Sexo, Pregações e Política, de Aude Chevalier-Beaumel e Michael Gimenez (2016)

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SEXO, PREGAÇÕES E POLÍTICA, de Aude Chevalier-Beaumel e Michael Gimenez
72min, 2016, RJ

Sexo, Pregações e Política trata de um tema importante, o aborto. Para isso, mostra uma batalha em curso no Brasil: fundamentalistas religiosos contra políticos de esquerda, mais esclarecidos. Um dos problemas é como o discurso do filme é construído, ora manipulador (como os políticos irracionais), ora superficial, deixando pontas a costurar e não oferecendo saída (resolução, síntese) de um quadro desesperador.

Já no início fica claro que a voz destinada a cada parte será controlada: deputados-pastores aparecem fazendo uma pergunta retórica “quem matou Jandira?”, como se não soubessem responder; enquanto, no outro lado, Jean Wyllys faz uma afirmação racional, lógica, criando um abismo de razão entre as partes – um argumento coerente contra um ininteligível. O problema é que do lado religioso, que lida com o emocional, não se trata de ter razão, de dar argumentos convincentes, e sim da própria aparição, que é a moeda de troca de tais personas. Falar mediocridades e ter espaço, mesmo num filme contrário a tais pensamentos e que os poderia refutar no nível do discurso (mas não o faz), vale apenas como ter o espaço. Nesse âmbito o filme se torna uma espécie de cúmplice, pois tem em sua matéria fílmica tais discursos ininteligíveis e não se esforça em compreendê-los, desconstruí-los – e apenas chocar com discursos compreensíveis não dissipa suas incoerências. Faz-se perguntar: “o que o filme quer quando mostra tais discursos?”. Pois tais trechos se mostram confusos: não explicitam o cerne da questão, nem ajudam a esclarecer o porquê de tais discursos serem descabidos – o filme acredita numa auto-ironia que tais partes não contém. O filme diz: “é contra isso que lutamos” sem saber como lutar (ainda no nível do discurso).

Victor Guimarães fala sobre ruralistas e a situação que os envolve em Martírio (Vincent Carreli, 2016): “um poder que atingiu um grau tal de autoconsciência e cinismo que já não se vê obrigado a argumentar, embarcando de bom grado em uma espiral grotesca de autoafirmação publicitária.” Tal trecho caberia perfeitamente aos religiosos reacionários em Sexo, Pregações e Política. O grotesco, suscitando emoção (repugnância aos contrários, afeto destrutivo aos favoráveis), é seu modus operandi. Mas aí, estamos num dualismo limitador. Não seria de se espantar que um fiel de tais religiosos veria o filme louvando os momentos em que eles aparecem e desprezaria o resto. E vice-versa.

Se em um momento a própria ação ganha contornos críticos (como fiéis pagando as missas com cartão de crédito) pelo absurdo da coisa, para tal universo seria apenas um ato normal. Além disso, como falta ambiguidade na fala dos pastores, corrobora-se com seus discursos, que são guiados por conceitos imprecisos, passionais, e dessa maneira, irrefutáveis (no filme como ele é) pois as bases de tal refutação estariam numa quebra da fé alheia, passível de inúmeras discussões quanto ao resultado. Exemplo: um tal Silas (que, mesmo não sendo político de carteirinha, oferece apoio aos da sua laia) não sabe argumentar racionalmente. Mas sua fala é como um sermão e fica difícil discernir o pastor de um cidadão, de modo que tais figuras se confundem. Em outro momento, temos algo como os ‘piores momentos’ de um tal Jair. Tal montagem o ajuda, pois é dessa aparição repugnante, construída, calculada, que vive e mantém sua fama – e assim, da ingenuidade de mostrar os dois lados, o filme dá um tiro no pé. Além disso, o filme não lança mão de procedimentos mais cirúrgicos, que mostre o quadro de maneira mais ampla e com todas as suas controvérsias e falácias envolvidas.

Se ao fim o filme cria liga, mostrando o estado como assassino e como se ligam os conflitos de opinião com um conflito maior (o impedimento com machismo envolvido), por fim,  ele é trágico, quase sádico, pois está submerso nesse mar e não se livra desse trauma; exibe um monstro sem oferecer uma luz. Se o sono na política produz monstros, no cinema (re)produz apenas a superfície, por vezes opaca. Aqui o cinema precisaria ser mais furadeira que radar. Pois o filme não ilumina, dá um retrato mas não se aprofunda no contexto, não tenta dissipar incongruências (como neste editorial). As aparências, mais que problemáticas, continuam ilesas. Ganha o status quo.

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