Quase Memória – Ruy Guerra (2015)

“Perigo de morte! Não veja!”

 

Primeiro plano: muita fumaça e muita luz. Nós temos a maquinaria! Gastemos dinheiro! Logo menção ao AI-5. Será um filme político? Não. Coprodução Globo Filmes, então, automerchandising: música do plantão, quem não conhece? Como se as notícias só tivessem validade se propagadas pela tal emissora.

Aqui a ideia de filme emulando uma produção independente é colocar a câmera na mão para dar uma instabilidade que a ação não contém; se o filme se arrisca (na palavra da filha-do-diretor/produtora), é algo a se perguntar: aqui temos uma estética de minissérie que o Luis Fernando Carvalho já fez 10x melhor.

A co-presença temporal de duas pessoas – pai e filho – de tempos diferentes precisa ser explicada de maneira didática, dois minutos depois da informação ser dada visualmente. Trata-se de achar que o público necessita de algo didático para compreender  (narrativamente) o filme – que deve se pretender tão quebra-cabeça quanto Amnésia (referência assumida pelo diretor). Em outra cena, aparece um plano detalhe de um cartão postal e, dois segundos depois, a explicação: “este é um cartão postal, etc, etc(…)”.

A luz não tem nenhum critério na maior parte do tempo: se é no rosto, na metade do rosto ou contraluz, nenhuma escolha encontra justificativa dramática. Como iluminar? Você ilumina a janela de amarelo, a estante de amarelo, o ator de amarelo. Outra hora, tudo vermelho. Outra, um pouco de vermelho, amarelo, verde, tanto faz. O mesmo com os planos: closes surgem como que para dar algum interesse à sucessão fraca de cenas, sem sucesso.A impressão é que o roteiro foi dado aos atores e nenhuma palavra foi alterada pra ver como soaria em suas bocas, pois todas elas parecem sair com um esforço tremendo e fora de tom. Nenhum ator salvaria esses rabiscos e, o que é pior, eles ficam parecendo amadores – ainda que tirados de um texto de ‘renome’: um livro do Carlos Heitor Cony. Quando tenta ser poético não passa de risível, pois toda sua estrutura informe só aceita novas direções por emergência, sob o risco do filme implodir por repetição. A dependência do texto o torna um teatro defasado – vide foco de luz seletiva numa zenital com tripé (há uma zenital com câmera na mão, ao menos alguma inovação) que faz parte do portfólio do fotógrafo que são os três ou quatro planos que se salvam da coisa toda. Quando o filme tenta ser formalista, salva-se por alguns segundos. Acontece que o humor falho bloqueia o lado estético de ser levado a sério.

As aparições não tem potência. João Miguel e Mariana Ximenes (esta principalmente) são subutilizados. Lá pro meio do filme, pra tentar segurar o espectador pela garganta, se diz (e promete): “A lógica de uma boa história se revela no final”. Menos de um minuto depois, uma bunda. O filme se desespera, se descabela, implora ao espectador para suportar aquilo e não ir embora.

O lado minissérie/novela se agrava quando falas são do vocabulário tradicional dessas: “mentecapto, ragazzo”. O conflito entre pai e filho, que poderia se desdobrar e adquirir algumas nuances, não é explorado, e o filme se arrasta a chegar a um fim. Parece ter sido a intenção única, inicial e final: fazer um filme e embolsar a grana a qualquer custo. É um filme que queima dinheiro.

O risco maior era não se ter filme, tamanho o remendo que esse é. Apolítico, desnecessário, constrangedor. Colocar na boca falas como “esses milicos não me metem medo” só faz diluir qualquer carga política, contestatória que poderia advir dessa empreitada. E isso quase 50 anos depois do golpe e com o risco recente de um. Faz-se Zorra Total de um suposto refúgio de “anarquistas” (essa palavra aparece uma hora). Isso, no mínimo, mereceria uma retratação. Se são fugitivos, Guerra fez questão de estereotipar a ponto de serem esquecidas e distorcidas suas condições, de caçados pela polícia. Não importam se são perseguidos, isso é mero detalhe. O importante é que essas pessoas/personagens leiam o texto, não importa nem se fica bom.

Correndo o risco de ser repetitivo, é um filme que não sabe pra onde vai. Quando a narrativa sai dos personagens principais, não se nota diferença, pois aqueles não seguravam a história. Três roteiristas não tiveram a competência de fazer um texto decente.

