Crítica: Public Enemies – Michael Mann (2009)

Mann nos dispões de todos seus elementos usuais: personagens participando de ações/tramas grandiosas; uma supervalorização das imagens, garantindo prazer estético; câmera na mão; apelo francamente comercial e quase ou nenhuma preocupação social ou respostas para os problemas propostos. Assim, temos uma obra que cumpre seu papel, nos fornecendo entretenimento que figura entre o que há de melhor nos EUA, porém, destituída de senso crítico, como em Miami Vice (2006).

Algo que é discutido é o papel da mulher na vida do homem, no caso, de John Dillinger (Deep), ladrão de bancos de renome que despeja comentários ácidos e inteligentes. Há uma metáfora quando assistem um filme no final, que supõe que a mulher é o que leva o homem ao desvio, que o corrompe. No fim, John é vítima desse mal, pois sua preocupação com Billie (Marie Cotillard) o levará ao fim de sua trajetória. Uma posição no mínimo questionável.

Como é visto no cinema Mann, Public Enemies se prolonga além do necessário (seus filmes se prolongam o máximo possível). Porém, suas imagens – com predomínio de cores e luzes quentes, como amarelo (presente na maioria dos planos) e o vermelho, além dos tons escuros cinza/preto; além de enquadramentos perfeccionistas – e seu domínio em cenas de ação fazem com que valha a pena, e os resultados de seus longas serão sempre agradáveis, bem recebidos, diretos e superficiais.

G.C.

3 Comentários to “Crítica: Public Enemies – Michael Mann (2009)”

  1. Opa.

    Decidi dar uma passada aqui então. Vou fazer um comentário meio “tiozão”, mas é que me pareceu pertinente…

    Acho complicado uma relação que você faz entre o “reflexivo” e o cinema comercial, como o aplica aqui no filme do Michael Mann e também no É proibido fumar. Primeiro porque todo o filme constrói ideias (mais até do que se apoiar em discursos/mensagens), no sentido que fornece uma visão perante o mundo (e aqui eu poderia me estender em papos acadêmicos…). Um olhar nunca é algo incólume, ele se depara diante de uma coisa (e muitas vezes, em blockbuster, essa “coisa” — cenário, luz, atores, maquinaria — é até exaustivamente trabalhada para render na tela frações de segundos…), e assim cada filme tem os seus próprios rumos, seu próprio estilo.

    É assunto que me interessa, especialmente nos filmes comerciaias, despreender-se das convenções do espetáculo, e procurar aquilo que difere o estilo de, por exemplo, 2012 de Avatar, saca? Não é uma questão de “autor”, mas encontrar as afinidades de cada diretor mesmo, a sensibilidade perante a trama, aos atores, etc.

    É nesse sentido que se pode descobrir ainda mais o trabalho de Mann. Ok, ele é um “autor” (um trabalho tão cuidado com a câmera, as formas, a montagem, a ponto de se despreender das “convenções” do espetáculo), mas acho bacana as nuances, as interligações, em relação a esse “espetáculo” justamente: o personagem no Christian Bale, por exemplo. Quem é esse cara? Até que ponto toleramos sua prática profissional? De que forma eu constato isso no filme? Não me parece só porque rola uma câmera na mão… O segundo ponto então é se despreender desse lance de “autor”, no que diz respeito a “invenção de linguagem”.

    Falo isso porque é uma parada meio UFF isso, uma coisa meio “o diretor é virtuoso, portanto argumentos de pertencimento ao circuitão e de ter discursos ultrapassados tornam-se irrelevantes”. Não disse que é exatamente oq vc disse, mas acho q a coisa tendia por aí. Daí o cara vai ver “Fogo contra fogo”, por exemplo, e não vê mais o autor — pronto!, o filme é “menor”, é só circuitão, é óbvio, etc. Vai pegar na história do cinema mundial gente tão diferente como Jacques Tourneur, Rossellini, Lang, etc., e só ver as ferramentas do “cinema clássico”. Saca oq eu tô dizendo? Digo isso porque caí na armadilha também.

    Não sei se ficou claro porque quase ninguém vê dessa forma na UFF (digo, os professores). Mas é uma parada muito importante.

    abraços

  2. O “reflexivo” realmente é vago, vou tentar explicar melhor: é quando um filme extrapola seu significado para outros além do que é mostrado, ativando a mente do espectador no sentido de (ahhh, aconteceu isso então posso extrair algo além do visível). Ao meu ver, Mann constrói suas sagas (dos personagens) e me parece que suas rotas convergem para um ponto e tudo à volta é simples pretexto para a trama. Em O Informante o que eu disse não faz sentido, por ter uma discussão sobre os meios de comunicação, etc. Mas no geral, ver Mann como autor é ver essas características.
    Concordo que ele é acima da média no que se propõe. Minha implicância é que as vezes em seus filmes me sinto levado em uma enxurrada de imagens e sensações (cinema pós-moderno?) que tem seu efeito terminado após a sessão. Em outras palavras, no que o filme me acrescentou ou pôs em pauta a não ser o virtuosismo?
    Sobre ser comercial ou não, na verdade não é essa minha implicância, pq no cinemão tbm sai coisa boa – se polarizarmos os 2012 e os Bastardos Inglórios.
    Até uns tempos sempre fui muito ligado à forma, mas quando vejo que a forma sobrepõe o conteúdo ao ponto de fagocitá-la, fico com o pé atrás.
    A analogia que vc fez me pareceu inversa. Mann se baseia nas ferramentas para dali extrair seu ponto forte, que me parecem ser a mise-en-scène e seu estilo visual. Creio que a força dos citados (com exceção de Torneur, que me parece se calcar nas ferramentas para construir novos estilos partindo dos estabelecidos, como Mann) está além das ferramentas. Digo, Rosselini e Lang (entre outros) dá toneladas a mais sobre o que pensar em relação a Mann.

  3. De fato, Michael Mann é um cineasta cujas imagens são bem mais “fortes” do que os outros que eu citei. Mas tenho minhas dúvidas se ele é mais formalista do que um Lang por exemplo. Em ambos, moldar a cena através dos ângulos, movimentos (ou falta de, como geralmente em Lang), espaços vertiginosos ou claustrofóbicos, luzes espessas ou voláteis… Ou seja, enxergar a “forma” e ver “para que” (péssima expressão) ela serve.

    Vc falou muito bem quando disse: “Minha implicância é que as vezes em seus filmes me sinto levado em uma enxurrada de imagens e sensações (cinema pós-moderno?) que tem seu efeito terminado após a sessão”. Já viu ALI? Fica uma sensação de um tempo irrefreável, uma vida incompreensível, que nos ultrapassa ao longo da projeção. Os filmes do Mann têm sempre este “sabor” amargo do tempo, da narrativa menor do que o mundo, e o mundo sempre maior do que a câmera pode captar. E nesse sentido que Mann pensa o “profissonal”, por exemplo: um autômato, incapaz de sentir o tempo que passa velozmente sobre sua vida, incapaz de dimensionar suas ações. Eles simplesmente trabalham — podem ter objetivos e vaidades, mas no fundo está tudo no fato de que eles não param de trabalhar. É como qualquer Duro de Matar na verdade, só que esvaziado de qualquer identificação.

    O meu comentário está meio confuso. Só queria falar que não é bom confundir cinema comercial com “falta” de uma forma (coisa do 1o. comentário).

    abraços

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