3 artigos recentes sobre feminismo e luta social

Palavras chave: Feminismo, sufragistas, voto, Mulher, direito, democracia, Reino
Unido, Luta, jiu-jitsu, repressão, Mulheres Negras, Negro, movimento social, dandara,
racismo, repressão, mobilização, reparação, cotas, Irã, Iraniana, sanções econômicas,
educação, machismo, oriente médio, islã

1 – Dandaras rebeladas

As mulheres negras estão prontas para escrever um novo capítulo em sua história de
lutas em 2016. O afrontamento ao racismo segue em conversas nas ruas, rodas nos
terreiros e quilombos, encontros nas universidades, produções nos estúdios, rimas no
palco e ações nas redes sociais

por Daniela Luciana da Silva e Juliana Cézar Nunes

A diretora da ONG Criola (RJ), Jurema Werneck, enxerga “novas pontes estendidas entre
nós que estamos na luta em diferentes campos, novas aproximações, novas possibilidades
de termos uma agenda convergente e potente”. É uma visão que converge com a da
ativista e publicitária baiana Larissa Santiago, integrante do Blogueiras Negras,
criado em 2003: “Acreditamos que 2016 será o ano de refazer os laços entre nós e entre
os outros que acreditam nas mudanças e na revolução capitaneada pela mulher negra”.

Este momento de renovação e confiança na construção de alianças decorre também da
construção coletiva da Marcha das Mulheres Negras, realizada em 18 de novembro de
2015, em Brasília. Uma contundente mostra do potencial de articulação e incidência das
herdeiras de Dandara e tantas outras anônimas guerreiras, heroínas do cotidiano que
não estão nos livros de História oficial.

Cerca de 50 mil mulheres negras de todo o país atravessaram o ano de 2015 em
preparação conjunta para estar em Brasília. Elas ocuparam as ruas da capital para
representar com seu corpo e alma os 48,6 milhões de mulheres negras brasileiras, cerca
de 25,5% da população brasileira (IBGE).

Numa vitoriosa ocupação marcada pelo compartilhamento, afirmação, capacidade de
organização e força de mobilização, essas negras brasileiras mostraram à sociedade e
aos governos a concretude de outra face. Uma imagem muito distante do estereótipo de
submissão e subalternidade que insistem em nos imprimir.

Tambores ancestrais e virtuais

Para Valdecir Nascimento, do Instituto Odara (BA), este é um momento-chave, pois as
mulheres negras brasileiras estão mobilizadas. “Precisamos multiplicar e mantê-las
atuando em seus estados, municípios, povoados e em todo e qualquer lugar com
instrumentos mais efetivos, mais informações e uma rede nacional que possa orientá-las
e mobilizar outras organizações em apoio às variadas demandas”, reforça Valdecir.

A baiana acredita que o caminho é atuar coletivamente e responder imediatamente.
Construir orientações nacionais para os diversos casos e agir em bloco, definir as/os
parceiras/os, além de estratégias de aproximação com os diversos movimentos sociais,
construir acordos e pactos comuns. “Quem são os parlamentares e as parlamentares
aliados, mas aliados mesmo? Temos cartas na manga, 2016 é ano eleitoral, precisamos
pontuar nossas demandas inegociáveis”, finaliza.

O Instituto Odara coloca a circulação de informações e notícias como uma das metas
para 2016, com a aplicação do Projeto da Agência de Comunicação Popular do Odara,
impulsionando jovens negras a construir uma comunicação para a difusão do conhecimento
produzido pelas organizações de mulheres negras; e a difusão de campanhas contra a
violência doméstica, o genocídio da população negra e outros temas e situações de
interesse do segmento.

Nessa seara, também integra os planos do Instituto Odara a execução do projeto “Minha
mãe não dorme enquanto eu não chegar”, uma ação direcionada para as mães dos jovens
assassinados pela polícia e pelo tráfico. Essa é uma preocupação que se identifica de
norte a sul do país entre as mulheres negras entrevistadas.

Gaúcha radicada em Salvador, a jornalista e produtora cultural Camila Moraes, 28 anos,
criadora da revista eletrônica Acho Digno, tem como um dos desafios para 2016 retratar
nos cinemas “O caso do homem errado – Júlio César”. Júlio foi um operário executado
por policiais na década de 1980 em Porto Alegre. Inocente, recebeu a sentença de
culpado por assalto e acabou condenado à morte dentro de um camburão. Passado e
presente. É contra o direito de matar pessoas negras que as mulheres também continuam
em marcha. Contra a chacina de Cabula, contra o extermínio diário de jovens negros em
capitais como Rio de Janeiro, São Paulo, Belém, e que acontece também no interior,
contra a morte de lideranças quilombolas, contra a violência cotidiana que mata e
encarcera mulheres negras.

“Não deixaremos mais nossa juventude negra ser morta. Iremos retratar ‘O caso do homem
errado’ para que haja uma reflexão da sociedade de que, quando mata um jovem negro,
extermina uma família, uma comunidade, uma população. Para continuarmos vivos e não
apenas sobrevivendo neste país, permaneceremos em estado de vigília, nos aliando entre
nós”, avisa Camila.

Para ela, a “rede nagô” formada por mulheres e homens negros já permite que o tambor
batido no Sul seja escutado no Norte, e vice-versa. Eventos de mulheres negras, como o
Festival Latinidades, e de cinema, como o Fórum Itinerante de Cinema Negro (Ficine),
mostraram o desabrochar de jovens flores negras na área do audiovisual, produzindo
filmes com a temática negra, nos colocando no telão e nos representando de forma bela
e digna.

“Comunicadoras negras tiveram seus trabalhos reconhecidos pela mídia e por uma parcela
da população. Entre alguns nomes de destaque estão Luciana Barreto, Maria Júlia
Coutinho, Maíra Azevedo, Mônica Santana e outras que ainda irão aparecer”, elenca
Camila. “Com isso, verificamos o quanto representatividade importa, sim. Percebemos
como é bom ter espelhos dentro e fora de casa para serem seguidos.”

Olho no olho

A comunicação também é a trincheira de Larissa Santiago, do Blogueiras Negras. A
integração entre os espaços virtuais e presenciais constitui meta da ação do grupo,
que publica textos de mulheres de todo o país. Embora a organização tenha se iniciado
no ambiente virtual, uma das estratégias das blogueiras é fortalecer o contato direto
neste ano. Para Larissa, é fato que precisamos alcançar mais e mais mulheres negras, e
a sociedade civil como um todo. Por isso, entre as estratégias estão a materialização
de trabalhos, o foco em ações off-line e o fortalecimento da comunidade por meio de
experiências coletivas presenciais.

