Crítica: The Scarlet Empress – Josef von Sternberg (1934)

Radicado nos EUA (como Lang, Wyler, Capra, Murnau, entre outros) na transição silencioso/sonoro, Sternberg filma uma história praticamente banal por ser entre os entre-guerras, quando o nazismo fincava suas bases na Alemanha, como que ignorando seu contexto.

Permeia pelo filme a tradição da palavra, herdada do silencioso, exemplificado com vários letreiros e com uma carência evidente de diálogos. A música porém, trata de controlar a emoção, impulsionando o movimento (tanto os de câmera quanto dos personagens, sozinhos ou principalmente em grupo). Então, nos ápices das músicas a encenação se transforma em um circo, quase uma catarse. Não vemos uso subjetivo do som, a sincronização (como os sinos) é perseguida constantemente.

Visualmente, Sternberg preza pelo claro-escuro, visível nos cenários, que se dividem entre áreas de penumbra e iluminadas, metodicamente. Nota-se também uma preocupação com formas geométricas e na repetição de elementos. Anteparos em primeiro planos são frequentes (velas, lustres, cruzes). Além do uso de ângulos não usuais e excesso de fusões.

Algo a se notar é que a posição dos personagens na tela dirige a atenção do espectador com sucesso. Um plano em que a futura imperatriz está com seu futuro marido, ela é fortemente iluminada quando ele está na penumbra, simbolizando vida-morte, alegria-morbidez (a morbidez que ronda o castelo).

Interessante também a evolução de Catarina, de educação rígida e sendo a materialização da mulher passiva, se transforma em sedutora, manipuladora e combativa. Vemos então uma inversão do papel tradicional da mulher, se tornando agente e não apenas se submetendo às vontades de um homem, ou das regras da sociedade. A partir de determinado ponto, ela faz suas próprias regras.

O que mais impressiona é o virtuosismo técnico do filme. Logo nos créditos há o orgulhoso aviso de que foram usados mais de 1000 figurantes. Esse virtuosismo é traduzido em movimentos de câmera complexos, detalhismo nos cenários (ou mesmo nas externas, como a cena da floresta) ou pelo que está sendo encenado, como as dezenas de cavalos no castelo, que se torna uma atração por si só.

Assim, temos um trabalho de artesão, que, se peca por sua falta de verdade histórica ou comprometimento com o contexto de sua época, transborda exímio artístico com sua mise-en-scène laboriosa e competente.

G.C.

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