezes vai além das imagens) e com as ligações, relações entre elas. A imagem-movimento é dividida entre imagem-ação (o que o personagem faz), imagem-percepção (vê), imagem-afeto (sente).Quando fala sobre imagem-ação, usando um trecho de A Face Oculta de Marlon Brando, logo compreendemos que essa é aquela em que algo irrompe sobre um personagem. Há um estado de coisas que é levado a outro por um impulso maior que os personagens e assim eles são impelidos a agir. Imagem-percepção: closes de Marlene Dietrich em filmes de Joseph Von Sternberg dando a idéia de que essa (imagem) é aquele que nos mostra o que o personagem vê (percebe). A Imagem-cristal: o tempo escorrendo; imagem virtual e atual se confundem – Jia Zhang-Ke.

Há uma fé no cinema. Ao colocar essas imagens como especiais, as faz lutar contra o esquecimento, nos alertando: não as esqueçam, elas são importantes! O rápido esquecimento é brutal ao cinema, pois perdemos as referências do que ele já foi. Além disso, é tênue a distinção entre o que e pensar cinema e pensar o mundo – Andersen entrelaça as duas reflexões.

Em seus letreiros aparece: “2 milhões de mortos na Coréia. 1,5 milhão de mortos em Leningrado”. “The past must be redeemed” diz. O esquecimento age sobre a experiência do horror: as guerras. Ou reflete sobre como a modernidade (cinema incluso) está ligada a essas máquinas, fazendo uma crítica (in)direta, ao ilustrar cenas que endeusam o Carro, uma máquina assim como o cinema: ambas trazem a morte consigo: a morte como ‘fantasma da imagem’ (Manoel de Oliveira) ou como possibilidade de acidente fatal (carro – vide Crash de David Cronenberg).

Os diretores usados não passam de uma centena (diferente dos milhares de O Corte Final): Wim Wenders, Dziga Vertov, Sergei Eisestein, John Cassavetes, Jean-Luc Godard, Hou Hsiao-Hsien, Robert Bresson, Jacques Demy, Joris Ivens, John Huston, Akira Kurosawa, Leo McCarey, Ida Lulpino, Arthur Penn, Vincente Minelli, Charles Chaplin. Também Harry Langdon, O Gordo e o Magro, Irmãos Marx (refletindo sobre o 1, o 2 e o 3), muitos dos quais constam em O Corte Final. A diferença é a forma com que se aproveita a história do cinema. Nenhuma imagem deve passar impune, mas há que se ter consciência sobre seus usos. Visão de mundo, visão de cinema, visão das imagens.

14 de novembro de 2015

Electronic – 2010-2015

Andy Stott – No Surrender (2015)

Nicolas Jaar- Kapital (2014) 02:55 / 07:35

Galcher Lustwerk – Dockside (2015) 07:35 / 10:23

Call Super – Dovetail (2014) 10:23 / 14:44

Kiasmos – Kiasmos (2014) 14:44 / 20:09

Barnt –  Wiggett: So We Know thet hexog (2014)  20:09 / 26:15

Fort Romeau – Jack Rollin’ (2012) 26:15 / 31:18 /

Vessel – Red Sex (2014) 31:18 / 36:43

Objekt – Ganzfeld (2014) 36:43 / 41:22

Actress – Hubble (2010) 41:22 / 50:08

22 de outubro de 2015

Trechos Budistas

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Autodomínio

“Assim que aparece nele um pensamento de cólera, alguma inclinação para o pecado, para o vício, ele a repele, ele a afasta, ele a destrói, ele faz de maneira que ela não exista mais.” Sabbâsava-sutta

Continência

“Quando se quer movimentar-se ou falar, é preciso primeiro examinar seu espírito e pô-lo em estado de tranquilidade.”

“Se sentimos no coração atração ou aversão, é preciso não agir nem falar, mas permanecer imóvel como uma árvore.”

“Quando o coração se revela arrogante, zombador, orgulhoso, enfatuado, brutal, insidioso, impostor, presunçoso, malévolo, desdenhoso, disputador, é preciso permanecer imóvel como uma árvore.”