“Tivemos um imenso baque no que se refere à presença do Estado junto às demandas das
mulheres negras: desfazer a Secretaria de Igualdade Racial, das Mulheres e Direitos
Humanos para acoplá-la num ministério onde essas políticas se misturam nos parece
bastante sintomático”, aponta a blogueira, para quem as mudanças mostram o quanto o
conservadorismo político tem contribuído para retrocessos. “Temos avanços? Lógico, mas
essas jogadas políticas nos dizem qual é nosso lugar e que precisaremos resistir e
lutar muito mais para sermos ouvidas e termos nossas propostas concretizadas.”

A declaração do Decênio dos Afrodescendentes pela ONU, Anistia Internacional e a
articulação com a Rede de Mulheres Afro-Latino-Americanas do Caribe e da Diáspora são
vistas por Larissa como importantes parcerias para as mulheres negras brasileiras. As
organizações internacionais ajudaram a dar visibilidade a uma série de violações de
direitos, inclusive durante a ocupação das escolas públicas em São Paulo, quando
mulheres e adolescentes negras foram protagonistas das mobilizações e sofreram
repressão policial.

Entre as parcerias internacionais, a ativista Jurema Werneck, da Criola, destaca
também a Associação Mulheres e Desenvolvimento (Awid, na sigla em inglês), que
organizou e liderou uma delegação internacional de ativistas negras para a Marcha das
Mulheres Negras, com representantes de diferentes países da África, Caribe e Américas.
Em maio, na Bahia, a Awid vai promover um fórum com o tema “Futuros feministas:
construindo poder coletivo em prol dos direitos e da justiça”.

Médica de formação e pós-graduada em Comunicação e Cultura, Jurema e outras ativistas
negras do Rio de Janeiro fundaram há 23 anos a Criola para promover o empoderamento
político de mulheres negras e fomentar ações em defesa de direitos. Elas levaram suas
ações para o âmbito nacional em contato com outras organizações de mulheres negras,
como a Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), da qual são integrantes.

No cotidiano, as mulheres da Criola têm se voltado tanto para o combate das violências
cometidas nas redes sociais, com o lançamento da campanha contra o racismo virtual
(www.racismovirtual.com.br), como para o amparo a mulheres que sofrem violência nas
ruas. “A mãe de um dos cinco meninos metralhados pela polícia em dezembro no Rio de
Janeiro já tentou suicídio três vezes. É essa dor! Os racistas, fascistas, LGBTfóbicos
estão nas ruas descaradamente, e seus crimes compensam para eles e seus grupos”,
denuncia Jurema.

Reparação

A doutora em Direito Ana Luiza Flauzina afirma que, ao longo da história do Brasil, o
lugar do Estado não tem sido o de aliança, e sim de vilipêndio da população negra e
das mulheres negras, em especial. Ana Luiza considera que as políticas pontuais ainda
não podem ser consideradas um avanço, até porque nos momentos de “crise” são as
políticas públicas voltadas a essa população que desaparecem do mapa.

“Estamos num processo de extermínio sistemático da juventude negra, de encarceramento
em massa das mulheres negras, de interdição do exercício pleno da liberdade de culto
com vilipêndio das religiões de matriz africana, ou seja, o genocídio está com as
baterias aquecidas”, alerta a pesquisadora e fundadora da Brado, empresa voltada para
a produção de conteúdos de interesse da população negra, com foco na produção
audiovisual e na edição de livros.

O combate ao racismo acadêmico e à invisibilidade do pensamento de mulheres e homens
negros guia o próximo ciclo de ações de Ana Luiza e da Brado. Ela acredita que as
mulheres negras brasileiras estão num momento de amadurecimento político ímpar e são
atores políticos cientes de seu papel na articulação das mudanças na estrutura social
brasileira.

“Estamos vocalizando nossas potencialidades em primeira pessoa. Apesar de há muito
estarmos cientes de nossa condição específica enquanto grupo social vulnerabilizado no
Brasil, reunimos agora a capacidade política de dar visibilidade a essas demandas,
articulando questões que envolvem as pautas feministas, negras e LGBT”, avalia Ana
Luiza.

Essa capacidade política de articulação está presente em organizações de mulheres
negras de todas as regiões do país. No Ceará, mais exatamente no Cariri, as mulheres
negras do Pretas Simoa trabalham diversidade religiosa negra, fortalecimento de
identidade, empoderamento de trabalhadoras domésticas e divulgação do hip hop. O grupo
presta homenagem à Tia Simoa, que lutou pela abolição e liderou greves de jangadeiros
cearenses ainda no século XIX.

A bibliotecária Dávila Feitosa, integrante do Pretas Simoa, lamenta que a todo
instante seja necessário voltar à estaca zero do debate para contar desde o princípio
a história das mulheres negras no Brasil e nas Américas. No âmbito regional, inserir
as demandas nas agendas de governos, universidades e partidos políticos tem demandado
um enorme esforço das organizações locais.

A reivindicação por creches públicas também faz parte dessa pauta. “Vemos a
necessidade, por exemplo, da partilha da maternidade das mulheres pobres (em sua
maioria mulheres negras) com o governo, propiciando o tempo necessário para que essas
mulheres possam se dedicar à sua vida profissional e acadêmica”, ressalta Dávila. “O
que nos motiva são as gerações de guerreiras anônimas que resumimos em nossas veias;
espelhos que nos permitem ter orgulho do nosso próprio reflexo; e armaduras que
permitem às nossas próximas gerações combater o racismo, o machismo e a homofobia com
dignidade.”

Racismo

A rima de resistência é o que move a Frente Nacional de Mulheres do Hip Hop (FNMH2).
Uma de suas articuladoras, a rapper Vera Veronika, conta que as ações para 2016 são
baseadas nas lutas diárias das mulheres da Cultura Hip Hop. Combate ao fim de todas as
formas de violência contra as mulheres e ao genocídio de jovens está na agenda
prioritária. A frente também apoia apresentações culturais e organiza o Encontro
Nacional das Mulheres do Hip Hop. O trabalho tem inspirado batalhas, slams e grupos de
todo o país. Meninas negras que descobriram no hip hop uma forma de se afirmar e se
fortalecer.

“Várias instâncias governamentais têm apoiado e visibilizado a luta das mulheres
negras; contudo, temos muito a avançar quando as políticas públicas destinadas às
mulheres se tornam gerais ou genéricas. Não temos políticas efetivas para as mulheres
negras quilombolas e de matriz africana; isso nos distancia das ações afirmativas e
nos remete a um retrocesso indenitário”, frisa Veronika, que mora em Valparaíso de
Goiás e transita entre o Entorno e o Distrito Federal, região em que o racismo e o
ódio religioso têm violentado várias mulheres negras.

