Mês: dezembro 2009

Crítica: Public Enemies – Michael Mann (2009)

Mann nos dispões de todos seus elementos usuais: personagens participando de ações/tramas grandiosas; uma supervalorização das imagens, garantindo prazer estético; câmera na mão; apelo francamente comercial e quase ou nenhuma preocupação social ou respostas para os problemas propostos. Assim, temos uma obra que cumpre seu papel, nos fornecendo entretenimento que figura entre o que há de melhor nos EUA, porém, destituída de senso crítico, como em Miami Vice (2006).

Algo que é discutido é o papel da mulher na vida do homem, no caso, de John Dillinger (Deep), ladrão de bancos de renome que despeja comentários ácidos e inteligentes. Há uma metáfora quando assistem um filme no final, que supõe que a mulher é o que leva o homem ao desvio, que o corrompe. No fim, John é vítima desse mal, pois sua preocupação com Billie (Marie Cotillard) o levará ao fim de sua trajetória. Uma posição no mínimo questionável.

Como é visto no cinema Mann, Public Enemies se prolonga além do necessário (seus filmes se prolongam o máximo possível). Porém, suas imagens – com predomínio de cores e luzes quentes, como amarelo (presente na maioria dos planos) e o vermelho, além dos tons escuros cinza/preto; além de enquadramentos perfeccionistas – e seu domínio em cenas de ação fazem com que valha a pena, e os resultados de seus longas serão sempre agradáveis, bem recebidos, diretos e superficiais.

G.C.

Crítica: É proibido fumar – Anna Muylaert (2009)

Muylaert, diretora de Durval Discos (2002), retoma alguns temas de seu filme anterior: a mudança, seja de época, como quando Max (Paulo Miklos) diz que o futebol em outras décadas eram diferentes e dizendo que hoje os jogadores somente pensam em dinheiro; mudança de comportamentos, que apesar do nome do filme o tema é abordado apenas superficialmente; e a mudança de fases da vida, ao decorrer do tempo, como influi nas personalidades. Além disso, a música permeia todo o filme, sendo os personagens principais músicos, trazendo referências da MPB brasileira (Chico Buarque, Jorge Ben).

Ela opta por um cinema particular, criando universos partidos da realidade, como um olhar filtrando as emoções e dando-lhes prioridade. Sua decupagem preza por planos aproximados, sem muitos planos gerais ou conjuntos. As conversas possuem um ar de descontração que fazem com que soem verossímeis. Um uso de palavras coloquiais facilitam os atores, que têm a possibilidade de um outro tipo de atuação, com maior liberdade e improviso. Miklos parece se encaixar bem no tipo de papel que fala muitas gírias, como em uma conversa de bar, como em O Invasor (2002) . Pires nos dá algumas atuações impressionantes (e algumas nem tanto), principalmente quando vemos sua depressão/solidão bem de perto, como o plano detalhe de seu olho. A trama cria uma atmosfera de tensão depois do acidente de Estelinha, que surge como antagonista para Baby. O fim deixa o desfecho das histórias dos dois em aberto, fazendo com que o espectador suponha o que tenha acontecido depois.


Uma boa surpresa um filme se diversificando, mostrando algo além do que vemos nas novelas ou séries de TV brasileiras e fazendo-nos acreditar que um cinema com apelo comercial e que ofereca algum tipo de reflexão seja possível . Assim, cria-se uma nova mentalidade em torno da criação de filmes, sendo esses que se diversificam e pretendem abordagens menos usuais normalmente apontam para uma linguagem e temática mais criativa, livre e sincera.

G.C.

5 discos de rock de 2009

WILCO – WILCO (THE ALBUM)

Wilco, banda de Chicago que já tem 14 anos de carreira, nos oferece mais um punhado de belas e conscientes canções sobre o mundo que vivemos, trazendo sempre uma esperança.

Nesse álbum temos uma mudança de abordagens em relação ao último CD, Sky Blue Sky (2007), que transpirava virtuosimo e energia, combinados com momentos desespero. O Wilco de The Album é mais country, mais consciente das armadilhas do mundo, assentando-se em terra firme. Há mais seneridade em suas letras, mais beleza.

Mantendo-se com poder criativo excelente, Wilco se firma como uma das melhores bandas americanas de rock da atualidade.

THE PAINS OF BEING PURE AT HEART – Homônimo

Disco notável de estréia de uma banda de Nova York, que flerta com o Shoegazed de MBV, as guitarras sujas de JAMC,  a adolescência de um Teenage Fanclub, e soando atual apesar das influências. Suas letras são simples, com refrões pegajosos, backing vocals suaves, criando uma atmosfera doce. Come Saturday, This Love is Fucking Right! e Young Adult Fiction estão entre as melhores.

