Crítica: An Education (2009) – Lone Scherfig

Jenny (Carey Mulligan) é uma garota de 16 anos e uma grande missão de vida: ser aceita em Oxford e estudar inglês, em plena década de 1960. Na verdade, essa é a situação da personagem por um impasse mal resolvido entre ela e seus pais, que acreditam em um inevitável compromisso com a educação em formas institucionais. É claro que Jenny também gosta de arte, concertos, língua e música francesa, além de clubes noturnos repletos de glamour e gente falando “c’est très chic”, mesmo não os conhecendo. E essa é a função de Peter Sarsgaard, sendo David, um homem gentil e maduro disposto a oferecer à jovem garota a chance de utilizar sua inteligência e bom gosto em leilões de arte e até mesmo sua frivolidade em lugares, suponha-se sabido, “três chic”.

Dirigido pela dinamarquesa Lone Scherfig (Italiano para iniciantes – Dogma #12) e roteirizado por Nick Hornby (Um grande garoto), baseado em memórias de Lynn Barber, Educação apesar de ter um ritmo digno de blockbuster e créditos iniciais um tanto pop, reserva muito mais para outro tipo de público com seu texto apurado e ágil e sua multiplicidade de formas estéticas na direção. É certo que é costume esperar em filmes ambientados em décadas passadas as respectivas formas de identificação espacial. E vezes ainda são reexperimentadas as marcas estéticas de períodos passados do cinema, como enquadramentos clássicos, iluminação, entre tantas. Lone Scherfig faz um filme multifacetado, que deseja dialogar com o que o cinema é em seu “todo”, apoiada nas possibilidades do cinema contemporâneo em mesclar discursos e estilos, aproximando-se de uma linguagem muitas vezes pop sem utilizá-la de fato. Apesar disso, é algo bem sutil quando comparado ao que Sofia Coppola fez em Maria Antonieta e, ainda assim, não é o mesmo caminho. A sensação de pluralismo estético é mais próxima da que tive ao assistir Savage Grace, de Tom Kalin, que também reproduz na linguagem os conceitos técnicos que registram na diegese uma opção estilística inegável em relação ao tempo cronológico, apesar de não ser esse o ponto de equilíbrio em Educação e nem com tamanha intensidade.

Antes mesmo de 10 minutos de duração, temos em Educação, após uma sequência de planos subjetivos no carro de David, um belo movimento de câmera em plongée do chão do quarto de Jenny marcado de sombras (inclusive dela).

No final da primeira parte do filme, novamente vale ressaltar um movimento de câmera bem elegante, quando David e seu amigo Danny (Dominic Cooper) resolvem se distrair usando raquetes e uma bola enquanto Jenny e Hellen (Rosamund Pike), namorada de Danny, não ficam prontas. A cena prossegue acompanhada de uma música diegética que se encerra com um ato de Jenny virando-se para Hellen, como se num instante calculado a música passasse a ser extra-diegética seduzida por uma deixa visual. Mais notável ainda é a sequência na velha Paris dos apaixonados, belamente sonorizada, apenas imagem reinventada de velhos cinemas como se Paris nunca fosse conhecida antes, assim como diz Jenny no encerramento do filme, uma homenagem ao cinema. É bem provável que para os mais atentos o filme possa ser considerado uma amálgama de estilos que não se acomoda, apenas equilibra-se. O interessante é que Lone Scherfig apóia-se no próprio amadurecimento da perspectiva de Jenny em relação ao mundo que se adentrava. A sensação são movimentos de câmera, enquadramentos e sonoras díspares em duas situações: Jenny menina, Jenny mulher. Apesar disso, sinto que são nuances de uma mesma linguagem e não encaro como uma direção indecisa, nem tão pretensiosa como talvez esteja parecendo. Pareço falar de efeitos da mise-en-scène, mas depois de tanto tempo sem escrever críticas em blog e não querendo cair na tendência que nós, alunos de cinema, costumam ter em utilizar esse termo até mesmo em mesa de bar, prefiro simplesmente ignorá-lo por enquanto.

Se a trama assumisse um estilo pipoca é certo que veríamos o personagem David dirigindo um conversível e Jenny vestida para provar o conceito de falta de beleza ou bom gosto, em moldes nerd ou apenas naturais. Não se tratando disso, An Education logo mostra suas preocupações estruturais e um cuidado interessante com seus personagens. Se David fosse uma peça de xadrez, certamente seria de um jogo às cegas, já que faltam-nos informações sobre sua origem, idade, parentesco, ou coisa qualquer. A perspectiva que nós temos é até onde Jenny pode alcançar. Assim também são os seus amigos, Danny e Helen, que assumem maiores medidas em uma balança que logo começa a dar indicações da personalidade de David e de um provável conflito. Um dos pesos que tornará o caminho do roteiro menos provável é a ingenuidade e juventude de Jenny, a qual por um recente fascínio de mulher adulta também vê em Danny algo que inspira olhares, permissivo por um novo comportamento que David ajudou desenvolver. Nesse emaranhado ficam possibilidades como “será isso uma história de amor adolescente bem sucedido ou não?” ou “um filme sobre sonhos e vida adulta?” ou apenas sobre a escolha: “atalho ou educação?”. Enfim, onde realmente interessa chegar é evidenciar a importância dos personagens bem desenvolvidos para o curso que a trama resolve assumir. A partir de um texto bem consistente e lógico, a narrativa mostra que seu interesse maior é criar um campo de forças contrárias diante de duas escolhas, os atalhos que a vida pode oferecer, mesmo ora indigno e imoral, e o caminho mais longo da educação, mesmo esse não se sustentando mais tão coerente e disciplinar na sociedade do pós-guerra, fragilizada pela ruína dos paradigmas modernos.

Excelentes atuações em geral, com destaque para Carey Mulligan (esse nome vai bombar, aguardem) e Alfred Molina (pai de Jenny). Deixando de desmembrar o filme, o todo não chega nem perto do extraordinário, é um filme redondo e bem cuidado que não deixa de ser criativo. São plausíveis as intenções de mesclar elementos clássicos e contemporâneos, pois não perde a linha narrativa nem peca por exagero.

Wiliam Domingos

4 Comentários to “Crítica: An Education (2009) – Lone Scherfig”

  1. “mise-en-scène… …tendência que nós, alunos de cinema, costumam ter em utilizar esse termo até mesmo em mesa de bar”
    Ei Will, que bar vc anda indo hein?! Eheheh

  2. Eu não disse que utilizam o termo corretamente. Aliás, qualquer coisa que eles não sabem o que é sai a tal “mise-en-scène” da boca. Não é sempre, mas já tiveram alguns episódios meio bizarros, e você imagina bem, rsrs.

  3. Eu tbm não disse que usam.

    Na mesma onda, o Sérgio Alpendre comentou anteontem sobre Tiradentes:
    “Quando se soma à vulgarização da expressão mise-en-scène, o cenário fica ainda pior.”

  4. Danny e Jenny, seria interessante. Concorda?

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