Em dezembro, o Ilê Axé Oyá Bagan, no Paranoá, amanheceu em chamas. A líder religiosa
do terreiro, Mãe Baiana, acusa grupos racistas pelo incêndio, que colocou abaixo o
barracão onde eram realizadas as principais cerimônias do terreiro. O atentado motivou
a criação de um movimento em favor da instalação de delegacias especializadas nesses
crimes. O Distrito Federal já inaugurou sua primeira unidade, sob protesto de
policiais que alegam falta de pessoal para a nova delegacia.

“Precisamos conversar muito com os servidores para que eles entendam a importância
dessa iniciativa. Vivemos sob ameaça. E o Estado brasileiro não pode admitir isso”,
defende Mãe Baiana. Integrante da Rede de Saúde Afrodescendente (Renafro), a religiosa
também espera uma ação mais efetiva de saúde pública nos terreiros em 2016. “Os
agentes de saúde dizem que não podem entrar no terreiro porque a religião deles não
permite. Agora a religião deles permite que o mosquito da dengue pique nossos filhos,
pique nosso povo e bote em cima de uma cama? A dor que é lá é cá, o mosquito que pica
lá pica cá.”

Além da saúde pública, outro campo de batalha das mulheres negras é a educação e o
trabalho. As cotas nas universidades foram consideradas constitucionais pelo Supremo
Tribunal Federal, mas os estudantes negros ainda sofrem preconceito de colegas e
professores nos campi universitários.

O governo determinou cotas nos concursos públicos, mas alguns juízes têm dado
sentenças contrárias a essa política. Empresas assinam termos de ajustamento de
conduta com o Ministério Público para garantir a diversidade em seus quadros e cargos
de chefia, mas seguem com o padrão estético branco como pré-requisito de conceitos
como credibilidade e boa aparência.

Diante desse contexto, o Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades
(Ceert) atua para tentar garantir equidade no mercado de trabalho e no acesso à
justiça. A doutora em Psicologia Cida Bento está à frente desse projeto e, por meio
dele, já recebeu reconhecimento internacional. Foi considerada pela revista The
Economist uma das cinquenta profissionais mais influentes do mundo no campo da
diversidade.

“Nossa estratégia é fomentar o debate público, ao ampliar e compartilhar perspectivas
e informação (vídeos, publicações, encontros) para fortalecer vozes, disseminar
questões e ampliar a incidência das ações, particularmente no âmbito das políticas
públicas”, aponta Cida.

“Este momento é rico, fértil e desafiante, e construir uma verdadeira solidariedade
entre nós, mulheres negras, é o grande desafio. Saber costurar o convívio e a ação
conjunta entre as do ‘nosso grupo’ e as que ‘não são do nosso grupo’. Solidariedade
tem de ser o coração de nossa ação, como nos ensinou Lélia Gonzalez.”

Daniela Luciana da Silva e Juliana Cézar Nunes

*Daniela Luciana da Silva e Juliana Cézar Nunes são jornalistas e integrantes da
irmandade Pretas Candangas e da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial
(Cojira-DF).

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2 – As sufragistas e o jiu-jítsu

Na aurora do século XX, o combate das sufragistas britânicas pela igualdade cívica
coincidiu com a introdução das artes marciais japonesas na Europa. Como frequentemente
a história ultrapassa a ficção, essa concomitância permitiu abalar – de fato – o
Estado patriarcal

por Daniel Paris-Clavel

Dirigido por Sarah Gavron com um roteiro de Abi Morgan, o longa-metragem britânico As
sufragistas estreou em novembro de 2015.1 Mesmo que tenha o mérito de existir e ser
muito bem interpretado, pode decepcionar os apreciadores de uma utilização dinâmica do
cinema a serviço de um assunto igualmente dinâmico.

Partindo da politização de uma jovem operária, o filme revisita algumas das ações
marcantes realizadas no período de 1913 pelas militantes a favor do direito de voto
das mulheres. Infelizmente, como a mistura dos gêneros cinematográficos parece
decididamente tabu, a retenção chorosa do “drama social” ganha da real exuberância dos
fatos históricos, que só poderiam existir num filme de ação.

Isso porque, para conquistar seus direitos, essas avós do Movimento pela Liberação das
Mulheres (MLM) dos anos 1970 tiveram de bater nos locais certos, o que lhes permitiu
não apenas conquistar em 1918 o direito de voto para 8 milhões de inglesas com mais de
30 anos (e depois, em 1928, para todas as maiores de idade), mas também redefinir a
relação das mulheres com a violência política e doméstica. Isso nos faz sonhar com uma
nova adaptação para o cinema, com Gina Carano e Ronda Rousey – atrizes e campeãs de
Mixed Martial Arts (MMA) – como sufragistas realmente de choque…

Vamos recordar alguns fatos. Em 1903, Emmeline Pankhurst (1858-1928), cansada dos
movimentos não violentos das organizações sufragistas, criou a Women’s Social and
Political Union (WSPU) com duas de suas filhas, Christabel (1880-1958) e Sylvia (1882
-1960). Ao cuspir em um policial, a primeira inaugurou em 1905 a série de prisões
arbitrárias que visariam a família Pankhurst e as militantes da WSPU.

A Union ficou rapidamente conhecida, com Emmeline Pankhurst pregando desde 1910 a ação
direta a fim de chamar a atenção, principalmente depois do “Black Friday”, uma
manifestação feminista reprimida pela polícia com uma violência impressionante.
Aquelas que as mídias nomeariam de “sufragistas” passaram então a atacar a sacrossanta
propriedade privada, quebrando janelas, incendiando algumas chácaras ricas, devastando
os terrenos de golfe e os jardins botânicos reais.

Esse vandalismo assumido, que misturava desobediência civil e sabotagem, não era nada
diante da violência masculina cotidiana: exiladas até em seus lares e locais de
trabalho, as militantes eram insultadas na rua; jogavam pedras nelas, quando se
manifestavam, e os homens chegavam a subir nos palanques dos encontros para bater nas
oradoras, debaixo dos olhares insolentes dos policiais que esperavam para ocupar seus
lugares. E, quando as militantes aprisionadas seguiam a orientação de uma greve de
fome sistemática para reclamar o status de prisioneiras políticas, elas eram
alimentadas à força…

Preocupadas com o número cada vez maior de cidadãos (masculinos) tocados por essas
torturas, as autoridades editaram em 1913 o Cat and Mouse Act: as grevistas de fome
eram liberadas quando seu estado estava muito degradado e depois presas novamente uma
vez que estivessem restabelecidas… Para as sufragistas, tornou-se imperativo impedir
esse cruel jogo de gato e rato, que visava abertamente decapitar o movimento. Foi aí
que os samurais intervieram.