“Meu espírito está na busca de ganho, de honrarias, de glória, de popularidade, de homenagens; eu permanecerei então imóvel como uma árvore.”

“Meu espírito é rebelde ao interesse de outrem, aplicado ao meu, ávido de clientela e inclinado a falar; eu permanecerei então imóvel como uma árvore.”

“Ele é intolerante, indolente, tímido, temerário, tagarela, unicamente devotado a sua roda; eu permanecerei então imóvel como uma árvore.” Bodhicaryavatara, V. 47 a 53.

Vigilância

“Aquele que, a princípio indolente, cessa de o ser, resplandece nesse mundo, como a lua desembaraçada de nuvens.” Dhammapada, 172.

Reto Esforço

“Acima de tudo, não sejais indolente, pois a negligência é a maior inimiga da virtude.” Fo-sho-hing-tsan-king.

“Aquele que não se esforça quando é preciso esforçar-se; que, jovem e forte, se abandona a preguiça, débil no pensar e no querer, indolente e ocioso, esse não acha o caminho da sabedoria.” Dhammapada, 280.

“Todas as vezes que há um ato negligenciado, um voto transgredido, uma castidade vacilante, não há grande fruto que esperar.” Dhammapada, 312.

Reta Crença

“A confiança em um recurso exterior dá como resultado a preguiça; só a confiança em si mesmo produz força e alegria.”  Fo-sho-hing-tsan-king.

“Não tenhas ídolo de espécie alguma.” Máxima budista do Sião.

É Preciso Realizar

“Por nós mesmo é feito o pecado, por nós mesmo gerada a aflição; nós evitamos o mal e com isso nos purificamos. Puro ou impuro, cada um o é por si mesmo; ninguém pode purificar a um outro.” Dhammapada, 165

“Como uma flor de belas cores, mas sem perfume, assim é a linguagem elegante mas vâ, do homem que não age como fala.”

“Como uma flor de belas cores e ademais perfumada, assim é a linguagem elegante e proveitosa do homem que age como fala.” Dhammapada, 51 e 52.

Que é a Religião?

“Os caracteres distintivos da verdadeira religião são: a boa-vontade, o amor, a veracidade, a nobreza de sentimento e a bondade.” Inscrição d’Asoka.

“Em que consiste a religião?

– Ela consiste em fazer o menos mal possível, e fazer o bem em abundância. Ela consiste na prática do amor, da compaixão, da veracidade, da pureza em todos os domínios da vida.” Inscrição d’Asoka.

“Aquele que é inteiramente puro de todo o mal, como o céu é puro de manchas e a lua de máculam – eu chamo, um religioso.” Udânavarga

“Observar regras puras de conduta, eis a verdadeira religião.” Fo-sho-hing-tsan-king.

“A benevolência para com todos os seres, é a verdadeira religião.” Buddahacarita

Ódio, Cólera e Orgulho

“Ele me injuriou, ele me espancou, ele me suplantou, ele me prejudicou”; – Aqueles que entregam a tais pensamentos, não cessam de odiar.”

“Ele me injuriou, ele me espancou, ele me suplantou, ele me prejudicou”; – Aqueles que não se entregam a tais pensamentos, cessam de odiar.” Dhammapada, 3 e 4.

“A cólera, ai de mim! Como ela modifica uma figura graciosa! Como ela destrói o encanto e a beleza!” Fo-sho-hing-tsan-king.

“Liberta-te da cólera! Liberta-te do orgulho! Destrói todos os teus liames! Aquele que não tem mais apego ao nome e forma, que não possui absolutamente nada, – nada pode temer.” Dhammapada, 224

“Falai a verdade; não voz deixeis dominar pela cólera; dai do pouco que tiverdes a quem voz pedir. Com essas três condições, vós vos aproximareis dos deuses.” Dhammapada, 224.

“Aquele que, ultrajado, não deixa o ressentimento tomar pé do seu coração, ganhou uma brilhante vitória.” Udânavarga.