FRANZ FERDINAND – TONIGHT!

O Franz nos traz em seu terceiro CD um album mais eletrônico que seus anteriores, estando conscientes de que, já que a proposta é fazer dançar, isso não choca com aquilo que a banda se dispõe a fazer. Além disso, todos os elementos que se podem esperar do Franz estão lá, as baterias pulsantes, os riffs nada complicados e eficazes, e vocal festa/romântico de Kapranos, etc. Ou seja, eles continuam competentes no que fazem.

RED RIDERS – DROWN IN COLOUR

5º cd da banda australiana, que não lançava nada desde 2006. Um álbum que contém resumida boa parte do rock dos anos 2000: Strokes, Arcade Fire, Libertines, QOTSA, Kings of Leon, etc. Uma olhada nas influências (do myspace da banda) esclarece o som: Talking Heads, The Beach Boys, The Stone Roses, Primal Scream, JAMC, Bob Dylan, The Church, Blur, The Replacements, Pavement, Elastica, Nirvana, Andreas Gursky(?), The Cure, The Cars, THE MODERN LOVERS, Weezer, Tequila, T-Rex, Television, electricity, David BOWIE, knit-wear, floral, The Smashing Pumpkins, The Smiths, The Byrds, Radiohead, MBV, Wayne’s World, BACK TO THE FUTURE,  Kate Bush, Risk, Nik Cohn, The Strokes, The Beatles, etc.

Ouça: The Beginning Of The End Of The Night e veja se faz sentido.

VIVA VOCE – ROSE CITY

Viva Voce nasceu em 1998. Em seus 5 discos lançados, 4 são excelentes, e um é irregular (Get Yr Blood Sucked Out, 2006). A banda é de uma constância invejável. Hooray for Now, seu primeiro cd, é o mais rock, bem adolescente, com clara influência de Nirvana, Smashing Pumpkins, Pixies. Os dois próximos Lovers, Lead The Way e The Heat Can Melt Your Brain, são seus melhores trabalhos, com muitos arranjos bem trabalhados e músicas incríveis, sublimes. Em Rose City, temos uma aproximação maior ao primeiro CD. Se o Viva Voce dos 3 últimos álbuns são suaves, viajantes, apaixonados, Rose City volta com mais energia  e uma pitada de raiva. Die A Little é violenta, Rose City (a música) é rápida e bela. Good as Gold é otimista. E o conjunto é bem coerente. Viva Voce é um bom achado.

Vale a pena ouvi-los.

G.C.

Crítica: Bad Timing – Nicolas Roeg (1980)

O britânico Nicolas Roeg, um dos poucos diretores de fotografia que se firmaram como diretor, nos apresenta uma trama sobre obsessão, compulsão, excessos, amor e a sua ausência. Com seu roteiro não obedecendo uma ordem cronológica, Bad Timing é precursor do estilo de montagem dos anos 90/2000, não pelos cortes rápidos, mas por criar um verdadeiro quebra-cabeça, e ainda assim, mantendo a história coerente, adicionando novos elementos e dando um desfecho à trama progressivamente.

Sua preocupaão com a imagem é evidente, construíndo cenários repleto de cores e ênfase em luzes dentro do quadro, como o quarto caótico de Milena, que transpira loucura. O vermelho é bastante utilizado, não a ponto de ser elemento criador de sentido como em (Don’t Look Now – 1973), mas simboliza paixão, fogo.

Art Garfunkel (do Simon & Garfunkel) está seguro como protagonista, fazendo o aparentemente equilibrado Alex, um psiquiatra. Uma das cenas iniciais mostra Milena (Theresa Russell) sendo levada em ambulância.

O filme contará a trajetória que levou esse fato acontecer. Harvey Keitel faz o policial insistente, que pretende ir fundo nas investigações e entender a razão do acontecimento. Alex e Milena vivem um relacionamento estável, na medida em que isso é possível, devido a inquietude de Milena. Quando Alex pretende casar-se com Milena, por não conseguir imaginá-la com outro, e ela recusa, por querer ser livre, cria-se uma espiral de acontecimentos intensos e absurdos, porém, plausíveis. São cenas carregadas de insanidade, e ela é aparente ou pelas ações dos personagens, ou está imbuída nos diálogos.

