Mês: fevereiro 2010

Crítica: The Hurt Locker – Kathryn Bigelow (2008)

O título em português, Guerra ao Terror é outra péssima tradução, visto que Hurt Locker significaria algo como “o bloqueador de dor” (alguém que não consegue se afetar com situaões extremas).

Trata-se de um filme mais ideológico que qualquer outra coisa. Sua mensagem é que os soldados em Bagdá estão totalmente perdidos, não geograficamente, mas interiormente. E que é preciso se desligar (o bloqueio) para encarar a situação, ou seja, se desumanizar. Portanto, serve para um público ávido por filmes pacifistas/anti-belicistas, visto o desempenho de Avatar.

Sua linguagem, em consonância com a contemporânea (montagem de videoclipe, que por vezes desnorteam e ultrapassa a capacidade do espectador de apreender as imagens; câmera na mão, que é tendência, mas se mostra desnecessária ou irritante em certas horas; e os slowmotions/CGI que são primorosos).

Outro fator que gera um incômodo é sua quase monocromia na maior parte do filme. A cor de areia parece não querer sair da tela.

Outro: a insistência em construir as ações em torno de um desarmamento de bomba. Chega a ser repetitivo. Todos os ápices estão nesses momentos, a não ser na cena do incêndio (que juntamente com o desarmamento do homem que tem uma bomba junto ao corpo, são os melhores momentos do filme). Esses momentos carregam uma intensidade difícil de ser alcançada. Nesses casos são pontos positivos para Kathryn.

É inegável que The Hurt Locker funciona, tanto pela força de sua mensagem quanto aos seus momentos de virtuosismo. Mas seus defeitos estão ali, acenando toda hora para um espectador minimamente atento.

G.C.

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Crítica: Rudo Y Cursi – Carlos Cuarón (2008)

Produzido pelos mexicanos-hollowoodyanos Guilhermo Del Toro, Alejandro Gonzáles Iñárritu e seu irmão Alfonso Cuarón (seu irmão), Carlos, roteirista de I Tu Mamá También (2001), com quem compartilha mais atributos estéticos com Alfonso que com os outros 2, estréia em direção de longas com uma comédia sobre futebol, irmandade, sorte e destino, com o par de atores mexicanos mais conhecidos internacionalmente: Diego Luna e Gael García Bernal.

Com a camêra na mão que distoa de toda a encenação (claramente fictícia), com suas iluminações e cenários não-realistas, perde-se muito de sua força (um tripé ajudaria muito). Uma coisa anula a outra.

Duas cenas se sobressaem: o clipe de Tato, hilário e o jogo final (onde temos a aproximação com Hollywood, quando se dá o maior virtuosismo técnico do filme). Porém, muita pouca atenção é dada aos lances, quase nunca são mostrados.

Os irmãos parecem não saber lidar com os obstáculos, que parecem mais cair do céu do que serem impostos, como se para amarrar o roteiro. Além disso, durante os 30/40 minutos centrais há um excesso de problemas a serem resolvidos, o que sobrecarrega a vida dos dois, presumindo que só um milagre irá solucionar suas vidas.

Vemos também personagens secundários sanguessugas e oportunistas. Batuta, o que mais se induziria que seria mais um desses, se revela honroso no final.

As vozes em off do narrador são todas incríveis, com comentários aguçados e demonstrando alguma sabedoria que os personagens não possuem (estão todos perdidos em um turbilhão de acontecimentos).

Trata-se de uma investida descompromissada, que peca pelos seus detalhes, podendo ser mais incisivo, o que não foi a opção. Carlos se mostra inferior a seus produtores, o que não significa que não seja bom. Em seus melhores momentos temos a sensibilidade de Y Tu Mamá, mas em seu conjunto a obra se mostra desfragmentada, um tanto previsível e pouco inovadora. Ao menos Carlos ainda finca suas raízes no México, coisa que seus colegas esqueceram.

G.C.