Crítica: O Abismo Prateado – Karim Aïnouz (2011)

Por coincidência,  outra vez temos o mar, nesse caso com  trovões. O mar como força inexorável, brutal, implacável. Logo, um corpo no mar, depois fora do mar. Diferente de Eu Receberia… e Ex Isto esse corpo é consciente de sua volta, está abalado, mas forte para continuar. Corte para uma cena de sexo. É o mesmo homem do mar. A brutalidade também está presente, como em “Eu Receberia…”. A intensidade é inquestionável. Enfâse nas alianças em plano-detalhe. Serão eles casados? Ambos estão traindo? Porém, logo os corpos se separam, o dia começa. Os afazeres se impõem. A distância entre os dois é tão visível que nem as falas carinhosas conseguem mudar a situação. Não há dúvida, é um casal em crise, em situação terminal. Essa crise será levada adiante em todo o filme.

Separados, começa a jornada da protagonista (Alessandra Negrini). Há acidentes que acontecem de sopetão, aumentando a instabilidade/imprevisibilidade da personagem. Nas belíssimas cenas nos 2 táxis os fundos desfocados cheios de luz (Wong Kar-Wai) acentuam a desorientação, assim como na boate e nas externas na rua. Os planos próximos   tanto fixos quanto em movimento (caminhando ou de bicicleta, lembrando Hou Hsiao-Hsien (Adeus ao Sul)) colam nos poros para sugar toda a intensidade dos sentimentos de solidão/desespero/vulnerabilidade da atriz.  Os ruídos gritantes em sua volta reforçam o caos que vive, como o ar-condicionado do motel que se torna insuportável. O mundo se torna sem forma, sem vida, nebuloso.

A encenação é mais rigorosa que  Madame Satã e Viajo Porque Preciso…, os blocos do filme são delimitados e fluem naturalmente. Porém, nota-se a sequência interminável de sensações, algo caro ao diretor. Os planos gerais são valiosos para demonstrar o isolamento da personagem em relação ao meio que vive. Tanto que suas relações são escassas. Lá pelos 50 minutos, ela conhece uma criança e seu pai, e o filme se torna poético. É impressionante o uso do espaço no aeroporto: há uma leveza de movimentos, os diálogos são doces, a alegria do contato pessoal transparece para os três. Tudo está no seu devido lugar e o mundo volta a ter sentido novamente.

A personagem só diz seu nome depois da metade do filme. Como se isso não importasse, era apenas um detalhe, só sendo necessário quando sua nova amiga  (criança, personagem que surge como um anjo) pergunta. É como se todas as bases sólidas nas quais a personagem se sustentava foram por água abaixo. Por fim, depois das intensas experiências, do aprendizado vivido, fica claro que é preciso deslocar-se para viver, a estagnação sufoca a vida. Antes, Violeta (Negrini) queria reatar, não aceitava o fim e queria ir atrás do ex-marido, como se não pudesse aceitar resignadamente. Mover significava sobreviver, não deixar a vida escapar das mãos. Depois de sua lição, um horizonte se abre em sua frente. Nesse caso, mover significa conhecer o outro, conhecer a si mesmo, encontrar seu lugar no mundo e ter plenitude de sentimentos. Ter consciência das feridas que possui e suportá-las. Estar purificada e aberta tanto ao presente quanto ao que o destino a reservar.

Enfim, para viver é preciso mover-se, seguir em frente.  Esse fascínio pela vida que resiste, tem por fim gerar (tanto nos personagens quanto nos espectadores) uma vontade de viver intensamente. Todos passamos por situações difíceis. A força que usamos para superá-las e o aprendizado decorrente é o que define a intensidade e o sentido de algo comum a todos: estar no mundo.

G.C.

2 Comentários to “Crítica: O Abismo Prateado – Karim Aïnouz (2011)”

  1. Acho que o Karim tem uma sensibilidade grande. Não é a toa que é chamado do cineasta do afeto.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s