Doméstica – Gabriel Mascaro – 2012

Doméstica é um filme belo e feio. Digo isso sem julgamento de valor. Esses adjetivos não competem entre si, estão amalgamados. Há casas ricas e pobres. O cômico e o grotesco. O absurdo e o extremamente real. Histórias belas (como as proximidades entre patrões e empregados) e tristes (trigêmeos, drogas, dificuldades de subsistência). Nada é demasiado brega, pomposo. Pois a força dos relatos e a entrega dos (auto)filmados naturalizam as situações. O íntimo é uma abertura sem bloqueios para o mundo.

Um filme que abrange nascimento, morte, violência,  relações pessoais, migração  costumes, amor e sua falta, a sinceridade e sua falta – que fica visível quando uma das empregadas diz que é feliz, com um olhar depressivo, uma voz fraca e postura retraída. Ou mesmo uma mentira inocente, quando outra empregada diz que sempre limpa debaixo da cama mas nunca vêem. Isso torna algumas falas autoconscientes, sempre esperando um efeito desejado, para se passar uma imagem de acordo com o que aquelas pessoas se imaginam. Outras vezes, a emoção das confissões é tanta que não se está mais sobre o controle da situação. Vemos aquilo que de fato é, sem planejamento consciente dos interlocutores.

Sua fruição é ziguezagueante, pois sua estrutura e conteúdo funcionam como modulador de emoções. Há uma frontalidade da câmera, que só quer mostrar o essencial (basicamente aqueles rostos  e corpos), sem adornos. A música serve como forma de afirmar as identidades das empregadas, para descarregar o que lhes pesa, um escape para uma rotina implacável.

Doméstico, um termo que também se refere aos animais, que traduz o pertencimento que tal criatura exerce em uma família. No caso das empregadas e fazendo uma analogia em termos de afeto (para que fique claro que não acho que empregadas são animais!), os dois acrescentam a um grupo, criam um ponto em comum onde se confluem e entrelaçam experiências e sentimentos. A diferença, no caso do trabalho, está na representação de suas individualidades, apagadas no momento em que estão a serviço (embora há brechas para se aproveitar até esses momentos, quando uma empregada passa roupa ouvindo sua rádio religiosa preferida), sob controle. Controle (por parte dos patrões ou donos) que dá um sentimento de posse, mas não como um bem, e sim como possibilidade de trocas afetivas, confiança e proteção mútua.

Quando essas pessoas tiram o véu se descobre o tesouro que há por trás de cada um, todas cheias de um passado que traz nostalgia e que vemos como imutável. Nós, pois para eles parece difícil entenderem que esses momentos não voltarão. Passado que consume energia emocional de quem os exibe. Pois deixa marcas e constitui o todo da personalidade presente, reforçado pelo papel das fotografias, que paralisam o tempo para que se tente reviver, ou ter a lembrança mais próxima possível de momentos marcantes da vida.

O dispositivo facilita a intimidade. Uma equipe de produção maior poderia oprimir, e assim, alterar o relato. Qual o papel de Mascaro no filme? Saber onde encontrar visões de mundo cruas, que se ramificam, se desdobrando em assuntos diversos, que aproximam o espectador para uma experiência de voyeur/participante, como se você conhecesse aquelas pessoas ou tivesse a impressão que elas existiam (e que representam outras muito parecidas) embora nunca tivesse delimitado em termos precisos como elas seriam (se isso é possível, pois um personagem/pessoa inventado tende a alguma caricatura/maneirismo, afinal não é real como essas). Eis as forças das pessoas nesse filme: elas transcendem pela dor, pela alegria, pois tiveram a possibilidade de mostrar, sem um olhar recriminador para julgá-las, o que talvez reprimiram por toda a vida, seja uma confissão, uma dança sem pudor, um pedaço de suas histórias. Como se dissessem: “gostem ou não gostem eu sou assim, e mais que nunca, ser assim me faz bem. “

Doméstica traz um recorte que nos mostra a complexidade do mundo. É a todo tempo consciente do poder e da fraqueza de suas imagens. Não explora que está em sua frente, mostra-os. Para aqueles que estão ali, a sensação de se ver, entender-se, refletir-se, deve ser reveladora. Mascaro é generoso ao nos mostrar esse microcosmo, e só temos a agradecê-lo (assim como a todos que passam diante da câmera) por nos brindar com essa experiência única, vibrante, essencial e aterradora.

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