O jiu-jítsu, literalmente “arte da flexibilidade”, utiliza a força do adversário
contra ele mesmo, o que torna possível acabar com um oponente fisicamente mais forte.
Desenvolvido pelos samurais do Japão feudal como uma técnica de combate sem armas, ele
deu origem ao judô, ao aikidô e, mais recentemente, ao jiu-jítsu brasileiro. Em 1898,
um certo Edward William Barton-Wright (1860-1951) introduziu a arte no Reino Unido,
depois de tê-la estudado no Japão. Ele se serviu dela como base para seu próprio
“bartítsu” (a partir de seu sobrenome), um ancestral do MMA moderno que combina jiu-
jítsu, boxe inglês, savate e luta. Aberta em 1900 no Soho, sua escola atraiu diversos
alunos – soldados, aristocratas… Ela empregava professores renomados como o francês
Pierre Vigny, que ensinava savate e bastão de combate, e cuja futura esposa,
Marguerite, desenvolveria alguns anos depois uma impressionante técnica de autodefesa
com um guarda-chuva. Mas, sobretudo, a escola se beneficiava da preciosa presença de
dois mestres japoneses, Yukio Tani (1881-1950) e Sadakazu Uyenishi (1880-?).

Depois de uma demonstração pública que os fascinou, Edith e William Garrud, um casal
de professores de musculação, se inscreveram imediatamente na escola de Barton-Wright.
Em 1903, quando esta fechou as portas, eles acompanharam Uyenishi, que fundou sua
escola (School of Japanese Self-Defense), e ficaram com o estabelecimento quando o
mestre voltou para o Japão. Edith Garrud (1872-1971) ensinava o jiu-jítsu para
mulheres e crianças. Paralelamente, ela abriu no East End londrino um dojo (sala de
treinamento) reservado para a instrução das sufragistas da WSPU e da Women’s Freedom
League, nascida em 1907 de uma cisão da primeira.

Para uma mulher, nessa época, praticar um esporte já era um ato político. Edith Garrud
era ainda por cima uma militante feminista; do alto de seu 1 metro e meio, aquilo que
ela mais amava era provar a superioridade da agilidade sobre a força bruta ao longo
das demonstrações que a opunham de brincadeira a um figurante fantasiado de policial.
Ela promoveu a autodefesa feminina não apenas por meio de seus cursos, mas também
aparecendo no primeiro filme de artes marciais inglês (Jiujitsu Dows the Footpads,
1907), criando uma peça de teatro cômica contra a violência conjugal (What Every Woman
Ought to Know, “Aquilo que toda mulher deveria ousar saber”, 1911) e escrevendo
artigos, principalmente para a Votes for Woman, o jornal da WSPU. Enfim, ela escalou
os muros da prisão de Holloway para cantar ali em voz alta em apoio às sufragistas
encarceradas.

Em 1913, diante da amplitude da repressão, simbolizada pelo Cat and Mouse Act, Sylvia
Pankhurst exortou a WSPU a criar um “serviço de segurança”, encarregado de proteger as
manifestantes das forças da ordem. Assim nasceu o Bodyguard, um grupo de cerca de
quarenta mulheres treinadas por Edith Garrud, que instalou esconderijos de armas sob
os tatames de seu dojo. Encabeçando o grupo se encontrava Gertrude “Gert” Harding
(1889-1977), canadense que chegou a Londres em 1912 e ficou célebre por ter arrancado
as orquídeas dos jardins botânicos reais – uma realização inicialmente atribuída a
homens pelas autoridades, incapazes de conceber que uma mulher pudesse ter escalado os
muros de proteção.

Dissimulando sob os vestidos tijolos, bastões de ginástica e cassetetes subtraídos dos
policiais, os membros do Bodyguard protegiam as manifestações e os encontros,
rivalizando em coragem e engenhosidade para contrabalançar sua inferioridade numérica.
Ninguém contabilizava mais as fraturas, feridas e inchaços nas fileiras. Elas
planejavam itinerários e soluções de fuga. Muitas delas se fantasiavam, por exemplo,
de sósias das sufragistas procuradas pelos policiais, como Emmeline Pankhurst, para
fazê-los se perder na saída de um encontro.

A imprensa, que noticiava rapidamente suas conquistas, as apelidou de “amazonas” ou
“sufrajítsu”, enquanto o governo se desesperava diante dessas mulheres que
ridicularizavam a autoridade ao arrancar os suspensórios dos policiais. “No que diz
respeito às nossas combatentes”, escreveu Emmeline Pankhurst em uma homenagem às suas
protetoras, “elas estão em plena forma e têm muito orgulho de suas conquistas […]
Nossa camarada que teve a cabeça aberta recusou que lhe dessem pontos porque queria
manter a cicatriz o mais visível possível. O verdadeiro espírito da guerreira!”2

Por sua vez, a polícia aprendeu de vez em quando a ser esperta. Em 1913, ela prendeu
Emmeline Pankhurst, que retornava de uma viagem aos Estados Unidos, no próprio barco,
a fim de evitar qualquer intervenção do Bodyguard que a esperava no porto. Mas, na
maior parte do tempo, os bobbies se contentavam em atacar, com o cassetete em punho,
contando com seu número e sua brutalidade. Como durante a “batalha de Glasgow”, em
1914: em um encontro da WSPU na Escócia, Emmeline Pankhurst enganou a vigilância
policial se fazendo passar por uma simples espectadora; mas, quando se dirigiu ao
palanque, cinquenta policiais se lançaram sobre ela, defendida por trinta membros do
Bodyguard, sob os olhares chocados de 4 mil espectadores. A violência e a
arbitrariedade da prisão, mesmo em um encontro autorizado, fizeram muitos indecisos se
unirem à causa sufragista.

Depois da entrada do Reino Unido na guerra contra a Alemanha, Emmeline Pankhurst
escolheu interromper as ações da WSPU, dissolver o Bodyguard e chamar as inglesas a
apoiar o esforço de guerra nacional. A decisão, que visava destacar o papel das
mulheres como cidadãs, para assentar a legitimidade de suas reivindicações cívicas,
traria seus frutos em 1918, mas provocou o desentendimento definitivo entre Sylvia
Pankhurst – que se uniu às comunistas que se opunham à guerra – e a mãe. Cada vez mais
assustada pela perspectiva de uma revolução comunista, esta última acabaria se unindo
ao Partido Conservador. Edith Garrud, por sua vez, continuaria até 1925 a dar aulas de
jiu-jítsu com o marido, fortalecida pelo status de primeira mulher ocidental
instrutora de artes marciais.

