Mês: junho 2012

Crítica: Distrito 9 – Neill Blomkamp – 2009

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Em Johanesburgo, África do Sul, anos depois que uma nave alienígena paira sobre a cidade, seus passageiros são mantidos em uma favela/campo de concentração. O filme apresenta diferentes modalidades de imagem (jornal televisivo, documentário, mockumentary, câmeras de segurança) se embaralhando formando um duplo espetáculo, para a mídia do filme e para o espectador, com suas explosões e CGI.

Há algumas possíveis analogias com o mundo real, criando-se uma sátira – alienígenas e guetos excluídos como uma metáfora para o apartheid; controle do poder pelo governo e empresas se contrapondo ao anarquismo alien sem um chefe e o primitivismo dos nigerianos, com crenças não científicas; a distorção da informação pela TV/Rádio – que não se aprofunda em nenhum momento. As questões são pano de fundo inexplorado para o desenrolar da ação: mostra-se um estado de coisas no qual não sabemos o que ocorreu para se chegar até ele (pré-filme).

Outro fator ambíguo é o protagonista, que com personalidade e atitudes desprezíveis, o roteiro obriga a sentirmos empatia por sua situação, não por alguma virtude inata. Sua transformação cria um subtexto que pode ser: só um acordo entre o corpo/saber humano e o alienígena, no caso uma simbiose, como em A Mosca (The Fly, 1986) leva a uma compreensão mútua, pois só estando na pele de outra espécie é possível saber suas motivações.

Em seus discursos acumulados e selvageria visual, Distrito 9 paira entre um tomar parte de uma situação de dominação insuportável e sua vontade de extrair o terror desumano que o poder se permite chegar. Pois, se os aliens são vistos como inimigos somente por serem o outro e não se tenta compreendê-los, quando isso acontece nada surge do encontro. Estratégia para sua indeterminação de respostas que seus temas (preconceito, poder) propõem , seu caos formal e fictício são o que transbordam e encobrem seu desinteresse pelas questões que apenas tangencia.

Crítica: A Rede Social (The Social Network) – David Fincher – 2010

A Rede Social trata-se de como se infiltrar, se adequar, tirar vantagem dos círculos sociais. Revela que há portas de entrada, senhas para determinados círculos; e que o não respeita às regras do jogo (no caso do Napster, no aproveitamento às idéias do grupo de remo e no desentendimento com seu “único amigo”) sofre decorrências – no caso multas, que tem valor apenas simbólico, não afetando o status de novo rei do mundo que Mark adquire.

A montagem rápida parece remeter à velocidade de nossa época, à rapidez dos diálogos e ao tema, internet/relações descartáveis. É o filme mais picotado de Fincher.

Revela um mal-estar do mundo (Seven, Zodíaco), em que a ética é posta de lado quando se trata de satisfação pessoal, mesmo que isso puna os outros. Nesse caso, não são explicadas as atitudes de Mark, são somente vistas em nuances do seu comportamento. Se preocupar mais no que tem a dizer e como soa. Está sempre afiado para dar uma tirada à altura.

Acaba por se tornar uma briga contra si e sua personalidade repulsiva, fazendo com que os outros se aproximem somente por interesse, o que certamente reflete padrões do mundo dos negócios. Assim, Mark é protagonista e antagonista, pois arma as armadilhas que irá cair: sua personalidade/desonestidade. Um estado ideal nunca parece possível para ele, fixo na idéia de obter mais usuários e não se importando com o que mais lhe prejudica, sua falta de exibir qualquer tipo de compaixão, companheirismo e amizade verdadeira. Sua ambição o faz esquecer de cultivar virtudes: quanto mais envolvido na empresa, menos envolvido consigo.

Mas o que diferencia Mark dos outros? Em essência, nada. Todos estão em busca dos seus objetivos, e as relações de poder que são construídas garantem a Mark vantagem busca do topo. A maior reflexão é: pra que se chegar ao topo se não se sabe o que se fazer lá? E o que adianta se o caminho tiver que ser tortuoso, destruindo sua alma, corrompendo-se?

Crítica: No Limite da Loucura (In the Mouth of Madness) – John Carpenter (1994)

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Um hospício, como em seu último filme The Ward (A Aterrorizada), é o ponto de partida da história e seu desenrolar mostra como o detetive Trent foi internado. Em relação aos seus outros filmes, vê-se personagens envolvidos uma busca perigosa, como em They Live (Eles Vivem), The Thing (Enigma do Outro Mundo). Para que a estabilidade seja restabelecida, tais mistérios devem ser resolvidos.  E o fascínio pelo desconhecido leva os protagonistas a investigarem até as últimas conseqüências quais as perguntas sem respostas. Mesmo quando há ameaças nessa empreitada (não é aconselhável ler um livro para não ficar louco nesse filme nem ver um filme raríssimo em Cigarrete Burns para não morrer durante a exibição).

Carpenter sempre transita entre um mundo real e um fictício. Quando são postos em cena elementos de gênero (como nesse filme: trovões, monstros, cruzes, cenários góticos), tendemos ao segundo mundo. Porém, não se trata de um mundo fantástico, tais mundos são criados a partir de experiências individuais, descobertos pelo protagonista (mais uma vez, They Live, The Thing). Esses mundos são mutáveis, onde não se respeitam as leis físicas – os quadros mudam, as paredem são organismos vivos, etc. Para entrar nessa outra dimensão, um portal existe nesse filme; em They Live, por exemplo, tal mundo é visto através de um óculos especial. Porém, para todas as outras pessoas tais mundos não existem, nem a cidade fictícia em No Limite da Loucura nem todo o Mundo cheio de mensagens subliminares em Eles Vivem. É notável que até o mundo real, em que as relações cotidianas se estabelecem, se tornam suspeitos de serem falíveis, quando a ajudante de Trent, que o acompanha na missão, é revelada nunca ter existido, somente no romance

Uma realidade dentro de outra. Torna-se uma espiral o fato que, se vemos o próprio filme em que vemos dentro do filme, sendo exibido num cinema, então o filme em questão se torna duplamente fictício, pois é apenas um pedaço de uma ficção já existente. Interessante jogo de espelhos que reforça uma imaterialidade do filme.

Os acontecimentos são cobertos pelas mídias, rádio (em The Fog) e TV (They Live), como que para realçar a veracidade dos fatos, visto que tal visibilidade daria uma realidade incontestável: é preciso ser notícias para os eventos virem a tona e dialogar com o mundo. Billy Wilder é outro que adora transitar entre os meios de comunicação (jornal, cinema, teatro, TV), mas nesse caso, para melhor desvendá-los.

O que mais incomoda é a teimosia da descrença do protagonista, que depois de uma hora de filme ainda acha existirem efeitos especiais para encenar toda a cidade para enganá-lo.  Recorrência em Carpenter, onde uma conspiração/perseguição sempre parece atuar sobre os protagonistas.

Tido como 10º melhor filme de 1995 pela Cahiers Du Cinema, mostra a constância do diretor em explorar habilmente suas telas em 2,35:1 e suas sempre parecidas histórias, que podem ser vistas como filmes rodados em loop, diferindo apenas os temas. Em meio a essas repetições e usos das convenções dos gêneros (dialogando com a ficção científica, terror, suspense) há um questionamento sobre o poder da ficção em influir o receptor e qual serão as relações entre esses e às obras que vê.