Crítica: Estate Violenta – Valerio Zurlini (1959)

Produzido na época mais fecunda do cinema italiano, contendo as principais características do que viria a ser o cinema moderno, dialogando com os filmes de Fellini: cena de circo, movimentação teatral dos personagens; e Antonioni: extrema valorização do espaço e sua relação com os atores (e esses com o fora-de-quadro); além do melodrama sirkiano: uma releitura de Tudo que o Céu Permite, onde a viúva tem como obstáculo a família que recusa a aceitar seu amor com outro, por motivos familiares e por ele ser um jovem, além de motivos políticos (que não se encontram em Sirk, que se baseia na ignorância da sociedade) Verão Violento é uma obra-prima, uma aula de cinema.

No contexto da 2ª Guerra, Carlo (Jean Louis Trintignant) se apaixona por Rosanna (Jacqueline Sarrard) , e até a conquista há muitas cenas de preparação onde aumenta a intensidade da relação progressivamente. O jogo de olhares e a posição dos personagens na tela e seus movimentos são imprescindíveis na compreensão de suas atitudes e também do filme como um todo, já que sua linguagem privilegia isso de modo a criar um novo modo de se expressão, que vai além das palavras – algo que Bergman estava praticando com sucesso na época.

A iluminação tem vida própria, invadindo ou saindo do ambiente, ou inundando, cortando ou ocultando os rostos, dando-lhes dramaticidade. Três cenas em que a luz se sobressai é a do encontro dos militares com Carlo à noite, o chamando para se alistar; a festa, em que a luz determina o ambiente e o clima do lugar, passando de um lugar frio para uma ambientação sensual:

e que irá desembocar na belíssima cena dos fogos de artifício:

e a do circo, em que Rosanna resolve responder ao interesse de Carlo com sua lanterna, quando a luz acaba:

Uma situação é criada na festa, o casal dança, se beija, e Roberta, namorada de Carlo, vê. A filha de Rosanna percebe o ocorrido e a reviravolta faz com que a nova relação seja colocada em destaque.

A guerra, que permeia todo o filme, irá mostrar sua fúria em um bombardeiro perto de um trem onde o casal se encontra. A cena é complexa (como foi feita, lembrando uma cena de fogos de artifício de As Férias do Senhor Hulot (1953) de Jacques Tati) e atordoante.

Todas as cenas carregam sua intensidade, decorrente da guerra ou da relação daquelas pessoas, em um ritmo compassado e enxuto, mostrando-nos só o essencial (mesmo que o essencial seja a vida fácil da burguesia italiana).

A trilha remete ao cinema clássico, a não ser na festa, onde as variações de gênero condizem com o estado de espírito dos personagens, até que entra um jazz no momento de maior tensão, com o clima pesado, pra ironizar e contradizer o que o espectador e vê e o que ouve.

Cineastas como Hou Hsiao-Hsien ou Tsai Ming Liang mais tarde beberiam dessa fonte moderna, se calcando no balé dos personagens e valorizando o fora-de-quadro, desenhando o espaço fílmico com os atores.

Verão Violento nos traz o espírito criativo e o pensamento daqueles diretores que estavam e consonância na quebra dos paradigmas e que permanece servindo como inspiração de uma época que dificilmente será igualada na história do cinema.

G.C.

One Comment to “Crítica: Estate Violenta – Valerio Zurlini (1959)”

  1. Trintignant se enamora de Roberta (Eleonora Rossi Drago)

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s