Crítica: Os Inquietos – Gus Vant Sant (2011)

Diferente dos seus outros filmes, está em jogo o ato de conhecer pessoas diferentes e compartilhar experiências com elas. Isso está em Milk, mas é tão dilacerado pela quantidade de amizades que se torna fraco no geral. O que é bastante acentuado, como em Milk, é a coesão narrativa que o filme apresenta (diferente de Last Days, Elefante, Gerry).  Os usos das músicas reforçam esse caráter narrativo, funcionando para obter sentimentos exatos (sem abstrações).

Temos também os adolescentes, a câmera funcionando de uma maneira excessivamente não-participativa  (menos nos casos em que ela tem liberdade, como em um plano zenital com o casal, na risca de giz, e quando a câmera faz panorâmicas para revelar um plano-detalhe), porém, de um modo diferente de Elefante. Ela está presente, mas não invade o local e sua presença não é significativamente ativa. Câmera essa sempre atrás dos personagens, nunca ousa confrontar o olhar dos personagens (e nem o personagem ousa se aproximar do eixo que sai frontalmente da câmera).  Os eixos, então, funcionam de maneira diagonal (em que o olhar sempre sugere o off-screen às laterais da sala de cinema) ou lateral (- (imagine os 2 lados do hífen como sendo cada um dos personagens, e a linha, o olhar dos personagens, de perfil para a câmera). Em suma, o eixo do olhar e como a câmera participa, em Os Inquietos, é totalmente oposto ao cinema de Eugène Green (sempre frontal).

Vemos também uma escola, com futebol americano sendo praticado, porém aqui é menos incisiva o papel de ser o plano de fundo e ser relacionados aos diferentes grupos da escola. Outra recorrência são as mortes aguardadas: (“Kurt” em Last Days e o massacre em Columbine). A personagem é totalmente consciente de sua doença e até brinca a respeito. Então, a morbidez é amenizada. Como são adolescentes nas situações, os corpos jovens e sadios (Em Inquietos, só aparentemente, pois há uma doença crônica, definida) formam uma espécie de contradição com seus estados, sempre em estado de degradação ou vivenciando-a muito proximamente.

Ao mesmo tempo que revela consistência narrativa, o filme se deixa libertar principalmente na cena da floresta: mesmo que as referências de gênero (terror, comédia, noir) estejam marcantes nos planos. Nessa sequência, a música serve para equilibrar (ou, também, tomar as rédeas do sentimento, direcionar) as imagens, que por si, teriam tom muito mais sinistros sem tal uso sonoro (um uso excessivamente narrativo para imagens interessantes tanto como em composição como narrativamente).

Alguns diálogos com o fantasma, principalmente as na beira do lago, há belos usos de foco/personagem-atrás-de-personagem, e o filme flerta com um surrealismo/realismo fantástico. Isso é acentuado quando o fantasma passa a interferir diretamente nas vidas dos personagens e fica claro em sua fala “Tive uma briga mais ou menos” = mais ou menos real, foi com um fantasma, mas o machucou: a entrada do fantasma ao mundo físico é finalmente realizada.

Seu fim também é simbólico, o gelo como permanência, paralisação. É isso que a morte significa, estado de estagnação: o tempo para de existir. Desnecessário também o pout-porri no fim. Só reforça o grau de incerteza quanto a ser fluído ou engessado (com tendência ao engessado). Os Inquietos é menos narrativo que Milk, e menos imersão que Gerry, Last Days, Elefante e Paranoid Park. Resumindo: ele é, duplamente, menos por menos.

G.C.

One Comment to “Crítica: Os Inquietos – Gus Vant Sant (2011)”

  1. MUITO TOCANTE ESSE FILME. UMA HISTÓRIA DE AMOR INESQUECÍVEL!!!!!!!!

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