No ápice final, algo revelador do que é todo o filme: a loucura de Tony Ramos só se sustenta com um ruído ensurdecedor, acrescido de vozes que tomam consideravelmente a trilha sonora; acrescidos de raios que iluminam o cenário todo e também participam da bagunça sonora. Você não passa indiferente ao filme porque ele grita. Aí você é tocado por ele, quer dizer que o filme te sensibilizou? Então o filme “funcionou”, pois te tirou da zona de conforto? Se funcionar é agredir sua sensibilidade, testar o quanto você suporta de mau-gosto, eis aqui um filme que funciona. Para escapar de questões maiores, políticas, chatas, façamos filmes como esse: um grande nada.

Podemos pensar que o personagem de Tony Ramos é um retrato do diretor: dois senhores com perda de memória vivendo fora de seu tempo, falando e ‘criando’ (seria melhor recauchutando?) coisas sem sentido. Só assim teria alguma coerência. Como não parece ser isso, só temos a contestar o fato de se fazer filmes por fazer (para fazer $$), sem tesão e sem ter o que dizer. Lamentável.

 

 

PS: dia após escrever esse texto leio uma matéria do Thiago Stivaletti na Revista de Cinema, com Ruy Guerra. Pontos a destacar:

1:  “Nunca gostei do Resnais ficcionista. Sempre o considerei um grande documentarista. Revi ‘O Ano Passado em Marienbad’ há pouco tempo e detestei. É uma brincadeira sem sentido. Curiosamente, creio que não foram feitos muitos grandes filmes sobre a memória.’ [o artigo continua) “De cabeça. lembra-se de apenas um: “Amnésia” de Christopher Nolan”.

Preferir Nolan a Resnais… Na matéria ele também diz ter assistido, com certo costume, Antonioni e Bergman. Será que ele os vê bem? Só lembrar que um único plano de Morangos Silvestres, Ernald Josephson de frente pra câmera com o passado no cômodo ao fundo, traz tal invenção sobre o termo, memória, no cinema moderno que se trata de um avanço da linguagem. Conselho ao Ruy: reveja os Resnais, principalmente os recentes.

 

2: Em outra parte: “O que o Ruy de hoje, com 84 anos, diria ao Ruy de 30 se o encontrasse?”, pergunta Thiago. Ruy: “diria que já é tempo de aprender a fazer cinema”. É tempo de o Ruy de 84 (re)aprender a fazer cinema. Esperamos que o próximo, fim de uma trilogia iniciada por ‘Os Fuzis’ e ‘A Queda’, e que de antemão se autointitula um filme político (o que constata que esse não o é, assumidamente), seja mais fértil em ideias e (pré-pós)produção.

Alerta! Ruy também tem outros dois roteiros prontos para serem filmados. Com os mais de 4 milhões gastos em Quase Memória daria pra fazer muitos curtas metragens.

É dito na matéria que não se teve tempo de ensaiar com os atores. Na certa, o pouco que se tem nas cenas é tão evidente que é como se Ruy quisesse se retratar. Como quem diz: desculpe se a atuação ficou uma droga.

 

3: Outro trecho de Thiago: “O resultado primoroso é uma câmera na mão que passeia sem cortes entre os personagens(…)”. Eis o problema de se usar adjetivos (coisa que detesto fazer). O primoroso, aqui, não passa de cacoete. A câmera na mão não tem função como nenhum dos outros elementos. Se a mise en scène se dá quando os elementos do filme entram em sintonia, isso não existe nesse filme.

 

4: Por fim, Ruy diz: “(…)é muito difícil hoje fazer um filme político. Todos os esquemas narrativos me parecem velhos, artificiais, desinteressantes”. O primeiro passo para se fazer um filme político é tentar fazê-lo. Aqui não houve nenhuma intenção nesse sentido. Sobre o desprezar toda a história dos “esquemas narrativos”, é sinal que não soube tirar proveito das possibilidades. Quanto aos adjetivos  que usou, são os mesmos a serem aplicados em seu filme. “Quase memória” parece velho, artificial e desinteressante, por mais que queira se passar por moderno (os cenários kitsch não enganam).

Quase Memória

 

 

 

 

 

Desperdício de trabalho, talento, dinheiro e tempo.

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