Crítica: Bad Timing – Nicolas Roeg (1980)

O britânico Nicolas Roeg, um dos poucos diretores de fotografia que se firmaram como diretor, nos apresenta uma trama sobre obsessão, compulsão, excessos, amor e a sua ausência. Com seu roteiro não obedecendo uma ordem cronológica, Bad Timing é precursor do estilo de montagem dos anos 90/2000, não pelos cortes rápidos, mas por criar um verdadeiro quebra-cabeça, e ainda assim, mantendo a história coerente, adicionando novos elementos e dando um desfecho à trama progressivamente.

Sua preocupaão com a imagem é evidente, construíndo cenários repleto de cores e ênfase em luzes dentro do quadro, como o quarto caótico de Milena, que transpira loucura. O vermelho é bastante utilizado, não a ponto de ser elemento criador de sentido como em (Don’t Look Now – 1973), mas simboliza paixão, fogo.

Art Garfunkel (do Simon & Garfunkel) está seguro como protagonista, fazendo o aparentemente equilibrado Alex, um psiquiatra. Uma das cenas iniciais mostra Milena (Theresa Russell) sendo levada em ambulância.

O filme contará a trajetória que levou esse fato acontecer. Harvey Keitel faz o policial insistente, que pretende ir fundo nas investigações e entender a razão do acontecimento. Alex e Milena vivem um relacionamento estável, na medida em que isso é possível, devido a inquietude de Milena. Quando Alex pretende casar-se com Milena, por não conseguir imaginá-la com outro, e ela recusa, por querer ser livre, cria-se uma espiral de acontecimentos intensos e absurdos, porém, plausíveis. São cenas carregadas de insanidade, e ela é aparente ou pelas ações dos personagens, ou está imbuída nos diálogos.

Duas cenas se sobressaem:  diálogo entre Alex e Milena na faculdade, onde conforme adquire intensidade de sentimentos, o fundo começa a desfocar, criando um efeito de instabilidade emocional. Tudo ao redor se torna excluído para os dois, e o mundo se resume a eles.

Outra cena é a das garrafadas. Violenta, raivosa, uma explosão. Só imagino a dificuldade de se criar uma sequência como essa. Primeiro, a atuação bizarra e sensacional de Milena, com o rosto maquiado, uma roupa medonha, totalmente pirada falando coisas sem sentido. Ela lembra uma das replicantes de Blade Runner, e a cena de algum modo me remete a Laranja Mecânica.

Os pontos fracos do filme são os que se relacionam à tendência dos “filmes de arte” dos anos 70/80, que optava por um erotismo até injustificado por razões comerciais (esse tipo de cinema atraía o público). Apesar disso, o sexo aqui ganha uma conotação que vai além do prazer, ela perpassa toda a loucura da atmosfera do filme. Isso influenciará a cena final, onde Alex comete um ato totalmente discutível moralmente. A intenção da cena foi de gerar polêmica (o que de fato aconteceu), pela carga de culpa ao presenciar tal ato. Aquele é o caminho ditado pelo roteiro, mas tudo que o espectador pretende é evitar que a ação se realize.

Com seus excessos e deslizes (menores que os acertos),  sua inovação na linguagem, maturidade ao tratar temas obscuros e ao materializar algo tão abstrato como a insanidade, Bad Timing é um filme à frente de sua época.

G.C.

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