Mês: setembro 2012

Crítica: Aquele Querido Mês de Agosto – Miguel Gomes – 2008

Logo nas três primeiras cenas há embates, contrastes dialéticos  nos interiores de 3 planos: várias galinhas estão tensas pela proximidade de um cachorro do mato, que invade o poleiro e as fazem voar desesperadamente (1); um palco iluminado com um show acontecendo, quando acaba a energia (2); quando em outro palco se inicia um show, o espaço para a platéia está no início vazio e logo o quadro é tomado por casais (3). Seguindo essa noção de pares vemos como a estrutura do filme é construída: êxtase e descanso; clímax e anti-clímax.

Além das dualidades, que também está presente nos romances dos filmes (os em construção e os desgastados) uma noção de grupo costura a cidade e seus habitantes. Então, não se trata mais de individualidades, todos são responsáveis por manter a coesão social. As bandas do filme (inclusive uma fanfarra) são uma metáfora a isso, o trabalho tem que ser em conjunto, sem despontar ninguém. Quando alguém se destaca (como o guitarrista da banda de garagem ou o cantor bêbado que deixa escapar uma crítica a pai e filha) logo um mal-estar é gerado.

Para manter a união encontros se fazem necessários. Os moradores passando tempo em volta da lagoa, uma reunião de motoqueiros, tocar música entre amigos, um jantar para muitas pessoas, discutir um filme feito na cidade e sobre ela. A ambigüidade da informação sobre o filme a ser feito, que só é citado uma vez, torna toda a diegese esse tal filme. É como um espelho do filme sendo construído. A equipe se torna parte do meio. Só que, ao tornar a cidade palco do filme, os acontecimentos se tornam incomuns em sua simplicidade, o rotineiro torna-se sublime por estar livre de imprecisões, de obstáculos e por contaminar todo o ambiente em volta. Exemplo é o beijo entre o casal da banda, onde primeiro há um banho de luz sobre os personagens, divinizando-os (a religião é um subtema  do filme)(4); corta para um plano geral da ponte, e tudo converge para o momento dos dois, abençoados: a procissão com sua banda e seus bonecos de madeira e um singelo barquinho na lagoa(5). Todo o entorno é alterado e celebra o acontecimento.

Mas nem tudo são rosas. Os citados anti-climaxes vão dar o sentido de normalidade, para cada momento de transcendência há rompimento com os fluxos (seja da vida, no caso do porco que deixa uma marca de sangue no chão), seja nas mudanças de cidade (a tia que sai da cidade) ou de rotina (o moço que pula da ponte). Muitas vezes, os anti-climaxes estão dentro dos climaxes, criando climas extremamente conflitantes, jogando o espectador de um lado para o outro. Ou os descansos geram tensão, quando os 5 instrumentistas passam um bom tempo conversando com enormes surdos pendurados no corpo, por fim, um deles não agüenta e começa a tocar.

As sequências se tornam quase independentes, tamanha a intimidade entre as relações estabelecidas. É como se todos se conhecessem desde pequeno. Além disso, a trilha sonora amplia essa desconstrução, descolando som e imagem. As músicas não têm hora certa pra entrar e não há imagens exatas para isso acontecer. Não por acaso, no fim o desenhista e captador de som discutem exatamente isso. Há uma coisa que é a imagem e seu entorno, e há outra que são todos os sons que brotam desse entorno, que muitas vezes passam desapercebidos pela equipe. O som por vezes se aproxima de um não-realismo, quando a mixagem trata de aumentar o volume dos shows e deixar o burburinho bem diminuído.

Dirigido e fotografado com sobriedade, sem acrobacias narrativas e excessos de atuação, Aquele Querido Mês de Agosto consegue uma façanha de moldar todo um local em seu estado de espírito; não de forma forçada, mas conquistada, dialogada. Há sempre um sentido de troca imbuído no filme. As experiências coletivas, a crença no presente e os pés no chão, tornam o lugar uma espécie de zona de equilíbrio. Não que esteja tudo constante, os ápices sempre têm seu contraponto, mas nunca se perde a linha. Enfim, um lugar onde se pode viver sem ter nenhum receio, que com pureza se é absorvido pela comunidade e não há forças externas para corromper os vínculos.

(1)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(2)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(3)

 

 

 

 

 

 

 

(4)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Crítica: Cosmopolis – David Cronenberg (2012)

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A limusine que parece uma nave espacial serve de base para um passeio por um mundo em vias de ex(im)plosão, no qual o protagonista conhece os códigos, as senhas para, outras dimensões, sensações entendimentos e experiências que nunca são o bastante, há sempre algo maior a se vivenciar, e aí reside o sentimento de angústia  que o filme carrega.

Nessa nave se sai do padrão, os diálogos e situações se tornam um universo à parte da cidade mecânica. As conversas estão além dos pobres mortais. Mas não se tratam de falas grandiosas e de difícil compreensão, são suposições simples e gerais. Algo como “arte de fazer dinheiro” ou “projetar o curso de ação”. Tudo é previsão, o presente é tido como amorfo, sem importância; ter poder é saber o que vai acontecer. Sendo assim, os acontecimentos presentes também são banais, uma imolação “não é original”. Nada é espetacular, como por exemplo a brutalidade de um crime televisionado, algo presente no seu curta em Cada um com Seu Cinema (2007) e em Videodrome (1983).

As assimetrias que levam a tal estado das coisas tornam a cidade seu inverso oposto, se antes era um mar de torpor, com o engarrafamento sendo sintoma essencial e inexorável de tal caos premeditado, depois se acresce uma energia libertadora para os cidadãos revoltados com as corporações financeiras que, em seu limite de controle sobre a economia (algo previsto em alguns textos sérios), têm grande impacto no desenvolver da malha social. Eric Parker (Robert Pattinson) personifica tanto as corporações como as assimetrias, nos duos próstata assimétrica; cabelo feito só de um lado; personalidade ambivalente, ora sobre total (ao menos aparência de) controle sobre tudo em sua volta, ora dominado pelos excessos de vontade por uma procura a algo desconhecido e transcendente (como o Tyler Durden em o Clube da Luta, 1999).

Tal torpor é coincidente com as cenas alongadas, em que tudo a volta parece parar (ou estar no automático) para o centro do mundo se localizar na cena. Isso parece óbvio para qualquer filme, mas nesse há tal controle e delimitação nesses pontos de alucinação, que os personagens e suas falas e situações se encaixam perfeitamente no absurdo, que por distanciamento deixam o normal ainda mais monótono. Mas um absurdo delimitado, com suas leis próprias. Há uma situação-limite que exige ações e mudanças de pensamento, ou mesmo uma extinção de algumas práticas.

O que se depreende do fim é que tal mundo convive com uma barreira ideológica criada por práticas que se tornam comuns, como “fingir não ver a miséria de muitos”, conhecimento para dominação, egocentrismo, que os impede de mudar a situação – isso serve como um espelho para nossa sociedade. A não ser por meio de uma revolta que, para dar alguém uma surpresa onde nada mais surpreende, é necessário trabalhar com o nonsense.  A “lição” é que tal paradigma manipulador (como já é) será posto em cheque, cedo ou tarde, de uma maneira não pacífica. Será, pois só num futuro não tão distante que as convulsões físicas, as loucuras coletivas e um sentimento de que “está tudo muito errado , algo tem que mudar“ de Cosmópolis se realizarão.