Mês: outubro 2012

Holy Motors – Leos Carax (2012)

Quinto longa-metragem desse que é um dos diretores franceses mais viscerais (além disso fez 3 curtas e um episódio de um média, Tokyo!, que tem seu personagem Merdè transposto para esse Holy Motors), possui recorrências a seus filmes anteriores e uma intenção de ser cada vez mais absurdo, de estar além do limite.

As recorrências: cena com um transbordamento de luzes desfocadas ao fundo (Neux, Mauvais Sang); uma liberdade inútil, em que os personagens andam na cidade como um labirinto sem fim, dando volta em círculos sem conseguir fugir do sofrimento existencial; cena de alguém correndo com a câmera acompanhando em um travelling lateral, como que para expurgar sua dor (nesse caso, a corrida é em uma esteira, com a câmera parada mas com o fundo se movendo, o que reforça o ponto anterior, de correr sem conseguir fugir, “sair do lugar”); o ator Denis Lavant, presente em quatro de seus filmes, nesse é multiplicado por 11 personagens; reflexão sobre os limites do corpo, que o aproxima de um Cronenberg, por exemplo. Não por acaso, seus dois últimos filmes são bem parecidos: duas turnês surrealistas por uma cidade à beira do colapso (Cosmópolis) ou cidade-fantasma, um universo à parte, sombrio e sem vida (Holy Motors),

A noção de uma tecnologia que se funde ao humano era visível anteriormente com a dependência da medicina sobre a saúde dos personagens, que em Neux e Mauvais Sang (duas obras-primas) eram causa da degradação física no primeiro ou uma impossibilidade de cura no segundo, a não ser pelo dom de criar remédios do protagonista/gênio. No caso de Holy Motors, a medicina é ultrapassada, o corpo se torna indestrutível, então presenciar os limites da vida e da morte, prazer/sofrimento se torna um combustível para se fugir de uma vida asséptica, sem sentido.

Devido à essa invulnerabilidade, a morte precisa ser representada, para saber o que é estar nesse limiar. Niilista ao extremo, não existe bloqueios morais ou sociais para tentar ascender ou transcender a existência (ou mesmo ir ao fundo do poço, até literalmente no caso de Merde). Se o mundo é estático em sua escuridão, para Oscar é preciso buscar meios para dar um sentido à vida (outra semelhança com Cosmópolis), mesmo que para isso tenha que se romper qualquer barreira entre certo/errado, vida/morte, amor/ódio, sanidade/loucura etc. É no extremo que se encontra alguma verdade.

Tabu – Miguel Gomes (2012)

Logo de início percebemos que estamos em outro regime de imagens, diferente de Aquele Querido Mês de Agosto. Há preocupação com a movimentação dos personagens; predominância de planos próximos, closes e planos-detalhe; suaves movimentos de câmera e um trabalho de montagem mais formal, que por vezes aproxima composições visuais. As diferenças ficam evidentes que colocá-los em uma perspectiva de comparação reduziria qualquer um desses filmes. Mesmo assim, é notável que no primeiro longa prevalece a noção de grupo, e no segundo, a de indivíduo.

Na primeira parte Pilar é uma figura central, servindo como eixo de sustentação do por sua visível sensatez e (nem tão visível) bem-estar. Sua vizinha, Aurora, desesperada e paranóica, carrega Pilar consigo em suas memórias difíceis, a contaminando com seu arrependimento e tornando-a sombria, aturdida.

A segunda parte irá revelar esse passado de Aurora. Outra modalidade de encenação se instaura: há mais grãos na imagem, a câmera treme mais (para dar um ar caseiro), os diálogos são suprimidos, em um uso interessante do som. Quando há música (seja da banda ou tribal) ou ruídos, eles entram na trilha sonora, menos as falas. É como se esses elementos (música e ruídos) sejam perpétuos, sempre existirão, enquanto as falas serão sempre nebulosas, incertas, difíceis de serem tidas como exatas, e então, se perdem no tempo. Destaque também para a poesia e dor das cartas, de uma sinceridade impressionante de ambas as partes.

A memória do mundo, que registra tudo (de acordo com o filme), estaria mais ligada a esses elementos perpétuos, e mesmo que registre os pormenores (as falas) elas são sempre indecifráveis, misteriosas. Há forças agindo por trás/entre (as magias que o filme se refere?) o casal Gian Luca/Aurora e que fogem do controle de ambos, e que invariavelmente levaria a catarse final, onde colidem os acidentes. São essas forças inexplicáveis que movem a trama de Tabu.