Do outro lado do Canal da Mancha, as “jiujitsufragistas” intrépidas marcaram alguns
espíritos, entre os quais o de Madeleine Pelletier (1874-1939), primeira mulher
psiquiatra e militante socialista libertária. Depois de ter ido em 1908 a uma
manifestação de sufragistas londrinas, Pelletier defendeu em seu jornal, o La
Suffragiste, o ativismo contundente de suas irmãs: “É claro que quebrar uma janela não
é um argumento; mas, se a opinião, surda aos argumentos, só é sensível às janelas
quebradas, o que fazer? Quebrá-las, evidentemente”.

Esse espírito foi encarnado de maneira notável, em um contexto completamente
diferente, pela poeta Qiu Jin (1875-1907), a “primeira feminista chinesa”, que militou
principalmente contra a tradição dos pés enfaixados. Ela aprendeu as artes marciais
chinesas e japonesas para preparar a insurreição contra a dinastia Manchu. Ensinando
musculação nas escolas de meninas, as quais acabou orientando para o manejo de armas,
ela provocou escândalo ao exortar suas alunas a aprender uma profissão. Foi decapitada
por tentativa de golpe de Estado em 1907.3

Porque sabiam que os oprimidos são sempre os primeiros a pagar quando algo dá errado,
essas pioneiras da autodefesa social e feminista ousaram redefinir a feminilidade em
função de suas necessidades reais. Por meio da prática do jiu-jítsu, as sufragistas
anteciparam a advertência dada pela socióloga e formadora austríaca Irene Zeilinger em
seu Pequeno manual de autodefesa para uso de todas as mulheres que estão cansadas de
ser assediadas sem dizer nada: “O agressor decide que haverá violência; a nós cabe
decidir contra quem essa violência será dirigida”.4

Daniel Paris-Clavel

*Daniel Paris-Clavel é criador e animador da revista ChériBibi, consagrada às culturas
populares (www.cheribibi.net)
1 Em cartaz no Brasil desde 24 de dezembro de 2015.

2 Citado em Tony Wolf, Edith Garrud: The Suffragette Who Knew Jujutsu [Edith Garrud: a
sufragista que sabia jiu-jitsu], Lulu.com, 2009. Cf. também o romance gráfico
Suffrajitsu: Mrs. Pankhurst’s Amazons [Sufrajítsu: amazonas da sra. Pankhurst], de
Tony Wolf e João Vieira, Jet City Comics, Tacoma (Washington), 2015.

3 Cf. Suzanne Bernard, Qiu Jin. Féministe, poète et révolutionnaire [Qiu Jin.
Feminista, poeta e revolucionária], Le Temps des Cerises, Montreuil, 2006.

4 Irene Zeilinger, Non c’est non [Não é não], Paris, 2008.
04 de Fevereiro de 2016

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3 – Nada detém as iranianas

O respeito do Irã ao Tratado sobre a não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) traz
consigo a suspensão progressiva das sanções internacionais. A abertura comercial e
suas repercussões políticas influenciarão as eleições legislativas de fevereiro.

por Florence Beaugé

Um grupo de garotas adolescentes entra rindo no vagão e se acomoda alegremente no
chão, já que não há lugares livres. Com os solavancos do trem, seus véus deslizam
sobre os ombros, descobrindo o cabelo. Mas não importa: aqui só há passageiras. No
metrô de Teerã, que começou a funcionar no final dos anos 1990, os vagões do início e
do fim das composições são reservados às mulheres. Elas viajam neles “para ficar
sossegadas”, dizem. O ambiente é descontraído. Os outros vagões são mistos. Jovens
casais entram de mãos dadas, sem problemas.

Moderno e limpo, o metrô de Teerã permite ao mesmo tempo escapar da poluição e dos
congestionamentos. Hoje há cinco linhas em serviço. As estações desfilam à nossa
frente, batizadas com os nomes dos “mártires” da guerra contra o Iraque (1980-1988). O
conflito, que fez quase meio milhão de mortos, acabou há 27 anos, mas o poder nunca
para de cultivar sua memória.

O metrô ilustra as contradições da República Islâmica. Nele se encontram lado a lado
roupas elegantes, de cores vivas, e trajes comuns surrados. Em média, cinco xadores
pretos e severos – a vestimenta obrigatória para os funcionários da administração –
para cada dois véus coloridos. Nenhuma pessoa hermeticamente coberta. E algumas cenas
inesperadas: vendedoras ambulantes oferecem sutiãs, calcinhas, bolsas…

Trinta e seis anos após a Revolução Islâmica, apesar da legislação que lhes confere
menos direitos do que aos homens, as mulheres desempenham um papel importante no Irã.
Elas estão presentes em todos os setores, embora a maioria dos altos cargos da
administração ainda lhes seja vedada. Em virtude de uma leitura estrita do Corão, elas
não podem ser juízas em pé de igualdade com os homens nem interpretar os textos
sagrados, mesmo se chegarem ao nível de aiatolá (o mais alto escalão do clero xiita).
Mas podem ser arquitetas, empresárias, ministras… O Parlamento do país tem nove
deputadas (todas conservadoras), e uma primeira embaixadora acaba de ser nomeada: em
novembro de 2015, Marzieh Afkham assumiu seu posto em Kuala Lumpur. Nada é fácil: as
mulheres precisam lutar para se impor e para ter seus direitos reconhecidos,
principalmente em um país onde sofrem discriminações em todos os níveis.

Para se casar, trabalhar, viajar, abrir uma conta bancária ou receber uma herança,
elas estão sujeitas a leis iníquas e dependem da boa vontade do chefe de família. Para
se divorciar, por exemplo, a esposa, ao contrário do marido, precisa explicar sua
decisão perante o juiz e aguardar a autorização. As crianças ficam sob sua guarda até
os 2 anos de idade, no caso dos meninos, e até os 7, no caso das meninas. Depois a
guarda passa para o pai, a menos que este a recuse. Quanto à autoridade parental, ela
retorna ao pai, mesmo que as crianças vivam com a mãe. “Na lei, o homem é rei”, resume
Azadeh Kian, professora de Sociologia Política.

