Trecho de uma entrevista encenada no filme Pasolini (Abel Ferrara, 2014)

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Entrevistador:

-Vamos começar. Nos seus escritos,
nos seus artigos, você deu muitas versões
daquilo que detesta
e iniciou uma luta solitária
contra as instituições
contra as ideologias, contra os
poderes, contra algumas pessoas
e para deixar nossa conversa
menos complicada
eu chamarei tudo isso de
“a situação”. Claro que
me refiro àquela cena a que
você normalmente se dirige.
Mas quero lhe fazer uma objeção.
Digamos que seu pensamento
seja um pensamento mágico.
Você faz um gesto com a mão
e tudo desaparece
tudo aquilo que você detesta.
Você então fica sozinho,
sozinho e sem meios.
Sem meios de expressão, quero dizer.

Pasolini: Sim, entendo.
Você fala de um pensamento mágico
que não apenas procuro mas
no qual acredito, e não porque
me considere uma espécie
de feiticeiro,
mas porque sei que batendo
sempre no mesmo prego
é possível derrubar uma casa.
Aqueles que mudaram a história
não foram nem os cortesãos
nem os assistentes dos cardeais,
mas aqueles que souberam dizer “não”.
A recusa sempre foi um gesto
essencial e, na verdade,
para funcionar deve ser
grande, absoluto, absurdo.
O bom senso nunca conseguiu
parar a “situação”.
Veja bem, são três os discursos:
qual é “a situação”
a razão de pará-la ou destruí-la
e de que forma.

-Bem, agora descreva “a situação”.
Você sabe bem que seus escritos
e sua linguagem tem o efeito da
luz do sol que atravessa a poeira.
Que é uma bela imagem
mas é difícil de entender.

-Obrigado pela imagem do sol, mas
minha pretensão é bem menor.
Pretendo simplesmente que você
se dê conta desta tragédia.
Qual é a tragédia?
A tragédia é que não existem mais
seres humanos, somente estranhas
máquinas que se batem umas nas outras.
E essa tragédia começou
com aquele universal,
obrigatório
e perverso sistema de educação
que forma a todos nós,
desde as ditas classes dirigentes
até os pobres.
Que nos joga a todos dentro
da arena do “querer tudo”
cada coisa a qualquer preço.
Daí a razão pela qual
todos querem as mesmas coisas
e se comportam do mesmo modo.
Por isso, se tenho em mãos
um conselho de administração
ou uma manobra financeira,
uso tudo isso.
Ou posso usar um porrete.
E quando decido usar um porrete
eu uso minha violência
para obter aquilo que quero.
Por que eu quero?
Porque me disseram que
é uma virtude querer.
Eu exercito meu direito,
minha virtude.
Sou um assassino,
e sou um grande homem.
Dessa forma, hoje as pessoas
se matam sem escrúpulos.
Por isso o panorama mudou
agora existe o desejo de matar
e esse desejo nos liga a todos
como irmãos sinistros
na derrocada sinistra de
um sistema social inteiro
que fabrica gladiadores,
todos educados para ter,
possuir e destruir.

-Você nos vê como pequenos pastores
sem educação escolástica
ignorantes mas felizes.

-Vou lhe dizer francamente:
eu desço ao inferno
e sei muitas coisas que ainda
não tiram a paz dos outros.
Mas fiquem atentos.
O inferno vai chegar em vocês.
É verdade que ele usa
uniformes diversos e
coloca diferentes máscaras.
Somos todos vítimas e
somos todos culpados.
Mas a vontade, o desejo
de dar a porretada,
de agredir, de matar,
é forte e está em todos.
Não vai restar por muito
tempo a experiência
privada e arriscada de quem
como posso dizer
Tocou “a vida violenta”.
Não se iludam.
Vocês
com a sua escola
a televisão
a pacatez dos seus jornais
vocês
são os grandes conservadores
dessa ordem horrenda
baseada na ideia de possuir
e na ideia de destruir.

-Vamos voltar à pergunta inicial.
Você magicamente apaga tudo,
a escola obrigatória,
os funcionários eleitos,
a própria televisão.
E o que lhe resta?

-Tudo.
A mim resta tudo.
Eu mesmo.
Estar vivo.
Estar vivo no mundo.
Ver, trabalhar, entender, meus livros.
Os meus filmes.
Eu continuaria a fazer filmes mesmo
se fosse o último homem no mundo,
talvez continuaria a fazê-los
porque preciso deles
porque tenho prazer em fazê-los.
Ou me suicido, ou os faço.
Eu, fazendo filmes
expresso a mim mesmo,
de algum modo.
Se depois essa minha
expressão é alienada,
paciência.
Mas tentei me expressar
de forma livre, na medida do possível.
Agora chega, não quero
mais falar de mim.
De mim
já disse bastante,
todos sabem que
as minhas experiências
eu levo à sério, talvez eu erre,
mas eu vou continuar a dizer
que estamos todos em perigo.

-Pasolini, se essa
é sua visão da vida,
não sei se vai aceitar a pergunta,
mas como pode distanciar
o risco e o perigo?

-Está tarde.
É melhor pararmos.
Talvez possa me deixar as perguntas.
Existem alguns pontos muito absolutos,
me dê o tempo para pensar.
Para mim é muito mais fácil
escrever do que falar.
Acrescento algumas notas
e lhe dou amanhã.
Já tem um título?
“Estamos todos em perigo?”

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*não só eu. O casarão escutou: Guilherme Arantes, Nelson Sargento, Candeia, Erasmo Carlos, Lula Cortês e Zé Ramalho, Ariel Pink, David Bowie e Nick Cave.

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