Cosmopolis – David Cronenberg (2012)

Imagem

A limusine que parece uma nave espacial serve de base para um passeio por um mundo em vias de ex(im)plosão, no qual o protagonista conhece os códigos, as senhas para, outras dimensões, sensações entendimentos e experiências que nunca são o bastante, há sempre algo maior a se vivenciar, e aí reside o sentimento de angústia  que o filme carrega.

Nessa nave se sai do padrão, os diálogos e situações se tornam um universo à parte da cidade mecânica. As conversas estão além dos pobres mortais. Mas não se tratam de falas grandiosas e de difícil compreensão, são suposições simples e gerais. Algo como “arte de fazer dinheiro” ou “projetar o curso de ação”. Tudo é previsão, o presente é tido como amorfo, sem importância; ter poder é saber o que vai acontecer. Sendo assim, os acontecimentos presentes também são banais, uma imolação “não é original”. Nada é espetacular, como por exemplo a brutalidade de um crime televisionado, algo presente no seu curta em Cada um com Seu Cinema (2007) e em Videodrome (1983).

As assimetrias que levam a tal estado das coisas tornam a cidade seu inverso oposto, se antes era um mar de torpor, com o engarrafamento sendo sintoma essencial e inexorável de tal caos premeditado, depois se acresce uma energia libertadora para os cidadãos revoltados com as corporações financeiras que, em seu limite de controle sobre a economia (algo previsto em alguns textos sérios), têm grande impacto no desenvolver da malha social. Eric Parker (Robert Pattinson) personifica tanto as corporações como as assimetrias, nos duos próstata assimétrica; cabelo feito só de um lado; personalidade ambivalente, ora sobre total (ao menos aparência de) controle sobre tudo em sua volta, ora dominado pelos excessos de vontade por uma procura a algo desconhecido e transcendente (como o Tyler Durden em o Clube da Luta, 1999).

Tal torpor é coincidente com as cenas alongadas, em que tudo a volta parece parar (ou estar no automático) para o centro do mundo se localizar na cena. Isso parece óbvio para qualquer filme, mas nesse há tal controle e delimitação nesses pontos de alucinação, que os personagens e suas falas e situações se encaixam perfeitamente no absurdo, que por distanciamento deixam o normal ainda mais monótono. Mas um absurdo delimitado, com suas leis próprias. Há uma situação-limite que exige ações e mudanças de pensamento, ou mesmo uma extinção de algumas práticas.

O que se depreende do fim é que tal mundo convive com uma barreira ideológica criada por práticas que se tornam comuns, como “fingir não ver a miséria de muitos”, conhecimento para dominação, egocentrismo, que os impede de mudar a situação – isso serve como um espelho para nossa sociedade. A não ser por meio de uma revolta que, para dar alguém uma surpresa onde nada mais surpreende, é necessário trabalhar com o nonsense.  A “lição” é que tal paradigma manipulador (como já é) será posto em cheque, cedo ou tarde, de uma maneira não pacífica. Será, pois só num futuro não tão distante que as convulsões físicas, as loucuras coletivas e um sentimento de que “está tudo muito errado , algo tem que mudar“ de Cosmópolis se realizarão.

One Comment to “Cosmopolis – David Cronenberg (2012)”

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s