Heleno – José Henrique Fonseca – 2012

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Heleno, o filme, carece de um foco narrativo a se centrar: não sabemos se é um filme sobre como uma doença devido à vida libertina acaba com uma carreira; um filme sobre com um ego inflamado unido ao poder das escolhas destrói suas relações pessoais e profissionais; sobre futebol em uma época que as coisas eram diferentes(e mais fraca das hipóteses); sobre tal trajetória tão meteórica quando tragicamente (psicologicamente) decadente; sobre a impossibilidade de se desvincilhar do passado. É sobre tudo isso e nenhuma das questões se sobressai. Dada a indefinição, o que resta? Onde o filme encontra sua força?

Pela catarse no sexo e na loucura. Devido à importância midiática dada ao jogador, o que exala em sua personalidade é como a fama reflete no personagem e na (super)atuação: essa  e “as imagens” são o que sobram do filme.

Aqui não importa sua habilidade no campo. Nem apontar um culpado pelo desastre. A posição é em cima do muro e as falas dos personagens secundários soam como moralistas sem moral, já que o modo de montagem dá o fim como inevitável e tais conselhos soam apenas como esclarecedores do roteiro (quem está certo/o que está errado). Isso se dá de maneira didática, mas no decorrer do filme não importa, tudo gravita em torno do que Heleno pensa, atropelando qualquer ética. Uma conduta certa a seguir está subentendida, seria próxima ao que é Alberto, conformista que joga conforme o jogo.

Logo após ver o filme e ter pensado no quão estilizadas eram as imagens, li por acaso o artigo “Entre a imagem-metáfora e a beleza vazia, o quê?” do Alexandre Werneck, postado na Contracampo. Dá boas chaves de entendimento desse filme: “Para onde se olha, no cinema brasileiro, lá está a fotografia.”, “A fotografia do cinema brasileiro tornou-se não-discreta.”. Cita o Walter Carvalho, não por coincidência diretor de fotografia e câmera desse filme.

Outros erros são falas que se sobrepõem marcadamente a trilha sonora ou aos ruídos ambiente e alguns diálogos unidirecionais, parecendo que a função do interlocutor é só ouvir, sem agir, gerando um vácuo em várias cenas. Os personagens secundários são muito pouco desenvolvidos, até as duas mulheres do jogador: muros. A preocupação sobre futuro é sempre momentânea e nunca levada a cabo. Uma situação irreversível que não quer ser aceita, havendo desperdício de esforços.

O vocabulário limitado garante pouco estranhamento com outra época, mas a dicção é atual. Há uma boa economia de closes, mostrados nos momentos de maior intimidade. A montagem poderia ser cronológica sem nenhuma perda de sentido, e deixaria de lado a hipótese de que o importante seria a trajetória e não um possível ápice (da decadência), que estão espalhados pelo filme. Porém, pensados juntos, os momentos do retiro juntos poderiam ser maçantes.

Em dois momentos o filme ganha uma força ímpar: uma no caso da estilização em excesso, que resulta na bela luz sobre o casal no carro, no começo do filme; e outro quando se dá uma reunião de loucos, em que um naturalismo prevalece (estranho um maior arroubo de emoção não vir do protagonista, que quase rouba a cena com tiques). Um momento pelo surrealismo outro pelo realismo conseguido (não dá pra saber se são atores ou não). Momentos que fogem do perigo de imagens que “não dizem, apenas impressionam.”

Mas são poucos perto da embalagem na qual o filme vem esculpida. Exímio técnico que o contamina a ponto de deixá-lo estéril, inconseqüente, vazio (como o personagem), que sem alguns acessos de fúria (como para quebrar tal bolha de vidro no qual o filme se recolhe) seria como um jogo com final 0x0.

 

Artigo citado: http://www.contracampo.com.br/48/imagem-metafora.htm

 

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