Aquele Querido Mês de Agosto – Miguel Gomes – 2008

Logo nas três primeiras cenas há embates, contrastes dialéticos  nos interiores de 3 planos: várias galinhas estão tensas pela proximidade de um cachorro do mato, que invade o poleiro e as fazem voar desesperadamente (1); um palco iluminado com um show acontecendo, quando acaba a energia (2); quando em outro palco se inicia um show, o espaço para a platéia está no início vazio e logo o quadro é tomado por casais (3). Seguindo essa noção de pares vemos como a estrutura do filme é construída: êxtase e descanso; clímax e anti-clímax.

Além das dualidades, que também está presente nos romances dos filmes (os em construção e os desgastados) uma noção de grupo costura a cidade e seus habitantes. Então, não se trata mais de individualidades, todos são responsáveis por manter a coesão social. As bandas do filme (inclusive uma fanfarra) são uma metáfora a isso, o trabalho tem que ser em conjunto, sem despontar ninguém. Quando alguém se destaca (como o guitarrista da banda de garagem ou o cantor bêbado que deixa escapar uma crítica a pai e filha) logo um mal-estar é gerado.

Para manter a união encontros se fazem necessários. Os moradores passando tempo em volta da lagoa, uma reunião de motoqueiros, tocar música entre amigos, um jantar para muitas pessoas, discutir um filme feito na cidade e sobre ela. A ambigüidade da informação sobre o filme a ser feito, que só é citado uma vez, torna toda a diegese esse tal filme. É como um espelho do filme sendo construído. A equipe se torna parte do meio. Só que, ao tornar a cidade palco do filme, os acontecimentos se tornam incomuns em sua simplicidade, o rotineiro torna-se sublime por estar livre de imprecisões, de obstáculos e por contaminar todo o ambiente em volta. Exemplo é o beijo entre o casal da banda, onde primeiro há um banho de luz sobre os personagens, divinizando-os (a religião é um subtema  do filme)(4); corta para um plano geral da ponte, e tudo converge para o momento dos dois, abençoados: a procissão com sua banda e seus bonecos de madeira e um singelo barquinho na lagoa(5). Todo o entorno é alterado e celebra o acontecimento.

Mas nem tudo são rosas. Os citados anti-climaxes vão dar o sentido de normalidade, para cada momento de transcendência há rompimento com os fluxos (seja da vida, no caso do porco que deixa uma marca de sangue no chão), seja nas mudanças de cidade (a tia que sai da cidade) ou de rotina (o moço que pula da ponte). Muitas vezes, os anti-climaxes estão dentro dos climaxes, criando climas extremamente conflitantes, jogando o espectador de um lado para o outro. Ou os descansos geram tensão, quando os 5 instrumentistas passam um bom tempo conversando com enormes surdos pendurados no corpo, por fim, um deles não agüenta e começa a tocar.

As sequências se tornam quase independentes, tamanha a intimidade entre as relações estabelecidas. É como se todos se conhecessem desde pequeno. Além disso, a trilha sonora amplia essa desconstrução, descolando som e imagem. As músicas não têm hora certa pra entrar e não há imagens exatas para isso acontecer. Não por acaso, no fim o desenhista e captador de som discutem exatamente isso. Há uma coisa que é a imagem e seu entorno, e há outra que são todos os sons que brotam desse entorno, que muitas vezes passam desapercebidos pela equipe. O som por vezes se aproxima de um não-realismo, quando a mixagem trata de aumentar o volume dos shows e deixar o burburinho bem diminuído.

Dirigido e fotografado com sobriedade, sem acrobacias narrativas e excessos de atuação, Aquele Querido Mês de Agosto consegue uma façanha de moldar todo um local em seu estado de espírito; não de forma forçada, mas conquistada, dialogada. Há sempre um sentido de troca imbuído no filme. As experiências coletivas, a crença no presente e os pés no chão, tornam o lugar uma espécie de zona de equilíbrio. Não que esteja tudo constante, os ápices sempre têm seu contraponto, mas nunca se perde a linha. Enfim, um lugar onde se pode viver sem ter nenhum receio, que com pureza se é absorvido pela comunidade e não há forças externas para corromper os vínculos.

(1)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(2)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(3)

 

 

 

 

 

 

 

(4)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s