Escolarização, a maior conquista da revolução

Os dados oficiais subestimam o trabalho das mulheres: apenas 14% teriam emprego. Na
realidade, considerando-se o trabalho clandestino e a agricultura, entre 20% e 30% das
mulheres exercem uma atividade regular. E isso é apenas o começo. A demanda feminina
para integrar o mercado de trabalho aumenta rapidamente. Nas universidades, 60% dos
estudantes são mulheres. “Elas venceram a batalha pela licenciatura e o mestrado. Em
breve ganharão a do doutorado”, prevê o antropólogo Amir Nikpey. Para ele, as
iranianas estão quase na situação das francesas da década de 1940 e 1950: presentes em
toda parte no espaço público, mas sem poder real, com poucas exceções, e normalmente
no nível mais baixo do ponto de vista econômico.

Ano após ano, elas conquistam novos bastiões. “É o país que forma o maior número de
engenheiras”, destaca Kian, antes de lembrar que Maryam Mirzakhani, a primeira mulher
a ganhar a Medalha Fields (equivalente ao Prêmio Nobel de Matemática), em 2014, era
iraniana. “Nas províncias do Sul, particularmente no Baluquistão, predominantemente
sunita [ao passo que o Irã é 90% xiita], a cultura árabe, mais machista, prevalece. Há
inclusive muitos casos de poligamia, enquanto os iranianos são geralmente monogâmicos.
Mas, também lá, o papel das mulheres está crescendo. É uma evolução global da
sociedade”, indica Thierry Coville, economista. “A mudança mais notável no Irã é a
tomada de consciência da importância da educação como meio de conquistar a
independência”, confirma Kian.

Muita gente não sabe, mas a escolarização das meninas foi certamente a principal
conquista da Revolução Islâmica, em 1979. “Paradoxalmente, as famílias tradicionais
aceitaram isso, afinal se tratava da República Islâmica! Quando vou às aldeias
remotas, os homens me dizem: ‘O aiatolá Khomeini mandou as mulheres para o front e as
meninas para a escola. Eu faço o mesmo!’”, explica a socióloga da religião Sara
Shariati, professora da Universidade de Teerã.

Primeira consequência: as mulheres se casam mais tarde e, principalmente, têm em média
apenas dois filhos, contra sete nos primeiros anos da Revolução Islâmica, marcada por
uma política natalista. As autoridades vêm frequentemente a público lembrar que seria
melhor haver 100 milhões de iranianos do que os atuais 78 milhões, mas as mulheres
fingem não ouvir.

“Mesmo durante os anos Ahmadinejad,1 não voltamos atrás. Continuamos avançando, como
um carro que anda com os faróis apagados à noite”, brinca Shahla Sherkat, diretora da
revista feminina Zanan Emrouz. Sua publicação sofreu uma suspensão de seis meses por
ter dedicado um número a um tema “quente”: a união livre. Seriam várias dezenas de
milhares de pessoas em Teerã vivendo em concubinato. A união livre difere do
“casamento temporário”, permitido pelos xiitas, embora malvisto e pouco praticado no
Irã. “Evitamos fazer julgamentos em nossa reportagem; de maneira alguma encorajamos a
união livre e até alertamos sobre seus riscos”, argumenta Sherkat. Mas os
conservadores protestaram, e a sanção foi aplicada.

Quando a diretora da Zanan Emrouz foi convocada pela justiça, foi primeiro acusada de
ser “feminista” – um insulto no Irã. Para se defender, afirmou estar apenas
“refletindo a realidade” da sociedade iraniana. Em vão. “O problema no Irã é que as
instituições e os homens pensam que, se reivindicarmos nossos direitos, acabaremos
negligenciando nossos papéis de mãe e esposa”, suspira.

Art Up Man é um café badalado no centro de Teerã. A capital tem muitos lugares da
moda, aonde os jovens vão para “descontrair”, como diz uma estudante de Direito,
mostrando o cigarro. Moças e rapazes conversam em pequenas mesas, enquanto teclam em
seus smartphones. De fundo, canções de Elvis Presley. Yeganeh K., estudante de
Microbiologia, com os lábios cor de framboesa e as unhas pintadas de preto, diz alto e
claro que o regime não é “digno de confiança” e que é preciso “mudar tudo, a começar
pelo nome ‘República Islâmica’”. As eleições legislativas do dia 26 de fevereiro só
lhe inspiram desdém. “Em outros lugares, é possível escolher seus representantes. Aqui
não. Há sempre alguém que tem direito de observar tudo e que nos ‘guia’! Para mim,
parece a Coreia do Norte!”, reclama.

Seus amigos se assustam. Rahil H., com penteado punk, protesta: “Absolutamente não!
Aqui as pessoas são livres, apesar do aspecto policial do regime. Não temos muita
liberdade de expressão ou de vestimenta, mas, no resto, fazemos o que queremos!”.
Sorrosh T., com os óculos de sol colocados sobre o véu para mantê-lo no lugar,
intervém: “Não são estranhas todas essas proibições. Toda vez que eu saio, meus pais
me dizem: ‘Cuidado!’. Não é que aprovem, mas para eles é preciso levar em consideração
a sociedade, o sistema”. Uma coisa irrita essa garota mais que tudo: “Aqui, as pessoas
têm sempre o direito de observar o que você faz”.

O véu está longe de ser a principal preocupação das iranianas. “É assim”, dizem,
convencidas de que não vale a pena se aborrecer por tão pouco. O desemprego, a
inflação e o exame de admissão para a universidade preocupam muito mais.

Todos os dias, Yeganeh K. diverte-se com suas amigas contornando as regras impostas
pelo poder, como se brincasse de gato e rato. No verão, usa sandálias que permitem ver
seus pés e tornozelos, e pinta as unhas com cores vibrantes, tudo estritamente
proibido. No inverno, veste sapport, uma calça justa e grossa sobre a qual coloca uma
saia curta. Se adicionar à composição um par de botas de cano alto, ela corre sérios
riscos de ser repreendida pela polícia de costumes, que patrulha as esquinas e os
centros comerciais do norte da capital, onde a juventude descolada gosta de passear.
“Um dia, fui levada para a delegacia. Fui fotografada, pegaram minha identidade e me
disseram: ‘Se fizer isso de novo nos próximos dois meses, você será fichada!’”, conta
morrendo de rir. Ela sonha sair desse ambiente sufocante. Se tivesse oportunidade,
iria embora para a Europa ou os Estados Unidos sem pestanejar.

