Na ri xia wu – Tsai Ming-Liang (2015)

Para um desconhecedor dos filmes de Tsai Ming-Liang, durante os 15/20 primeiro minutos desse novo filme pode haver uma confusão não esclarecida sobre quem é quem: há uma indiscernibilidade entre esses dois sujeitos, ele e seu ator de muitos filmes Kang-sheng Lee (Rebeldes do Deus Neón, O Rio, O Buraco, Que Horas São Aí, Adeus Dragon Inn, O Sabor da Melancia, Cães Errantes, Jornada ao Oeste). Compartilham um passado em comum, estão em comunhão. Eles pensam o trabalho em conjunto. O “nós” é bastante usado.

Exemplos: Tsai diz: “Nós podemos parar a qualquer momento”. “Lembra-se de quando nós vendemos ingressos pro nosso filme?” E a comunhão fica explícita em tais falas: “Se quiserem entender nossos filmes, devem não me estudar, mas estudar você”, diz Tsai. Ou dizendo para uma terceira pessoa: “Estou declarando meu amor pra ele [o ator].” “Ficaria satisfeito só em filmar você andando.” A abertura de Lee ao diretor é sincera: “Podemos conversar a hora que quisermos.”, como não se importando muito com a “importância” da ocasião, revelando muito de quem é pessoalmente. Eles pouco se embaraçam pela câmera, embora a presença de uma equipe, mesmo que reduzida, os deixar precavidos a falarem com profundidade de assuntos tão extremos.

A estrutura do filme é simples. O primeiro plano é um plano-sequência de uns 15 minutos, onde há um jump-cut e pula-se para outra parte da conversa preservando o mesmo ângulo. Os tempos mortos do filme surgem das pausas da conversa, não são criados à revelia. A conversa tem poucos buracos. Alguns silêncios curtos.

Sendo um filme de 137 minutos, é de se esperar que o diálogo (ainda mais pelo fato de Tsai ser uma metralhadora de palavras) passe por muitos temas: a morte e sua proximidade: “Vou morrer logo” diz Tsai em um momento, não deixando claro se está enfermo ou se constata à medida que sua velhice se aproxima (ele tem 58) – conversa entrelaçada por Deus, como conceito. O realista diálogo do fim, onde diz que a ruína é o destino de tudo: das pessoas, dos lugares, das civilizações… O mundo como uma ilusão; tudo como uma ilusão. Tsai dizer abertamente sobre sua homossexualidade (o qual declara ter sido a primeira vez que fala a respeito); e dizer de sua solidão “Acho que tenho que manter contato com alguém”, “Eu sou tão romântico” é tocante: Tsai tem vigor, urgência ao se expressar.  A intimidade entre suas famílias, cada um falando de sua própria e da relação com a do outro.

afternoon_-_h_2015

Diferente da relação com a instalação de filmes anteriores (Cães Errantes e sua matilha, planos finais, onde o cenário ganha uma carga surreal) aqui, mesmo que passando em um lugar inusitado (uma casa entre montanhas, ‘isolada’ do mundo) o importante é que esse lugar lhes dê tranqüilidade, visível quando os dois estão com as mãos atrás da cabeça, gesto que diz muito. Também difere das produções mais ‘trabalhadas’, carregadas dos anos 2000 (O Sabor da Melancia, Adeus Dragon Inn). Se Tsai declarou estar desistindo de fazer filmes, pode ter sido por todas as dificuldades –logísticas, práticas – de se fazer um filme mais ‘comercial’ – com estrutura rígida e equipe maior. De modo que sua solução aqui é: “quando mais simples for a feitura de um filme, melhor”.

Desse modo, Tsai vai na contracorrente da produção normal de um filme: aqui, nada de decupagem, diversas equipes. Um ângulo, 2 pessoas e deixe-as (deixe-nos, no caso) conversar. Procedimento não muito diferente dos filmes de Warhol? É sabido que esse é referência explícita de alguns orientais de fluxo recentes (vide Apichatpong). A diferença é que Tsai reatualiza Warhol colocando a energia mutante da conversa, sua imprevisibilidade. A reação dos atores mudando de maneira que suas emoções tomem conta de seus corpos. O Tempo escorrendo (o vento que bate nas folhas próximas, a mudança suave da iluminação) mas (e esse ‘mas’ é importante) com uma busca de memórias em comum, de relembrar afetos, na tentativa de se abrir ao outro. Tsai sabe tanto fazer um filme simples como ser igualmente modesto: não se vangloria; lembra de episódios com graça e leveza; não fala de sua obra com vaidade ou superioridade.

Trouxe Warhol pra criticá-lo. Pessoas paradas não nos dizem mais muito, hoje, a não ser com uma construção consistente (vem-me fortemente O Gebo e a Sombra de Manoel de Oliveira). Pessoas com intensidade (criativa, energética, inconformista (?), etc) de presença e abertura: às vezes, é disso que muitos filmes precisam.

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