Reflexões sobre o ator de cinema – Michelangelo Antonioni (1961)

O ator de cinema não precisa compreender, mas simplesmente ser. Pode-se argumentar que para ser é preciso compreender. Mas não é assim. Caso fosse, o ator mais inteligente seria também o melhor ator. E a realidade freqüentemente nos indica o contrário.

Quando um ator é inteligente, seus esforços para ser um bom ator são três vezes maiores, porque ele deseja aprofundar sua compreensão, levar tudo em consideração, incluir sutilezas, e, ao fazer isso, ele invade um terreno que não é o seu – na verdade, ele cria obstáculos para si mesmo.

Suas reflexões sobre o personagem que está interpretando, que, de acordo com o senso comum, deveriam trazê-lo mais próximo a caracterização exata, acabam derrubando seus esforços e privando-o de naturalidade. O ator de cinema deve chegar à filmagem num estado de virgindade. Quanto mais intuitivo for seu trabalho, mas espontâneo ele será.

O ator de cinema deveria trabalhar não no nível da psicologia, mas no nível da imaginação. E a imaginação se revela espontaneamente – ela não tem intermediários sobre os quais alguém pode, como num apoio, se recostar.

Não é possível haver uma colaboração real entre o ator e o diretor. Eles trabalham em dois níveis inteiramente diferentes. O diretor não deve qualquer explicação ao ator, a não ser aquelas de natureza bastante geral, sobre as pessoas do filme. É perigoso discutir detalhes. Às vezes o ator e o diretor necessariamente se tornam inimigos. O diretor não pode comprometer a si mesmo revelando suas intenções. O ator é uma espécie de Cavalo de Tróia na cidadela do diretor.

Eu prefiro chegar aos resultados através de métodos secretos; isto é, estimular no ator certas qualidades inatas de sua existência, as quais ele mesmo desconheça – excitar não sua inteligência, mas seu instinto – não dar justificações, mas iluminações. Quase é possível enganar um ator, pedindo-se uma coisa para obter outra. O diretor precisa saber como pedir, e como distinguir o que é bom e ruim, útil e supérfluo, em tudo aquilo que o ator oferece.

A primeira qualidade do diretor é a de ver. Esta qualidade também é válida no trato com os atores. O ator é um dos elementos da imagem. Uma modificação de sua pose ou gestos modifica a própria imagem. Uma fala dita por um ator de perfil não tem o mesmo significado de uma dita com o rosto frontal. Uma frase dirigida à câmera colocada acima do ator não tem o mesmo significado que teria se a câmera estivesse abaixo dele.

Estas poucas e simples observações provam que é o diretor – isto quer dizer, aquele que compõe o plano – que deve decidir a pose, gestos e movimentos do ator.

O mesmo princípio vale para a entonação do diálogo. A voz é um “ruído” que emerge junto a outros ruídos, numa relação íntima que só o diretor conhece. É, portanto, de responsabilidade dele descobrir o equilíbrio ou o desequilíbrio destes sons.

É necessário ouvir longamente um ator, mesmo quando ele está equivocado. É preciso deixá-lo se equivocar, e ao mesmo tempo tentar compreender como é possível usar este equívoco no filme, porque estes erros são, no momento, a coisa mais espontânea que um ator pode oferecer.

Explicar a cena ou o trecho de diálogo é tratar todos os atores da mesma maneira, porque uma cena ou trecho de diálogo não mudam. Ao contrário, cada ator demanda tratamento especial. Deste fato brota a necessidade de se encontrar diferentes métodos: guiar o ator pouco a pouco até o caminho certo através de correções aparentemente inocentes, que não levantarão sua suspeita.

Este método de trabalho pode parecer paradoxal, mas é o único que permite que o diretor obtenha bons resultados com atores não-profissionais encontrados, digamos, “na rua”. O neo-realismo nos ensinou isso, mas o método também é útil com atores profissionais – até mesmo com os grandes.

Eu me pergunto se existe realmente um grande ator de cinema. O ator que pensa demais é levado pela ambição de ser grande. É um obstáculo terrível, que o faz correr o risco de eliminar grande parte da verdade de sua atuação.

Eu não preciso pensar que tenho duas pernas. Eu as tenho. Se o ator busca compreender, ele pensa. Se ele pensa, encontrará dificuldade em ser humilde, e a humildade constitui o melhor ponto de partida para a conquista da verdade.

Ocasionalmente, um ator é inteligente o bastante para superar suas limitações naturais e encontrar o caminho apropriado para si mesmo – isto é, ele usa sua inteligência inata para aplicar o método que acabei de descrever.

Quando isso acontece, o ator tem as mesmas qualidades de um diretor.

Michelangelo Antonioni

(Publicado originalmente na revista Film Culture, nº 22-23, verão de 1961. Tradução de Rodrigo de Oliveira)

fonte: http://www.contracampo.com.br/88/artantonionireflexoes.htm

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