Cuauhtémoc (Leo Pyrata)

            Se um filme mente 24 vezes por segundo, Cuauhtémoc deixa indefinida essa quantidade: a imagem move (pula) aos trancos, algo próxima da fotografia ou do ‘flicker film’, um movimento entrecortado. Os planos não seguem nenhuma lógica causal. A montagem frenética acrescida de um som cacofônico geram uma experiência de desorientação. Além disso, as falas dessa faixa sonora trazem palavras que vão contra (Hollywood, filme) a natureza desse filme, e outras falas que são próximas do trabalho artesanal (não-comercial) de Leo: precariedade. Uma precariedade (de resolução, a imagem é por vezes pixelada) de unidade, já que se unem imagens de diferentes formatos e proporções, e sem preciosismo (técnico: prescinde de ‘luz de cinema’) formal.

Nesse acúmulo de termos e imagens díspares, há uma preocupação com o estatuto da imagem, no como ela é produzida. Exemplo é um ‘banner’ de uma propaganda ao qual é dado destaque. A ‘lan-house’ pode ser vista como um lugar gerador de imagens, seja a proteção de tela que invariavelmente aparece nos monitores e é usado como matéria-prima para se fundir com outras imagens; seja no site (software que responde aos cliques formando cristais de luzes). O fazer imagens está entremeado sobre o falar sobre o fazer, e se esse falar é caótico, mescla-se de maneira coerente com imagens que não obedecem uma continuidade.

Em ‘Notas Sobre o Cinematógrafo’, Robert Bresson postula que quando uma imagem é chamativa, o som precisa ser discreto e vice-versa. Os segundos iniciais de Cuahtémoc são de imagens se atropelando e sons se sobrepondo, indo contra a regra de Bresson. Dessa aversão à ordem depreendemos os princípios do cinema experimental: romper com a lógica, a inteligibilidade, o discurso claro e conciso de um mundo palpável e reocnhecível. Mundo que em Leo Pyrata (vemos um atlas em meio ao seu turbulhão de imagens) é sem nexo, ininteligível e não por isso menos potente. “Uma porção de acontecimentos sem sentido só geram um entendimento tarde demais, se é que esse sentido algum dia vem” (Joseph Conrad). A força do filme (vídeo?) de Leo é nos chocar contra esse mistério, o mistério que existe por entre e por detrás das coisas. E sabe-se que sem mistério (sem a busca do inefável) é provável que o cinema não tenha nenhuma razão de existir.

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