Mês: outubro 2011

Crítica: Os Inquietos – Gus Vant Sant (2011)

Diferente dos seus outros filmes, está em jogo o ato de conhecer pessoas diferentes e compartilhar experiências com elas. Isso está em Milk, mas é tão dilacerado pela quantidade de amizades que se torna fraco no geral. O que é bastante acentuado, como em Milk, é a coesão narrativa que o filme apresenta (diferente de Last Days, Elefante, Gerry).  Os usos das músicas reforçam esse caráter narrativo, funcionando para obter sentimentos exatos (sem abstrações).

Temos também os adolescentes, a câmera funcionando de uma maneira excessivamente não-participativa  (menos nos casos em que ela tem liberdade, como em um plano zenital com o casal, na risca de giz, e quando a câmera faz panorâmicas para revelar um plano-detalhe), porém, de um modo diferente de Elefante. Ela está presente, mas não invade o local e sua presença não é significativamente ativa. Câmera essa sempre atrás dos personagens, nunca ousa confrontar o olhar dos personagens (e nem o personagem ousa se aproximar do eixo que sai frontalmente da câmera).  Os eixos, então, funcionam de maneira diagonal (em que o olhar sempre sugere o off-screen às laterais da sala de cinema) ou lateral (- (imagine os 2 lados do hífen como sendo cada um dos personagens, e a linha, o olhar dos personagens, de perfil para a câmera). Em suma, o eixo do olhar e como a câmera participa, em Os Inquietos, é totalmente oposto ao cinema de Eugène Green (sempre frontal).

Vemos também uma escola, com futebol americano sendo praticado, porém aqui é menos incisiva o papel de ser o plano de fundo e ser relacionados aos diferentes grupos da escola. Outra recorrência são as mortes aguardadas: (“Kurt” em Last Days e o massacre em Columbine). A personagem é totalmente consciente de sua doença e até brinca a respeito. Então, a morbidez é amenizada. Como são adolescentes nas situações, os corpos jovens e sadios (Em Inquietos, só aparentemente, pois há uma doença crônica, definida) formam uma espécie de contradição com seus estados, sempre em estado de degradação ou vivenciando-a muito proximamente.

Ao mesmo tempo que revela consistência narrativa, o filme se deixa libertar principalmente na cena da floresta: mesmo que as referências de gênero (terror, comédia, noir) estejam marcantes nos planos. Nessa sequência, a música serve para equilibrar (ou, também, tomar as rédeas do sentimento, direcionar) as imagens, que por si, teriam tom muito mais sinistros sem tal uso sonoro (um uso excessivamente narrativo para imagens interessantes tanto como em composição como narrativamente).

Alguns diálogos com o fantasma, principalmente as na beira do lago, há belos usos de foco/personagem-atrás-de-personagem, e o filme flerta com um surrealismo/realismo fantástico. Isso é acentuado quando o fantasma passa a interferir diretamente nas vidas dos personagens e fica claro em sua fala “Tive uma briga mais ou menos” = mais ou menos real, foi com um fantasma, mas o machucou: a entrada do fantasma ao mundo físico é finalmente realizada.

Seu fim também é simbólico, o gelo como permanência, paralisação. É isso que a morte significa, estado de estagnação: o tempo para de existir. Desnecessário também o pout-porri no fim. Só reforça o grau de incerteza quanto a ser fluído ou engessado (com tendência ao engessado). Os Inquietos é menos narrativo que Milk, e menos imersão que Gerry, Last Days, Elefante e Paranoid Park. Resumindo: ele é, duplamente, menos por menos.

G.C.

Crítica: O Abismo Prateado – Karim Aïnouz (2011)

Por coincidência,  outra vez temos o mar, nesse caso com  trovões. O mar como força inexorável, brutal, implacável. Logo, um corpo no mar, depois fora do mar. Diferente de Eu Receberia… e Ex Isto esse corpo é consciente de sua volta, está abalado, mas forte para continuar. Corte para uma cena de sexo. É o mesmo homem do mar. A brutalidade também está presente, como em “Eu Receberia…”. A intensidade é inquestionável. Enfâse nas alianças em plano-detalhe. Serão eles casados? Ambos estão traindo? Porém, logo os corpos se separam, o dia começa. Os afazeres se impõem. A distância entre os dois é tão visível que nem as falas carinhosas conseguem mudar a situação. Não há dúvida, é um casal em crise, em situação terminal. Essa crise será levada adiante em todo o filme.

Separados, começa a jornada da protagonista (Alessandra Negrini). Há acidentes que acontecem de sopetão, aumentando a instabilidade/imprevisibilidade da personagem. Nas belíssimas cenas nos 2 táxis os fundos desfocados cheios de luz (Wong Kar-Wai) acentuam a desorientação, assim como na boate e nas externas na rua. Os planos próximos   tanto fixos quanto em movimento (caminhando ou de bicicleta, lembrando Hou Hsiao-Hsien (Adeus ao Sul)) colam nos poros para sugar toda a intensidade dos sentimentos de solidão/desespero/vulnerabilidade da atriz.  Os ruídos gritantes em sua volta reforçam o caos que vive, como o ar-condicionado do motel que se torna insuportável. O mundo se torna sem forma, sem vida, nebuloso.

