Crítica: Deliverance – John Boorman (1972)

Boorman, um dos mais conhecidos diretores britânicos, por sua versatilidade de gêneros (político, épico, guerra, horror) e por seu apelo visual, narra a viagem de quatro amigos (Ed, Lewis, Bobby e Drew) que pretendem descer um rio que será destruído por uma represa. Nesse caminho suas vidas serão alteradas pela bestialidade/crueldade/violência/luta pela sobrevivência a qual passarão.

No começo encontram os habitantes da região, interioranos enraizados em suas terras e costumes. Um duelo de banjo entre Drew e um garoto local é de uma sensibilidade poucas vezes vista.

Quando os amigos se separam, Ed e Bobby são surpreendidos por dois habitantes do local, que os mantém sobre a mira de uma arma. Os habitantes são dois cruéis irracionais que veem no sofrimento alheio seus estados de êxtase. Logo Bobby é estuprado e Ed amarrado pelo pescoço, em uma cena intensamente brutal. A abordagem agressiva em um lugar desconhecido irá se repetir em Barry Lyndon (1975), e o estupro é base para Pulp Fiction (1994). Lewis acerta um dos agressores e o outro foge, acabando com a violência inconsequente e desumana.

A partir daí, ideias como democracia, capitalismo, liberdade serão postas em jogo, sendo que elas não tem nenhuma utilidade naquele local, que é regido pela força da natureza(que é posta em evidência pela sua força ou grandeza, dos rios e montanhas) e pela lei do mais forte.

Logo após há outro conflito na montanha, em outra cena de forte impacto visual. Ed encontra um sujeito e acredita ser o fugitivo, mas não sabe ao certo. Por fim, esse sujeito toma uma flechada não sei daonde e morre (talvez foi uma coruja arqueira). Ao fim do rio, a polícia irá culpá-los dos crimes, mas não têm evidências e o caso se encerra.

Todos os seus planos parecem ser milimetricamente calculados, onde tudo que está presente na tela tem seu papel. Um uso interessante que faz do espaço dentro-da-tela é fazer com que uma pessoa entre na tela por onde o espectador nem imagine, ou seja, há uma reinvenção do espaço no intuito de confundir (o personagem sai no fundo da cena e aparece depois em primeiro plano). Ou nos créditos, quando ocorre uma elipse sem que haja cortes quando um carro percorre uma distância em um tempo menor que deveria (um corte forjado como em Rope (1948)).

Aí reside parte da força do cinema: alterar as convenções espaço-temporais e usá-las como bem entender. Até perto do fim do filme há sempre uma faixa de áudio simbolizando uma inquietação da natureza: barulho da água em intensidades diferentes, de diversos animais, ou sons de corda.

Um diretor que estava escalado para dirigir Deliverance era Sam Peckinpah, que um ano anterior filmaria Sob o Domínio do Medo – e o filme tem cara de Peckinpah mesmo, mais pela temática que pelo visual. Ao alinhar esses fatores, Boorman nos trouxe um raio-x da brutalidade humana, tratando as vítimas, os carrascos o ambiente e sua relação com o homem, como uma unidade em que fatores que vão além da nossa compreensão agem diante de nós.

G.C.

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