Já Behnaz Shafie escolheu “ficar e agir”. Pequena, franzina, muito feminina e muito
maquiada sob o véu, ela é, aos 26 anos, a primeira mulher a obter autorização para
pilotar motocicleta profissionalmente. Enquanto as mulheres não são autorizadas nem a
entrar nos estádios para assistir a competições de futebol disputadas por homens, ela
ganhou o direito de entrar no Estádio Azadi, em Teerã, em sua moto de mil cilindradas.
“Behnaz deslumbra o mundo!” – essa era a manchete de um jornal conservador no outono
passado, quando ela voltou de Milão, onde foi convidada de honra em um encontro de
motociclistas. Mas ela sabe: nada é garantido. Amanhã, um religioso conservador pode
exigir que ela pare de se comportar como homem em um ambiente de homens. Enquanto
isso, “abre caminho para as mulheres”, sem pressa, mantendo-se dentro da lei. “E tenho
orgulho de ser iraniana”, acrescenta. Em Karaj, subúrbio de Teerã onde vive, ela chega
a circular de moto. Quando os homens percebem que é uma mulher, às vezes buzinam para
cumprimentar, às vezes gritam: “Volte para sua máquina de lavar roupa!”.

Às vésperas das eleições, o clima é particularmente pesado em Teerã. Toda noite, ou
quase, o Guia Supremo aparece na televisão para dar seus conselhos. Advertências para
que a população “não se deixe contaminar” pelo Ocidente. “Evite contato com
estrangeiros”, aconselha o aiatolá Ali Khamenei. Desde o TNP, só aumentam as
advertências do Guia e seus radicais, sinal de sua preocupação com a ideia de que, com
a suspensão das sanções e a abertura por vir, a situação saia de seu controle. Há
alguns meses, o aiatolá Ahmad Jannati, presidente do Conselho de Guardiães, um linha-
dura de 88 anos, advertiu que o TNP não deveria abrir caminho para outras
reivindicações: “Cuidado para que amanhã isso não traga à mesa a questão das mulheres
e da igualdade de gênero!”.

Fariba Hachtroudi é daquelas que não se deixam intimidar. “Não faço provocações, mas
digo em voz alta o que penso”, resume a conhecida escritora,2 que admite, rindo,
“carregar no DNA a loucura desta terra”. Dividindo-se entre seu país natal e a França,
para onde se expatriou na adolescência, ela desistiu de fazer política e optou por
resistir por meio da escrita. Toda vez que volta ao Irã, constata que as mulheres
ganharam terreno. “Em uma aldeia do Baluquistão, o conselho da cidade, inteiramente
masculino, acaba de eleger uma prefeita. Exemplos como esse estão em todos os
lugares!”, exclama.

Preocupação com as aparências

Teria a repressão brutal do “movimento verde”, nascido da reeleição contestada do
presidente Ahmadinejad em 2009, aniquilado toda a militância, como muitos pensam?
Hachtroudi discorda. “As mulheres ainda estão lá, na linha de frente, e continuam
lutando, apesar da resistência. Elas não desistem!”, diz a escritora, destacando que
as ONGs criadas pelas mulheres florescem em toda parte. Nos subúrbios de Teerã,
surgiram lugares de acolhida para crianças de rua e portadores de HIV, além de centros
de desintoxicação para alcoólicos, com a aprovação do governo. Um ponto de inflexão,
pois até então as autoridades negavam problemas como o HIV e o alcoolismo.

Embora a luta das mulheres continue, ela é desorganizada e, muitas vezes, individual.
Muito ocupadas em sobreviver a seu cotidiano, a maioria das iranianas esquece as
figuras na vanguarda de sua luta: a advogada dissidente Nasrin Sotoudeh, a diretora
Rakhshan Bani-Etemad, ambas sob alta vigilância, ou ainda a militante dos direitos
humanos Narges Mohammadi, condenada a oito anos de prisão por “propaganda contra o
regime”.

“Não podemos explicar por que não estamos felizes”, suspira a dona de casa de 40 anos
que chamaremos de Farah. “É o ambiente. Amamos nosso país, mas o que nos falta é
simplesmente ar!” Na Universidade de Ciência e Tecnologia Elm-o-Sanat, onde estuda seu
filho, alto-falantes despejam todos os dias versos do Corão e instruções moralizantes.
Os estudantes têm direito a várias semanas de celebrações: há a semana da guerra, a
semana da Basij, a semana dos “mártires”… “É lavagem cerebral! Estamos fartos
disso!”, pragueja Farah.

Já Mahboubeh Djavid Pour nem imagina reclamar dessa atmosfera de luto perpétuo. Ela é
basij – literalmente, “membro da força de mobilização da resistência”, criada pelo
aiatolá Ruhollah Khomeini. Esses voluntários são uma espécie de auxiliares da Guarda
Revolucionária. Atualmente são estimados em 10 milhões. Seu estatuto confere-lhes
muitos benefícios, como bolsas de estudos, emprego, entrada na universidade. Eles são
temidos e até odiados pela população. As classes superiores os desprezam.

Membro da administração da mesquita de Imã Reza, em Teerã, Djavid Pour move-se
segurando firmemente seu xador preto em torno de si, o que a faz lembrar uma madre
superiora. Essa mulher de 54 anos, mãe de três filhos, orgulha-se de ser basij. Ela vê
nessa função “uma forma de aplicação do islã”. O TNP não lhe desagrada, mas ela
continua desconfiada dos Estados Unidos. Segundo ela, eles prosseguirão em sua
campanha de difamação da República Islâmica, porém de forma mais insidiosa.
“Felizmente, nós estamos agora muito esclarecidos e mais capazes de resistir às
manobras norte-americanas”, diz, antes de acrescentar com gratidão: “Além disso, o
Guia está aqui, ele nos ilumina e nos mostra o caminho”.

Farah, dona de casa que se diz ateia, preocupa-se com o que chama de “religiosidade de
aparência”. A marca na testa que os homens adquirem de tanto se prostrar no chão – ou
fabricam para parecerem pios –, a masbaha ostensivamente entre as mãos, tudo isso a
exaspera. “Somos uma sociedade doente, dominada pela preocupação com as aparências e a
hipocrisia. Não sei aonde isso vai nos levar”, diz.

A confirmação paradoxal de seu pessimismo: o número impressionante de operações
estéticas solicitadas por mulheres iranianas. O nariz, a boca, as bochechas, os ossos
da testa… Como presente de 18 anos, uma moça pode ganhar de seus pais uma
rinoplastia. Em Teerã, narizes arrebitados e maquiadíssimas bochechas de Barbie surgem
sob véus. Às vezes, um desastre. De onde vem esse fenômeno, que explodiu há cinco ou
seis anos e afeta todas as camadas da sociedade? Ninguém consegue realmente explicar.
Obsessão das mulheres pelo rosto, já que não podem mostrar o corpo e o cabelo…?

