Crítica: Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios – Beto Brant e Renato Ciasca (2011)

O primeiro plano do filme, uma mulher nua na areia em uma postura selvagem, remete a Ex Isto (Cao Guimarães, 2011). Logo somos transportados ao lugar: som de água (desde a tela preta), uma balsa, muita água. Um território que ainda podia passar por litorâneo. Depois, casas de madeira, índios e a localização se torna precisa.

Na sequência desse plano, muito do que veremos no filme: a beleza ressaltada, representada por forte batom vermelho nos lábios. Logo em seguida, o casal se pinta, como índios (e com uma boa pitada de sensualidade) de preto e vermelho. Em seguida transam. Logo vemos que as referências são piscadelas, o casal nunca pertence realmente àquele território. São seres estranhos ao local, embora agregados a ele.

O discurso do padre explicita mal-estar no espaço, alertando para as incongruências da região. Em O Invasor por exemplo, o discurso está implícito. As pessoas vivem em um sub-mundo que é maior que os personagens, inexorável. Nesse filme, o caos é relacionado à rua, que pouco aparece, mas simboliza uma opressão maior que a cidade menor. Se essa última é insuportável, a cidade é impossível de viver (o corpo vira ganha-pão, tornando-se uma virtude indesejada).

Logo antes da sessão os diretores, presentes na platéia, falaram de “Amor” e “desmatamento”. O último só é tratado com as piscadelas. É citado no começo do filme e depois só depois de 80 minutos. Os personagens não enxergam sua volta. E, mesmo quando o protagonista vê, nada faz. O Amor é tido como carnal, desejo irreprimível. O que acarretará consequências mórbidas. No fim, dada as mudanças, o Amor é se transforma em algo destruidor/destrutivo: ela passiva no fim e a insistência forçada por ele. Um homem generoso, e uma mulher agradecida. Típico esteriótipo. Uma visão unidimensional do Amor (parte de uma só pessoa).

Quanto a encenação, eis minhas impressões: as citações não criam nem humor, nem seriedade, nem suspense. São ascéticas. Há sempre uma tendência a chocar pelo excesso (como um Michael Haneke), seja nas falas, nas situações, nos destinos que se apresentam ou mesmo na imagem ou no som. As engrenagens da cidade são vistas apenas na superfície, tida como assombrosa mas sem se saber o porquê. Uma cena interessante é a do exorcismo, em que o vômito da protagonista significa tanto expurgação espiritual (purificação) como física (se livrar do que faz mal ao corpo = álcool). Os sotaques/modos de falar das classes são homogêneas, todo mundo fala polidamente (a prostituda diz: “Há dias não a vejo”. O ato de fotografar não é retradado nem na superfície, nada. Há uma piscadela quando ele tem uma câmera antiga e lhe cai a idéia de usá-la de novo. Puro fetiche. Artimanha de roteiro. Estranho quando se tem um protagonista fotógrafo.

Quanto a montagem, as elipses gigantes geram uma desorientação perturbante, um quebra cabeça com peças mal encaixadas. No início do filme, as pistas são jogadas ao acaso, sem ter nenhuma informação anterior. O fim do filme irá nos fazer o favor de juntá-las, mesmo que sofregamente (palhaço/bandido, caixinha, primeiro padre/marido). Então, as relações de causa-efeito já não ocorrem, as causas são advindas de um “ser superior”, são implacáveis. Assim se cria uma desproporção dos feitos dos personagens e suas punições. A degradação toma níveis extremos. Por fim, a recuperação da protagista é fácil, incoerente. Parece que o mundo ficou brando depois do ocorrido, quando não deveria. Afinal, não é o mesmo mundo?

G.C.


		

One Comment to “Crítica: Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios – Beto Brant e Renato Ciasca (2011)”

  1. O livro é muito mais interessante.

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