“Que aquele que é censurado pelo mundo, não conserve sentimentos de inimizade contra ele.” Sammaparibbajaniya-Sutta

“Não chegueis a ponto de, por cólera ou ressentimento, desejar o mau de outrem.” Metta-Sutta

“Aquele que se exalta a si mesmo e despreza os outros, e assim se torna desprezível pelo seu orgulho, reconheçamos como um bastardo.” Vasaba-Sutta

Amor-Ilimitado – Compaixão

“Alimentai, em vosso coração, uma benevolência sem limites para com tudo que vive.” Metta-Sutta

“Olha com amizade… o perverso e o homem de bem.” Introdução ao livro Jâtaka

“Eu desejo criar em mim um coração cheio de amor para com todas as criaturas vivas.” Fo-sho-hing-tsan-king.

“Porque a pomba teme o falcão,

Batendo as asas, ela vem procurar minha proteção,

E embora sua boca não possa proferir palavras,

Entretanto seus olhos estão úmidos de medo.

Eis porque eu estendo a essa pobre criatura,

Todos meus meios de proteção e de defesa.”

Ta-chwang-yan-king-lun

Palavras Vãs

“Não é com belos discursos que nos tornamos um sábio. Aquele que é pacífico, isento de ódio e de medo, eis o verdadeiro sábio.” Dhammapada, 258

Maledicência – Fácil é Ver a Falta dos Outros

“Não é sobre as transgressões dos outros, sobre as ações ou omissões dos outros, que se deve fixar a atenção, mas sobre o que foi feito ou omitido por nós mesmos.” Dhammapada, 50

“Que interesse pode haver para ti, que um outro seja culpado ou não? Vem amigo, e olha teu próprio caminho.” Amagandha Sutta

“As faltas dos outros são facilmente percebidas… Nossas próprias faltas são difíceis de ver.” Udânavarga

“Jamais Ele pronunciava uma palavra para denegrir fosse o que fosse.” Saddharma-pandarika.

Espírito Pacífico

“O que ouvires aqui, não o repitas ali adiante, com o objetivo de suscitar uma desavença contra as pessoas daqui.” Tevijja-Sutta

“Não, meu amigo, não permitas que tomem corpo, nem querelas, nem lutas, nem discórdias, nem disputas.” Mahâvagga

“Não cabe na religião um espírito que se compraz em disputas.” Milindapanha

O Bem e o Mal

“Se tens horror ao sofrimento, se para ti nada há de agradável no sofrimento, não cometas má ação alguma, nem mesmo em segredo.” Udânavarga

“Tu não fazes o bem incitando-me a cometer más ações. Mesmo se disseres: “Ninguém o saberá”, a ação será por isso menos má?” Jatakamala

“Invejoso de seu superior, hostil ao seu igual, arrogante para o seu inferior, embriagado pela lisonja, exasperado pela crítica, quando o tolo produzirá o bem?” Bodhicaryavatara, VIII – 12

“Os tolos vivem na irreflexão, inimigos de si próprios, fazendo o mal que não produz senão frutos amargos.” Dhammapada, 66

“Seguramente, se as criaturas vivas vissem as consequências de todas as suas más ações, com horror elas se desviariam e renunciariam a essas más ações, temendo a ruína próxima.” Fo-sho-hing-tsan-king.

A Boa Ação

“Aquele, cujas más ações desaparecem sob as boas, espalha neste mundo um clarão semelhante ao da lua desembaraçada de nuvens.” Dhammapada, 173

“Mesmo que alguém tenha pecado cem vezes, que ele não peque mais uma vez.” Udânavarga

“Devemos cultivar um sentimento de profunda vergonha de nossos pecados.” Siau-chi-kwan

“Evita, domina, foge de tudo que não for o bem! Isso desagradará aos perversos, porém agradará aos bons.” Dhammapada, 77

6 de setembro de 2015

150 Pinturas de Zdzislaw Beksinski (Paintings)

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6 de setembro de 2015

92 Pinturas de Thomas Hart Benton (Paintings)

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6 de setembro de 2015

13 Pinturas de Egon Schiele (Paintings)

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