“Que a imagem do Irã seja reabilitada”

Em Qom, cidade sagrada do Irã, respira-se melhor que em Teerã. Estamos em pleno
deserto. Aqui não há poluição, mas um clima seco que estufa o verão. Localizada 150
quilômetros a sudoeste da capital, a cidade de 1 milhão de habitantes é o principal
centro de educação teológica do país – 5 mil mulheres estudam religião aqui –, além de
ser um importante local de peregrinação. Ali está sepultada Fatemah Masumeh, irmã do
oitavo imã xiita Reza, em um belo e imenso mausoléu. Na fachada dos imóveis, afrescos
gigantes representando o aiatolá Khomeini relembram que o iniciador da Revolução
Islâmica viveu muito tempo em Qom. Aqui não há roupas coloridas: todas as mulheres,
sem exceção, usam o xador. Elas andam muito de mobilete, na garupa do marido, sem véu.

Hoje, 80 mil mulheres formadas em teologia difundem a boa palavra no Irã. Fariba
Alasvand é “Eshtehot”, o mais alto grau de estudos teológicos. Ela ensina no Centro de
Pesquisa sobre a Família e as Mulheres. Seus alunos são tanto homens como mulheres.
“As mulheres do Irã são muito diferentes das do mundo árabe. Nós damos grande
importância à nossa liberdade. Isso reflete a cultura iraniana e o xiismo”, diz ela
desde o princípio. Sobre o uso obrigatório do hijab, ela hesita por um instante, sem
dúvida, nas questões falsamente inocentes. “Um verso do Corão diz: ‘Use o hijab’. Ele
protege as mulheres. Se abandonarmos essa regra do islã, abandonaremos outras”,
finalmente lança.

Essa dona de casa de 60 anos, conservadora, chegou a viajar pela Europa e Estados
Unidos para participar de conferências religiosas. Todas as vezes ela sentiu “o olhar
negativo do Ocidente”, e sofreu com isso, como todas as iranianas. Para ela, os meios
de comunicação são responsáveis por essa incompreensão. Seu medo: que a suspensão das
sanções, “desejada por toda a população e pelo Guia”, acabe por escravizar o Irã. “O
Ocidente quer entrar no Irã, mas recusa a recíproca”, lamenta. Seu desejo é que o país
mantenha suas especificidades. “Nossa religião nos dá uma cultura e uma estrutura.
Nossa liberdade deve ser exercida nos limites do Corão.”

Mais jovem, porém igualmente firme em seus princípios, Zahra Aminmajd também é formada
em Direito Islâmico e professora em Qom. Sorridente, natural, ela acha que o
cristianismo e o islã “têm muitos pontos em comum”, e lamenta que o Ocidente tenha
“uma percepção tão ruim do islã, particularmente no que concerne às mulheres”. O que
mais a preocupa? O consumismo ocidental, com o qual, segundo ela, sonham os iranianos.
“Melhor que ficar esperando a suspensão das sanções seria trabalhar mais”, afirma.

Animada com o retorno do Irã à cena internacional, Sanaz Minai espera uma coisa acima
de tudo: “Que a imagem do Irã seja reabilitada. Que seu valor perdido seja finalmente
restaurado”. De calça jeans, salto alto e um lenço macio, ela é um modelo de sucesso.
Já escreveu mais de vinte livros sobre culinária e cultura iraniana, abriu uma escola
dedicada à arte de receber, o Culinary Club, e fundou a Sanazsania, que desponta
orgulhosamente em primeiro lugar na venda de revistas culinárias. A suspensão das
sanções abre-lhe perspectivas infinitas. Ela quer fazer do Irã “um polo culinário”, ao
mesmo tempo “na moda e chique!”.

Nada parece poder deter outra empresária de sucesso: Faranak Askari. Em junho de 2013,
a jovem estava em Londres, onde cresceu, quando ouviu o chamado do novo presidente
Hassan Rohani: “Venha para o Irã!”. Dois meses depois, ela voltou para Teerã e lançou
a Toiran (“To Iran”), uma empresa de serviços para turistas VIP e empresários.
Paralelamente, montou um site com todas as informações possíveis sobre cinquenta
cidades iranianas – uma espécie de guia de viagem on-line. Sucesso imediato.

“A maior ameaça ao regime”

Desde o acordo de 14 de julho de 2015, a Toiran vê suas reservas duplicarem a cada
mês. Sua clientela é majoritariamente europeia. Uma urgência para Askari: que as
transações bancárias entre o Irã e os países estrangeiros, proibidas nos últimos anos
por causa das sanções ocidentais, sejam restabelecidas. A Toiran, como muitas empresas
iranianas, tem suas receitas bloqueadas em Dubai. “Falta-nos liquidez. Para
sobreviver, ficamos limitados à troca! Mas isso não pode durar: temos de levantar
fundos, investir…”

Conhecida por sua franqueza, Shahindokht Molaverdi não hesita em se encontrar com
jornalistas ocidentais, mas em nosso encontro manteve-se nos limites de um discurso
pronto. Deve-se admitir que o contexto é difícil para ela. Nomeada há dois anos vice-
presidenta da República encarregada das mulheres e da família pelo presidente Rohani,
a jurista de 40 anos fica na defensiva. “É preciso haver mais mulheres nas
assembleias”, diz. Ou: “Precisamos trazer mulheres para todas as esferas de poder”.
Nem uma palavra mais alta do que a outra. É compreensível: entre a proximidade das
eleições de 26 de fevereiro, a suspensão das sanções e a crise aberta com a Arábia
Saudita, ela não pode permitir-se o menor desvio. Como é considerada próxima dos
reformistas e feminista, os ultraconservadores a odeiam.

Mulheres, um grande problema no Irã? Sem dúvida. “O regime tem medo delas. Elas
representam a maior ameaça contra ele”, garante um universitário que pede o anonimato.
“Ele não sabe como lidar com elas, como combatê-las, como impedi-las de abrir novas
brechas…” E a questão do véu, sem grande importância no fundo, é um símbolo. Como
dizem as teólogas de Qom: “Se o abandonarmos, abandonaremos o resto”…

Florence Beaugé

Florence Beaugé é jornalista.

Ilustração: Reuters/Rahed Homavadi

1 Mahmoud Ahmadinejad, presidente da República Islâmica de 2005 a 2013, conservador.

2 Autora de Iran, les rives du sang [Irã, os rios de sangue], Seuil, Paris, 2001; e À
mon retour d’Iran [Meu retorno ao Irã], Seuil, 2008.

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