Crítica: Shutter Island – Martin Scorsese (2010)

 

Em Shutter Island Scorsese entra em um território inexplorado até então, o suspense. Um travelling lento logo no início do filme para mostrar um dos comandantes da ilha em sua poltrona, exemplifica sua nova abordagem. Também retoma o surrealismo presente em Depois de Horas (1986), nesse caso tratando de alucinações e sonhos com um domínio brilhante, dando um nó tanto na cabeça dos personagens quanto na do espectador.

Suas marcas estão lá, o catolicismo presente em questionamentos sobre Deus, a violência exacerbada como no massacre, porém, há mais um elemento novo em sua filmografia, a alienação (em Touro Indomável, La Mota era mais alienado em sua personalidade como que uma doença, uma espécie de determinismo), em A Ilha do Medo a dominação se expressa por um sistema que pune ou aparenta punir (tudo é maleável no filme) deficientes mentais, fazendo experimentos para tornar humanos em máquinas incapazes de sentir qualquer emoção ou sensação.

Nessa trajetória revelações serão construídas e descontruídas, verdades se revelarão meias-verdades ou mentiras, e em uma direção apontada há uma pista falsa quebrada (no estilo Clube da Luta). Porém, apesar da narrativa aparentemente desconexa, há um rigor em Scorsese, e seu modo conciso de dirigir (às vezes nem tanto, dando a parecer que uma cena ou outra poderia ser dirigida por qualquer outro diretor do gênero – se é que esse filme tem um gênero) transparece, mesmo que remetendo ao caos de Os Infiltrados. Em outras palavras, há rigor na quebra da narrativa clássica, que Marty parece querer suplantá-la, tornando o filme numa experiência fragmentada, como se colocasse a trama num liquidificador, ligando-o e tentando reunir os pedacinhos.

Assim, Scorsese retorna à sua liberdade que o fez criar obras seminais como Taxi Driver, Touro Indomável, Caminhos Perigosos e Depois de Horas – Cassino e Bons Companheiros, outras de suas melhores películas, estão mais atreladas ao convencional, e após Cassino, há praticamente uma entrega ao modo “não vou fazer filmes tão disparatados, que reinventam”, até os Infiltrados. Será que daqui alguns anos se revelarão obras além de seu tempo?

O que se nota é que Scorsese está a par de seus contemporâneos – há um quê de Bastardos Inglórios em A Ilha do Medo. Mas ele não se contenta em fazer o que já foi feito tantas vezes, mesmo que as narrativas não-convencionais existem há tempo; me parece que ele pretende fazer com que essas sejam englobadas pela indústria, elevando o espectador e não lhes entregando mais-do-mesmo.

G.C.

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