Duas cenas se sobressaem:  diálogo entre Alex e Milena na faculdade, onde conforme adquire intensidade de sentimentos, o fundo começa a desfocar, criando um efeito de instabilidade emocional. Tudo ao redor se torna excluído para os dois, e o mundo se resume a eles.

Outra cena é a das garrafadas. Violenta, raivosa, uma explosão. Só imagino a dificuldade de se criar uma sequência como essa. Primeiro, a atuação bizarra e sensacional de Milena, com o rosto maquiado, uma roupa medonha, totalmente pirada falando coisas sem sentido. Ela lembra uma das replicantes de Blade Runner, e a cena de algum modo me remete a Laranja Mecânica.

Os pontos fracos do filme são os que se relacionam à tendência dos “filmes de arte” dos anos 70/80, que optava por um erotismo até injustificado por razões comerciais (esse tipo de cinema atraía o público). Apesar disso, o sexo aqui ganha uma conotação que vai além do prazer, ela perpassa toda a loucura da atmosfera do filme. Isso influenciará a cena final, onde Alex comete um ato totalmente discutível moralmente. A intenção da cena foi de gerar polêmica (o que de fato aconteceu), pela carga de culpa ao presenciar tal ato. Aquele é o caminho ditado pelo roteiro, mas tudo que o espectador pretende é evitar que a ação se realize.

Com seus excessos e deslizes (menores que os acertos),  sua inovação na linguagem, maturidade ao tratar temas obscuros e ao materializar algo tão abstrato como a insanidade, Bad Timing é um filme à frente de sua época.

G.C.

Yellow green, green yellow, Mr. Sganzerla

O que é o Brasil? O que é o brasileiro? E, afinal, quem é Aranha? Um político corrupto? Um cafetão responsável por levar brasileiras para se prostituirem no estrangeiro? Um favelado que joga as economias do mês no jogo do bicho? Sou eu? É você? A verdade (?) é que SEM ESSA ARANHA é um grande e contundente ponto de interrogação.

A câmera irrequieta de Rogério Sganzerla adentra o imaginário tupiniquim para fazer um estudo sobre a brasilidade. Adotando o subdesenvolvimento como escolha estilística, Sganzerla traduz, com exímia habilidade, para a linguagem da sétima arte, o Brasil do momento da produção do filme em questão.

Com uma fotografia e um som (da competência do singular Guará) irregulares, uma montagem marcada por cortes abruptos, uma pulsante câmera na mão, atuações forçadas e personagens exagerados, Sganzerla realiza uma obra de estética agressora, desagradável aos olhos do espectador – “O novo cinema deverá ser imoral na forma para ganhar coerência nas idéias, porque, diante dessa realidade insuportável, somos antiestéticos para sermos éticos”, nas palavras do próprio.

O roteiro – se é que se pode dizer que há um, uma vez que tal competência é inexistente nos créditos do filme – usa e abusa do recurso da repetição, tanto imagética quanto sonora e verbal. Na voz de Helena Ignez: “o sistema solar é um lixo”. “planetazinho metido a besta”, “tem que pecar em dobro pra esse planeta não virar de pernas pro ar”; ou de outrem: “ai que dor de barriga”, “tô com fome”, “o que é o Brasil?”, “o que é o brasileiro?”.

O futebol, o samba, a miséria, a favela, a corrupção, o jogo do bicho, a prostituição, Zé Bonitinho, a fome, o baião – encarnado na figura de Luiz Gonzaga-, o Rio de Janeiro, as praias, o subdesenvolvimento, o cinema nacional – tudo é Brasil. SEM ESSA ARANHA é o Brasil a 24 quadros por segundo.

Falando em Brasil, é preocupante a falta de respeito do brasileiro com sua identidade cultural, relegando seu passado ao que se pode chamar de uma semi-inexistência. O limbo a que foram destinadas algumas das obras-primas do cinema nacional é de causar perplexidade, filmes como Limite e Ganga Bruta (que por pouco não foram totalmente perdidos) são exemplos crassos desse descaso brasileiro com sua história. Os filmes da produtora Belair, cujos principais nomes são Rogério Sganzerla e Júlio Bressane, de imensa relevância no cenário do cinema independente nacional são sintomáticos dessa aversão do brasileiro por seu passado. Além de alguns desses filmes estarem totalmente perdidos, outros possuem raríssimas e difíceis cópias, como é o caso de SEM ESSA ARANHA.

