Calgon (Stephanie Wuertz e Sasha Janerus)

            Uma das chaves de compreensão é a busca do movimento puro e simples, que um fotograma seja diferente do outro, mesmo que seja um movimento inútil. Não se busca o encadeamento de ações. Michel Mourlet certamente o recriminaria1. (1) Aqui o olhar é sobre o mundo imaterial da imagem televisiva. Cria-se uma desorientação e um desconforto, pois o filme sofre pra começar (a contagem habitual faz 8 segundos virarem 30), avançar (os movimentos dos atores se repetem inúmeras vezes (2)) e terminar. Se a matéria-prima é um comercial de banho de 30 segundos, eles se transformam num experimento de 15 minutos. Esse esgarçamento do tempo atinge seu auge numa imagem que consiste num ato impossível: uma embalagem do produto derrama grãos infinitamente. Tempo dilatado presente também em um zoom lentíssimo sobre a imagem. Calgon nos força a olhar repetidamente suas (apropriadas) imagens.

A faixa de som é preenchida por um ruído constante e no fim tem-se um efeito incomum: só quando o fluxo de imagens do comercial termina é que ouvimos o áudio original do mesmo, no tempo normal (antes parecia que o tempo diferia do normal, além de parecer estar de trás pra frente – impressões).

O interior dos planos abre-se para receber outras imagens (de diferentes texturas) e para a própria imagem se desdobrar em cascata. Nas fusões (3) criam-se relações: um movimento de se esfregar com a bucha interage com a imagem fundida, como se a atriz se tocasse no joelho e cotovelo ao mesmo tempo – como se o toque funcionasse para os 2 planos fundidos.

Movimento puro e simples: o essencial é que ocorra transformações no quadro, mudança, não importando o quê se mexe. A escolha por tal comercial pode ter sido por suas cores chamativas e pela beleza (4) do sorriso da atriz. Retomar imagens outras é apontar para suas singularidades (e seus aspectos excêntricos) e desdobrar, ativar suas potencialidades. Nosso arquivo e catálogo de imagens é grande demais (5), cabe olhá-lo com humildade.

(1) A heresia que mais atrapalhou o desenvolvimento do cinema foi tomá-lo por um simples jogo de imagens suscetível de todas as combinações possíveis (exemplo: as sobre-impressões), esquecendo o ponto de partida dessas imagens: um olhar sobre o mundo sensível.

(2) Procedimento similar ao de Martin Arnold, em especial no curta Passage à L’acte”

(3) Duas citações de Jacques aumont cabem a esse filme:

– “Um filme realmente bem sucedido deve poder, por exemplo, ser visto de outra forma além do dispositivo habitual do cinema; imagem por imagem, ou, ao contrário, em câmera lenta, ele continuará interessante e tocante.”

– (…) o plano pode se fender interiormente, manifestar uma espécie ou muitas espécies de desdobramentos, de aberturar, ele pode tornar-se o equivalente ideal de vários planos.”

(4) Exploração da beleza com a repetição do gesto pode ser vista em Peter Tscherkassky, em especial.

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