Holy Motors – Leos Carax (2012)

Quinto longa-metragem desse que é um dos diretores franceses mais viscerais (além disso fez 3 curtas e um episódio de um média, Tokyo!, que tem seu personagem Merdè transposto para esse Holy Motors), possui recorrências a seus filmes anteriores e uma intenção de ser cada vez mais absurdo, de estar além do limite.

As recorrências: cena com um transbordamento de luzes desfocadas ao fundo (Neux, Mauvais Sang); uma liberdade inútil, em que os personagens andam na cidade como um labirinto sem fim, dando volta em círculos sem conseguir fugir do sofrimento existencial; cena de alguém correndo com a câmera acompanhando em um travelling lateral, como que para expurgar sua dor (nesse caso, a corrida é em uma esteira, com a câmera parada mas com o fundo se movendo, o que reforça o ponto anterior, de correr sem conseguir fugir, “sair do lugar”); o ator Denis Lavant, presente em quatro de seus filmes, nesse é multiplicado por 11 personagens; reflexão sobre os limites do corpo, que o aproxima de um Cronenberg, por exemplo. Não por acaso, seus dois últimos filmes são bem parecidos: duas turnês surrealistas por uma cidade à beira do colapso (Cosmópolis) ou cidade-fantasma, um universo à parte, sombrio e sem vida (Holy Motors),

A noção de uma tecnologia que se funde ao humano era visível anteriormente com a dependência da medicina sobre a saúde dos personagens, que em Neux e Mauvais Sang (duas obras-primas) eram causa da degradação física no primeiro ou uma impossibilidade de cura no segundo, a não ser pelo dom de criar remédios do protagonista/gênio. No caso de Holy Motors, a medicina é ultrapassada, o corpo se torna indestrutível, então presenciar os limites da vida e da morte, prazer/sofrimento se torna um combustível para se fugir de uma vida asséptica, sem sentido.

Devido à essa invulnerabilidade, a morte precisa ser representada, para saber o que é estar nesse limiar. Niilista ao extremo, não existe bloqueios morais ou sociais para tentar ascender ou transcender a existência (ou mesmo ir ao fundo do poço, até literalmente no caso de Merde). Se o mundo é estático em sua escuridão, para Oscar é preciso buscar meios para dar um sentido à vida (outra semelhança com Cosmópolis), mesmo que para isso tenha que se romper qualquer barreira entre certo/errado, vida/morte, amor/ódio, sanidade/loucura etc. É no extremo que se encontra alguma verdade.

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