SEM ESSA ARANHA é, de fato, um filme datado (a presença da década de 70 e o que tal momento implicou para o cinema e a vida brasileiros estão lá em sua diegese), mas, nem por isso, deixa de ser um filme atualíssimo – as questões, os anseios, o Brasil e o brasileiro pouco mudaram de lá pra cá.

O fato é que SEM ESSA ARANHA, em toda sua grandiosidade, merece uma exibição maior que a projeção em dvd, na humilde tela do CCBB para meia-dúzia de gatos pingados. Me parece que a projeção em película, na ostentosa tela do falecido Palácio, fosse mais condizente com todo seu vigor.

Toda essa grandeza anunciada anteriormente torna inglória a tarefa desse que o tenta trazer à luz de palavras. A verdade é que nem duas, nem mil páginas dariam conta do tamanho de SEM ESSA ARANHA.

Bernard Lessa

Crítica: The Host – Bong Joon-Ho (2006)

Co-produção japonesa e sul-coreana, O Hospedeiro é uma mistura de gêneros eficiente, transitando pelo horror, suspense, ação, humor negro e ficção científica.

Seus momentos de ápice são quando o monstro-título entra em ação, fazendo com que as cenas de preparação, nas quais o roteiro se desenvolve, quebrem o ritmo. Porém, essas cenas que poderiam passar desapercebidas se enriquecem pela habilidade que Ho tem em manejar a linguagem e o trabalho minucioso de iluminação, cenários e de cores. Além disso, os aspectos formais não são renegados, havendo planos bem construídos geometricamente, uma preocupação evidente com a profundidade de campo próxima ao infinito nas cenas externas, e uma atenção aos rostos e pedaços do corpo nos planos aproximados, além de muitos travellings com função narrativa de ação (acompanhando algum personagem ou o monstro).

Em uma de suas cenas interessantes, temos o protagonista e seu amigo andando pelas ruas escuras, quando um som fora-de-quadro surge, remetendo obviamente ao monstro, criando suspense. Logo, vê-se que era apenas o barulho de alguma máquina soltando fumaça, deixando o espectador aliviado.

A tecnologia é enfatizada, mostrando como os meios de comunicação reagem ao acontecimento e como ela ajudaria em uma situação catastrófica (celulares para comunicação, medicina para resolução). Há também uma sátira política, afirmando que as autoridades mal sabem como agir no caso, cometendo as maiores ignorâncias: como simplesmente fazer um churrasco na beira do rio onde o monstro habita.

Os FX do monstro são totalmente convincentes, infelizmente até a cena final, onde o monstro queimado demonstra claramente um fogo inverossímil. Há também cenas que devem ter apelos cultural regionais, como certas “piadas corporais em conjunto”, teatrais; expressões exageradas, como choros e risos, típicas do humor oriental; e cenas com ênfase sentimental que se tornam cansativas, para não dizer patéticas.

Ho se mostrou um grande entretainer, com apelo de massa, como um Spilberg era em seu período mais fecundo (70-80). Aliás, se Spielberg viu esse filme, deve ter sentido uma inveja monstruosa.

G.C.

Crítica: Once Around (1991) – Lasse Hallström

Hallström, diretor sueco, faz sua primeira incursão nos EUA para um gênero que era recém-nascido (Harry and Sally é de 1989). Nos apresenta uma família ligada à tradição, quando a filha conhece e se apaixona por um senhor, generoso, divertido e excessivo em suas atitudes, está criado o conflito. No geral, não passa de uma história muito convencional, mas há elementos admiráveis. A cena abaixo é típica de cinéfilo,  algo que Hallström sabe se aproximar: vide My Life as a Dog (1985).

Há vários plongeés interessantes e o humor cheio de ironia é dosado com cenas de forte carga dramática. Hallström também explora com sucesso cenas de “vergonha alheia”, expondo personagens a situações embaraçosas em público frequentemente.

Um ponto fraco é a atuação de Gena Rownlands, atriz que perpetuou uma das mais sufocantes atuações que já vi em Uma Mulher Sobre Influência (1974), de John Cassavetes. Me parece que ultimamente ela se acomodou em fazer papéis de mamães donas de casa, como se vê em Diário de Uma Paixão (2004), dirigido pelo filho de John, Nick. Dreyfuss está excelente, dando tudo de si e convencendo. Hunter também não decepciona, conseguindo transmitir seus sentimentos perfeitamente.

Um dos plongeés me lembrou um dos planos de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças:

A ênfase na música tema no filme é excessiva, o que se torna piegas. No conjunto pórém, devido ao monte de filmes medíocres do gênero, Meu Querido Intruso (tradução condizente) parece acima da média.

G.C