A encenação é mais rigorosa que  Madame Satã e Viajo Porque Preciso…, os blocos do filme são delimitados e fluem naturalmente. Porém, nota-se a sequência interminável de sensações, algo caro ao diretor. Os planos gerais são valiosos para demonstrar o isolamento da personagem em relação ao meio que vive. Tanto que suas relações são escassas. Lá pelos 50 minutos, ela conhece uma criança e seu pai, e o filme se torna poético. É impressionante o uso do espaço no aeroporto: há uma leveza de movimentos, os diálogos são doces, a alegria do contato pessoal transparece para os três. Tudo está no seu devido lugar e o mundo volta a ter sentido novamente.

A personagem só diz seu nome depois da metade do filme. Como se isso não importasse, era apenas um detalhe, só sendo necessário quando sua nova amiga  (criança, personagem que surge como um anjo) pergunta. É como se todas as bases sólidas nas quais a personagem se sustentava foram por água abaixo. Por fim, depois das intensas experiências, do aprendizado vivido, fica claro que é preciso deslocar-se para viver, a estagnação sufoca a vida. Antes, Violeta (Negrini) queria reatar, não aceitava o fim e queria ir atrás do ex-marido, como se não pudesse aceitar resignadamente. Mover significava sobreviver, não deixar a vida escapar das mãos. Depois de sua lição, um horizonte se abre em sua frente. Nesse caso, mover significa conhecer o outro, conhecer a si mesmo, encontrar seu lugar no mundo e ter plenitude de sentimentos. Ter consciência das feridas que possui e suportá-las. Estar purificada e aberta tanto ao presente quanto ao que o destino a reservar.

Enfim, para viver é preciso mover-se, seguir em frente.  Esse fascínio pela vida que resiste, tem por fim gerar (tanto nos personagens quanto nos espectadores) uma vontade de viver intensamente. Todos passamos por situações difíceis. A força que usamos para superá-las e o aprendizado decorrente é o que define a intensidade e o sentido de algo comum a todos: estar no mundo.

G.C.

Crítica: Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios – Beto Brant e Renato Ciasca (2011)

O primeiro plano do filme, uma mulher nua na areia em uma postura selvagem, remete a Ex Isto (Cao Guimarães, 2011). Logo somos transportados ao lugar: som de água (desde a tela preta), uma balsa, muita água. Um território que ainda podia passar por litorâneo. Depois, casas de madeira, índios e a localização se torna precisa.

Na sequência desse plano, muito do que veremos no filme: a beleza ressaltada, representada por forte batom vermelho nos lábios. Logo em seguida, o casal se pinta, como índios (e com uma boa pitada de sensualidade) de preto e vermelho. Em seguida transam. Logo vemos que as referências são piscadelas, o casal nunca pertence realmente àquele território. São seres estranhos ao local, embora agregados a ele.

O discurso do padre explicita mal-estar no espaço, alertando para as incongruências da região. Em O Invasor por exemplo, o discurso está implícito. As pessoas vivem em um sub-mundo que é maior que os personagens, inexorável. Nesse filme, o caos é relacionado à rua, que pouco aparece, mas simboliza uma opressão maior que a cidade menor. Se essa última é insuportável, a cidade é impossível de viver (o corpo vira ganha-pão, tornando-se uma virtude indesejada).

Logo antes da sessão os diretores, presentes na platéia, falaram de “Amor” e “desmatamento”. O último só é tratado com as piscadelas. É citado no começo do filme e depois só depois de 80 minutos. Os personagens não enxergam sua volta. E, mesmo quando o protagonista vê, nada faz. O Amor é tido como carnal, desejo irreprimível. O que acarretará consequências mórbidas. No fim, dada as mudanças, o Amor é se transforma em algo destruidor/destrutivo: ela passiva no fim e a insistência forçada por ele. Um homem generoso, e uma mulher agradecida. Típico esteriótipo. Uma visão unidimensional do Amor (parte de uma só pessoa).

Quanto a encenação, eis minhas impressões: as citações não criam nem humor, nem seriedade, nem suspense. São ascéticas. Há sempre uma tendência a chocar pelo excesso (como um Michael Haneke), seja nas falas, nas situações, nos destinos que se apresentam ou mesmo na imagem ou no som. As engrenagens da cidade são vistas apenas na superfície, tida como assombrosa mas sem se saber o porquê. Uma cena interessante é a do exorcismo, em que o vômito da protagonista significa tanto expurgação espiritual (purificação) como física (se livrar do que faz mal ao corpo = álcool). Os sotaques/modos de falar das classes são homogêneas, todo mundo fala polidamente (a prostituda diz: “Há dias não a vejo”. O ato de fotografar não é retradado nem na superfície, nada. Há uma piscadela quando ele tem uma câmera antiga e lhe cai a idéia de usá-la de novo. Puro fetiche. Artimanha de roteiro. Estranho quando se tem um protagonista fotógrafo.

Quanto a montagem, as elipses gigantes geram uma desorientação perturbante, um quebra cabeça com peças mal encaixadas. No início do filme, as pistas são jogadas ao acaso, sem ter nenhuma informação anterior. O fim do filme irá nos fazer o favor de juntá-las, mesmo que sofregamente (palhaço/bandido, caixinha, primeiro padre/marido). Então, as relações de causa-efeito já não ocorrem, as causas são advindas de um “ser superior”, são implacáveis. Assim se cria uma desproporção dos feitos dos personagens e suas punições. A degradação toma níveis extremos. Por fim, a recuperação da protagista é fácil, incoerente. Parece que o mundo ficou brando depois do ocorrido, quando não deveria. Afinal, não é o mesmo mundo?

G.C.