Pingo D’Água (Dir.: Taciano Valério, 2014) e Obra (Dir.: Gregório Graziosi, 2014)

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Pingo D’Água (Dir.: Taciano Valério, 2014)

Há um mal-estar evidente em sua atmosfera. Os corpos descarregam sofrimento através de gritos e performances em busca de prazer lúdico. Como corpos do cinema moderno, doídos. Mas não a todo momento: a entrada de Dellani pela janela gera um modo de estar diferente dos outros personagens, ele não oferece resistência para a sua abertura. Nas performances musicais (canto) também há extravasamento. Nessas, a presença não é fantástica mas fala por si. É a vida se manifestando.

Desprendimento no modo de filmar e do tempo das situações, apesar dos cortes bruscos. Nesses e nas elipses bruscas, não há interstícios, há volta. Muitas das situações são incompletas. Cenas curtas (curtíssimas) que não pedem desenvolvimento claro.

É um cinema entremeado nas vivências. Em cenas há uma presença da equipe no quadro, o que diminui a distância entre a feitura e o que ocorre. Como se a equipe fosse desencadeadora (e espectadora) do processo.

Os corpos estão em atrito e em comunhão. Essa não leva à felicidade, pois a felicidade aqui é ilusória. Nem ao meio da floresta é o bastante para uma calmaria.

Para onde ir então? Pensei na cena da mala como uma volta ao útero. E diz respeito às próprias relações. O que são as pessoas, em situações? Caixas maciças que não trocam. A ideia dos livros como sólidos maciços, como a mala, faz relação. Eles não dão conta das necessidades sentimentais. Há aqui um procedimento oposto, a por exemplo, Batuque dos Astros, onde os livros são monumentais.

Como diz um personagem: “Solidão, carência e sadismo.” Essa carência é necessária para viver melhor.

Taciano, no debate, colocou termos em dois polos: desejo x incerteza (que fazer?) e tratava o filme como um filme de percurso, ao invés de um filme de chegada.

Rosemberg disse que era um filme sem busca de sentido, como uma virtude, e os realizadores concordaram.

Não entendi muito a dialética cidade x campo. O como a casa de campo altera aqueles corpos. Em MG existe um corpo enfermo, colado à natureza, à terra (essa como permanência – e as pessoas mais fixas à ela). Na cidade (vejo-o com um filme urbano) eles estão desestabilizados e desorientados, mesmo que expressivos. Enfim, a cidade gera algo nos personagens enquanto o campo é um ambiente passivo. Tenho dificuldade de entendê-lo como um cenário que está em consonância com as ações que ocorrem nelas.

Mas esse não é só (se é) um problema desse filme: vários da mostra (Tiradentes, 2015) deixaram essa relação não problematizada. A praia como lugar de sossego, saída da civilização, como clichê, também esteve muito presente, como em Obra.

 

Obra (Dir. Gregório Graziosi, 2014)

Nos créditos iniciais: cidade cinza, aglomerados parecidos com a China. A referência do fim da arquitetura modernista, em 1972. Prédios a cair. Os escombros voltam (já está dado o subtexto do filme).

Porém, logo as obras (prédios) deixam de ser/ter foco. Os detalhes dos planos começam a se sobressair. Cheios de linhas. Um plano com um neón embelezando o plano, no quarto. A forma quer falar por si.

Pois nada indica as dores do protagonista. Elas estão enraizadas e impregnadas, são quase imperceptíveis Elas são metáfora para uma crise urbana: crise na estrutura óssea x crise (?) (causada pelos prédios? – isso não fica claro) imobiliária, crise da cidade, crise da tradição, essa como hereditariedade. A hereditariedade é tida como marcas do passado que não deixam de influir no presente. Todo o entorno do protagonista dá impressão de que ele não tem nada a reclamar. Além disso, nada justifica sua grosseria (não dizer boa tarde) em sua personalidade a não ser essas dores, o que torna o protagonista quase um antagonista.

Qual o papel das obras (escultura) em uma cidade morta? Se há uma crítica sutil, ela pode ser pelo caminho de se mostrar obras curvilíneas em oposição aos prédios retos. De todo modo, mesmo a inclusão na cena dessas obras tem um quê de vulgar.

Há incongruências de tom, falta de delicadeza como uma conversa sobre destruição (no campo-praia – é um misto) em um tom ameno entre o casal, o que cria um nonsense. Em um momento (fraco) de remorso, vem a fala: “Quem foram aquelas pessoas?” – se referindo a um grupo de corpos soterrados em um terreno. Uma preocupação falsa.

O pior do rigor formal é o distanciamento que cria dos corpos. Planos compostos a deixar um retângulo de 10% da tela, ou a usar só um trecho do enquadramento geram uma despreocupação com o corpo em si, o(s) ator(es). Na busca de uma excelência técnica, parece que um aprofundamento numa discussão sobre os modos de gentrificação ou mesmo sobre a persistência do modo histórico de gerir as cidades aqui, a tradição, (de maneira inadequada) ficaram soterrados em algum dos escombros, esses, lindamente iluminados.

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