Crítica: Ten – Abbas Kiarostami (2002)

Ten é um filme quase inclassificável. A começar por sua equipe. Nos créditos, não há distinção entre diretores de arte, fotografia, som, nada. Só há os nomes dos atores (Kiarostami é um deles, o pai do menino).

Excluindo a mulher que dirige o carro nas cenas, que por vezes demonstra um apego ao texto, é difícil saber se os atores estão ou não atuando. É tudo tão espontâneo que a câmera parece ser estranha ao ambiente, sugando as discussões/conversas de modo que não toma parte, se camufla. Por outro lado, há uma escolha de quem deve ser mostrado em cena. Nunca temos pingue-pongue, sempre um só personagem é mostrado.

O grau de comprometimento com as situações (principalmente a criança e a idosa) fazem com que se pense que aquilo faz parte da vida dessas pessoas. São sentimentos e gestos tão verdadeiros que uma encenação poderia por em risco seu grau de realismo.

Então, Kiarostami está interessado em quebrar as regras do dispositivo, mostrando os dramas reais sem todo os apetrechos (usualmente) necessários para a construção de tal. Seu foco é extrair as dúvidas, questonamentos, angústias de seus personagens, fazendo com que isso por si só seja a força de seu filme.

Inevitável não tentar fazer a distinção entre ficção e documentário. Porém, Ten não se assume nem como um, nem como outro, embora tenha características dos dois. É uma espécie de simbiose, sendo que esse termo mesmo em sentido biológico serve para ilustrar o uso no filme:  “relação mutuamente vantajosa entre dois ou mais organismos vivos de espéciesdiferentes”. Podemos dizer que doc e ficção são de espécies diferentes, embora contenham suas semelhanças (um recorte, tema, conflitos, etc), e ambos costumam se beneficiar de algumas das características do outro (ex de doc: A Tênue Linha da Morte, que é ficionalizado ao extremo, ou na ficção, os Dogma ou o neorrealismo). Nesse caso porém, os gêneros estão entremeados com uma finalidade, garantir que essa distinção seja temporariamente ignorada para obter a vantagem de agrupá-los, fazendo com que o todo seja maior que a soma das partes.

G.C.

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